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Educar para o campo, não para a bola

Escrito por Neo Mondo | 27 de maio de 2026

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Educar é ensinar a enxergar além da bola e compreender as conexões invisíveis que movem o mundo - Imagem gerada por IA - Foto: ilustrativa/Neo Mondo

ARTIGO

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Por - Miriã Salles*, especial para Neo Mondo

A tensão entre Irã e EUA na Copa de 2026 ensina que devemos ir além do conteúdo técnico para formar estudantes capazes de decifrar as complexas tramas da geopolítica e da subjetividade humana

Nelson Rodrigues, um dos maiores observadores da alma humana, escreveu que, no futebol, “o pior cego é o que só vê a bola”. Essa frase encerra uma lição pedagógica profunda: a realidade nunca é um ponto isolado, mas um campo vasto de interações, que acontecem em múltiplas dimensões. Na educação, o desafio contemporâneo é justamente este: formar cidadãos que não fiquem apenas hipnotizados pela “bola” dos fatos imediatos e do conteúdo técnico, mas que consigam enxergar a complexidade de todo o “campo” ao redor.

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Um exemplo atual que exige essa visão sistêmica são as questões que envolvem a participação do Irã na Copa do Mundo de 2026, sediada pelos Estados Unidos, México e Canadá. Para quem “só vê a bola”, trata-se apenas de um evento esportivo em que se enfrentarão seleções de diferentes países. Entretanto, para quem foi ensinado a estabelecer conexões, o jogo é o ponto de encontro de uma rede de tensões globais que demanda uma análise que contemple múltiplas camadas.

Sob as lentes histórica, política e econômica, a possibilidade da presença iraniana em solo norte-americano traz à luz uma história marcada por disputas geopolíticas no Oriente Médio que colocam em confronto, há décadas, diferentes perspectivas e, consequentemente, modos antagônicos de ser e estar no mundo. A análise escolar não deve buscar um veredicto sobre qual lado está certo, mas apresentar como esses contextos e suas consequências moldam os movimentos do presente.

Para além do olhar “isto ou aquilo”, para o país A ou para o país B, uma análise sistêmica real considera um terceiro elemento fundamental: o sujeito e a sua subjetividade.

O foco na subjetividade humana é o que impede a desumanização do conhecimento. Por trás das bandeiras e das decisões, existe o indivíduo: o atleta que treinou uma vida inteira, o torcedor que vê no esporte sua identidade cultural e o cidadão comum, atravessado pela violência dos conflitos que não escolheu. A escola cumpre seu papel ao mostrar que, além dos dados estatísticos, existe a experiência humana — um elemento que traz nuances e contradições que nenhuma fórmula simplista consegue explicar.

O papel da educação, portanto, é garantir que o estudante não sofra da “cegueira” a que alude a máxima de Nelson Rodrigues. Ensinar a enxergar apenas a “bola” pode ser suficiente para acompanhar o jogo; ensinar a compreender o “campo” em sua totalidade é mostrar que futebol, política e economia são fios de um mesmo tecido social. Ao abordar o cenário entre Irã e EUA sem juízos de valor, mas com foco na complexidade e na subjetividade dos sujeitos, a escola ajuda o estudante a compreender que nada acontece de forma isolada.

Em tempos de leituras rápidas e posicionamentos imediatos, educar para a complexidade não é apenas uma escolha pedagógica; é uma necessidade. Precisamos ensinar nossos jovens a olhar para além da bola e a compreender a imensidão do campo — e das pessoas que nos cercam.

* Miriã Salles é diretora do Colégio Santo Ivo.

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Miriã Salles, autora do artigo "Educar para o campo, não para a bola" - Foto: Divulgação

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