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Dois países, uma crise e a conta do clima

Escrito por Neo Mondo | 8 de junho de 2026

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Dois países, uma presidência compartilhada e um planeta pressionado entre a dependência dos combustíveis fósseis e a urgência da transição energética. O caminho até a COP31 passa por águas cada vez mais turbulentas - Imagem gerada por IA - Foto: Ilustrativa/Neo Mondo

POR - OSCAR LOPES*, PUBLISHER DO NEO MONDO

Como a presidência compartilhada mais inédita da história das negociações climáticas enfrenta seu primeiro teste real em Bonn, enquanto guerras, tarifas e a maior ruptura energética em décadas redefinem o que significa liderar

Em 28 de fevereiro de 2026, quando as forças norte-americanas e israelenses iniciaram ataques aéreos contra o Irã, o Estreito de Ormuz foi bloqueado. A Agência Internacional de Energia classificou o evento como "a maior disrupção de oferta na história do mercado global de petróleo". O petróleo Brent ultrapassou US$ 120 por barril, a QatarEnergy declarou força maior sobre todas as exportações e os países do Golfo Pérsico viram sua produção coletiva cair em pelo menos 10 milhões de barris por dia. É nesse mundo que os negociadores do clima da ONU chegam a Bonn, nesta semana, para o único encontro oficial entre a COP30 e a COP31.

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A coincidência não é neutra. A crise abriu uma brecha na narrativa convencional que por décadas opôs a intermitência das renováveis à suposta segurança do carvão, do petróleo e do gás. O que parecia estabilidade revelou-se dependência estratégica de um estreito com 54 quilômetros de largura. A física geopolítica mudou mais rápido do que qualquer NDC. E é justamente agora que Turquia e Austrália precisam demonstrar que sabem conduzir o processo mais complexo da diplomacia multilateral do planeta.

O arranjo foi anunciado na COP30, em Belém: a Turquia sedia a COP31 em Antália e assume a presidência formal da conferência, enquanto a Austrália detém a presidência das negociações, com autoridade exclusiva para conduzir os textos e emitir a decisão final da cúpula. Nunca foi feito antes — não existe precedente de presidência compartilhada na história da UNFCCC, como definiu Alden Meyer, analista sênior do think tank E3G. A divisão emergiu de um impasse que durou mais de um ano, com a Turquia reivindicando a sede em nome dos países em desenvolvimento e a Austrália defendendo uma candidatura conjunta com as nações insulares do Pacífico.

O acordo prevê que, em caso de divergência entre Turquia e Austrália, "consultas terão lugar até que a diferença seja resolvida a contento mútuo". A frase é diplomaticamente elegante. Na prática, é uma cláusula de atrito institucionalizada, inserida no coração de uma presidência que precisa entregar implementação concreta num ambiente radicalmente fragmentado.

A palavra que domina os documentos preparatórios de Bonn é "implementação". A COP30 produziu acordos. A COP31 precisa mostrar que acordos se transformam em ação. A reunião de Bonn é o único momento oficial de negociação entre Belém e Antália, e o espaço onde precisam ser moldadas as zonas de aterrizagem para as decisões de novembro. Se os países avançarem substantivamente nas negociações técnicas, a COP31 poderá concentrar-se nos pontos politicamente mais contenciosos, melhorando a eficiência processual e ajudando a restaurar a confiança no processo multilateral.

Essa confiança está sob pressão. O contexto geopolítico é marcado por incerteza econômica, tensões comerciais, agravamento dos efeitos climáticos e uma crise de combustíveis fósseis. As negociações acontecem sob o pano de fundo de instabilidade geopolítica, guerras em curso, encolhimento do espaço cívico e aceleração dos efeitos climáticos em todo o mundo. Não é o ambiente em que se constroem consensos históricos.

A tensão mais visível é a que envolve a própria Turquia. O Climate Action Tracker avalia a política climática turca como "criticamente insuficiente" e aponta que o país precisará submeter uma nova NDC alinhada a 1,5°C, desenvolver um plano de abandono do carvão e parar de investir em combustíveis fósseis. Em 2025, o carvão gerou cerca de um terço da eletricidade turca, com o gás fóssil representando 23% da matriz. Dias antes de uma reunião estratégica com delegações australianas e brasileiras em Istambul, em fevereiro, a petroleira estatal Turkish Petroleum assinou novos contratos de exploração de petróleo e gás com Chevron e ExxonMobil para aumentar a produção do campo de Gabar.

O ministro turco do meio ambiente, Murat Kurum, presidente designado da COP31, chegou a condenar o recuo climático como "inaceitável", mas advertiu que os esforços para cortar emissões não podem vir à custa do crescimento econômico do país. A equação que propõe — crescimento e descarbonização simultâneos — é precisamente o que a maioria dos países em desenvolvimento defende. Mas a Turquia a enuncia a partir de uma posição singular: a de país anfitrião e presidente formal de uma cúpula que, mais do que qualquer outra, precisará fixar o ritmo do abandono dos combustíveis fósseis. Ainda não existe um plano nacional de eliminação gradual do carvão.

A Austrália, de seu lado, chega a Bonn com uma agenda mais alinhada às expectativas dos países progressistas. O país tem como meta uma redução de 43% nas emissões em relação aos níveis de 2005, e sua presidência das negociações foi construída retoricamente em torno das ilhas do Pacífico. Mas o arranjo com a Turquia gerou mal-estar. Papua Nova Guiné expressou frustração com Canberra após a desistência da candidatura original: "Não estamos felizes e estamos desapontados com o resultado." A visibilidade prometida ao Pacífico foi parcialmente preservada, com uma pré-COP na região prevista para outubro, mas o simbolismo político da concessão australiana permanece.

Em Bonn, a tarefa mais delicada é dar forma ao Mecanismo Belém-Antália para a Transição Justa (BAM), criado na COP30. O mecanismo deve fornecer um referencial para que países incorporem considerações de transição justa em suas ações climáticas nacionais — tanto na adaptação quanto no abandono progressivo dos combustíveis fósseis —, moldar parcerias, orientar a entrega de financiamento climático e criar caminhos de implementação equitativos. Torná-lo operacional até Antália exige precisamente o tipo de construção técnica e política para o qual os corpos subsidiários da UNFCCC existem — e que, nos últimos ciclos, têm sistematicamente atrasado.

A pauta inclui ainda a Agenda de Ação, que a presidência turca pretende transformar no vetor de implementação da COP31, com foco em eletrificação, industrialização verde, economia circular e cidades resilientes. A Turquia enfatizou a redução de emissões de aterros sanitários como uma de suas prioridades para essa agenda. O recorte é coerente com o leitmotiv da "visão de resíduo zero" promovido por Ancara internacionalmente — mas levanta questões sobre o que fica fora do enquadramento, especialmente os setores de energia e transportes.

O pano de fundo financeiro é igualmente exigente. O NCQG, o novo pacto climático quantificado acordado na COP29, definiu a meta de pelo menos US$ 300 bilhões em financiamento público anual e US$ 1,3 trilhão a partir de todas as fontes até 2035 para países em desenvolvimento. A distância entre os compromissos atuais e esses valores permanece considerável, e os países vulneráveis chegam a Bonn pressionando por respostas concretas — não por novas rodadas de consultas.

Cerca de 80 países apoiam linguagem de eliminação gradual dos combustíveis fósseis e 24 endossaram a Declaração de Belém para avançar a transição em 2026. Mas o contexto geopolítico eleva as apostas: se as tensões escalarem ainda mais, os preços da energia subirão e a pressão para expandir a produção de fósseis se intensificará. A crise do Estreito de Ormuz já está sendo lida por alguns governos exatamente dessa forma — como argumento para diversificar o fornecimento energético, o que no curto prazo costuma significar mais gás liquefeito, mais carvão, mais LNG dos Estados Unidos.

A E3G observou que a crise reforçou a necessidade de os países reduzirem sua dependência de combustíveis fósseis e construírem sistemas de energia mais resilientes. É uma leitura que converte a crise em argumento pela aceleração da transição. Mas o mesmo evento pode ser lido pela lente oposta — e em muitas capitais, está sendo.

Bonn não decidirá nada. Mas o que emergir daqui moldará o que pode ser decidido em Antália. A presidência compartilhada mais inédita da história da UNFCCC tem cinco meses para demonstrar que dois países com agendas climáticas domésticas contrastantes e um arranjo institucional sem precedentes conseguem conduzir o processo mais exigente da diplomacia global. O primeiro sinal virá desta quinzena, no Reno.

*Com informações do ClimaInfo.

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