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Escrito por Neo Mondo | 24 de julho de 2025
"O que é bom para os EUA é bom para o Brasil" - Imagem gerada por IA - Foto: Ilustrativa/Divulgação
ARTIGO
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Por – Daniel Medeiros*, articulista de Neo Mondo
“Chega de intermediários: Lincoln Gordon para presidente do Brasil.”
Essa frase, pichada nos muros do Rio de Janeiro logo após o golpe militar de 1964, evidenciava a percepção de setores da nossa sociedade de que a mudança de regime político naquele momento devia-se menos aos arroubos comunistas de Jango (de resto, inexistentes) e mais ao risco que ele representava aos interesses econômicos e geopolíticos dos EUA.
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E isso era inadmissível para o “grande irmão do norte”, que, desde os anos 1920, via a América Latina como o puxadinho de seus interesses — ou seja, como fornecedora de matérias-primas a preços camaradas e compradora das manufaturas norte-americanas, geradoras de empregos por lá e dívidas por aqui.
Qualquer experiência nacionalista, como as iniciadas por Vargas e que João Goulart, tímida e ineficientemente, tentava dar prosseguimento, era vista como um “ataque" aos interesses estadunidenses.
Daí as diversas intervenções: indiretas, como as que asfixiaram as exportações de café no último governo Vargas e que pioraram o quadro inflacionário interno, desagradando a classe média e os setores militares, preocupados com a agitação dos trabalhadores; ou diretas, como no caso de João Goulart, com a organização de uma força-tarefa de intervenção — a Operação Brother Sam — que não foi acionada porque o golpe foi rápido e sem resistência notável.
Sempre foi claro para os EUA que o Brasil é o pêndulo da América Latina e que, portanto, seus governos precisam ser fortemente vigiados. Qualquer mudança de postura — como querer ampliar as relações multilaterais, diminuindo a dependência do mercado dos EUA — pode gerar um zum-zum no continente e reduzir os gigantescos ganhos que os norte-americanos usufruem com suas trocas desiguais.
Isso já era evidente em 1971, quando o então presidente Nixon declarou: “Para onde o Brasil for, o resto da América Latina irá”.
Dado o golpe de 1964, Castelo Branco designou como embaixador nos EUA o antigo interventor de Vargas na Bahia, Juracy Magalhães. Como síntese de seu trabalho e dos propósitos do novo governo, Juracy traduziu o nosso espírito de “quintal”:
“O que é bom para os EUA é bom para o Brasil.”
De lá pra cá, o mundo mudou — e o Brasil, um pouco no governo Geisel e muito nos governos petistas, tem procurado refutar esse papel de quintal e começar a cantar de galo, buscando protagonismo nas relações Sul-Sul e, principalmente, com a formação do BRICS, além de diversas tentativas de acordos multilaterais com a União Europeia e com o Oriente Médio.
O resultado é que hoje apenas 2% do nosso PIB provém de relações comerciais com os EUA. Apesar disso, continuamos deficitários com os “irmãos do norte”. Isto é: eles continuam faturando em cima de nossos trabalhadores, produtores rurais, industriais, comerciantes e população em geral.
Então, por que as taxações e ameaças?
Porque ousamos propor deixar de sermos quintal. Porque propomos uma relação sem chefe declarado e sem subordinado submisso. Porque queremos que a palavra soberania realmente faça algum sentido maior do que o de mera retórica.
Depois de décadas de vassalagem, o desafio agora é resistir aos ataques, manter-se firme e buscar um diálogo em outras bases.
A pergunta que resta é:
O quão patriotas são, realmente, os que se chamam patriotas no nosso país?
O bordão “Brasil acima de tudo” tem mesmo algum conteúdo — ou as críticas de que o governo brasileiro “não deveria ter provocado os EUA” vão tentar legitimar a nossa velha tradição de quintal, aceitando as taxas e os desaforos contra nossas instituições como se fossem um desabafo malcriado do patrão?
As próximas semanas dirão.
*Daniel Medeiros é professor e consultor na área de humanidades, advogado e historiador, Mestre e Doutor em Educação Histórica pela UFPR.
E-mail: danielhortenciodemedeiros@gmail.com
Instagram: @profdanielmedeiros

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