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Energia solar no Brasil registrou a maior queda em anos: o que isso diz sobre nosso futuro?

Escrito por Neo Mondo | 20 de janeiro de 2026

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Energia solar enfrenta um “apagão de confiança” provocado por curtailments - Foto: Ilustrativa/Freepik

POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DE NEO MONDO

Panorama desconfortável, contradições inovadoras e um alerta urgente: o Brasil, dono de um dos melhores recursos solares do planeta, enfrenta uma retração de 29% nas novas instalações de energia solar. Qual a história que essa estatística realmente conta?

O Brasil — um país com sol abundante, longas jornadas de luz e potencial quase inexplorado — parecia destinado a ser protagonista na corrida global pela energia limpa. Mas o ano de 2025 marcou uma pausa inesperada nessa narrativa. Segundo levantamento da Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (ABSOLAR), as novas instalações solares no país caíram 29% em relação ao ano anterior — baixando de 15 GW em 2024 para 10,6 GW em 2025.

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A contradição solar: sol de sobra, expansão de menos

É quase poético — e paradoxal — que uma nação banhada por um dos melhores recursos solares do planeta possa tropeçar justamente na fonte que poderia impulsionar sua descarbonização energética. O Brasil tem irradiância solar excepcional, com níveis ideais para geração fotovoltaica em praticamente todo o território.

Então, qual é o gargalo? A resposta não está apenas no clima ou na tecnologia — está em uma cadeia complexa de fatores econômicos, regulatórios e estruturais que transformaram um cenário de expansão em um terreno de instabilidade.

Os “fantasmas” que travam a conexão ao futuro

Dois termos técnicos tornaram-se protagonistas nessa história:

  • Curtailments — cortes forçados de geração de energia que reprimem a produção das usinas solares, muitas vezes sem compensação financeira adequada para os geradores, drenando rentabilidade e confiança.
  • Inversão de fluxo de potência — fenômeno que ocorre quando sistemas solares, especialmente os menores, começam a injetar energia na rede e encontram resistência das distribuidoras que alegam limitações técnicas para absorver esse fluxo reverso.

Esses entraves operacionais não são apenas números: são barreiras reais que barram a energia limpa de entrar em casas, bairros, cidades e transformar vidas.

O peso pesado do macroeconômico

O mercado solar brasileiro também lutou com outra realidade dura: custos elevados de capital, volatilidade do dólar e a carga tributária sobre equipamentos fotovoltaicos importados.

Imagine um investidor olhando para projetos que exigem financiamento caro, retorno demorado e um sistema de conexão que nem sempre funciona. O sol pode estar brilhando lá fora, mas no mundo dos números e balanços, as nuvens se formam rápido.

Mas e o saldo humano dessa história?

Mesmo com a retração, há um lado luminoso: o setor gerou mais de 319 mil empregos “verdes” em 2025, mantendo viva a chama da energia renovável na economia brasileira.

Além disso, desde 2012, o Brasil já acumulou mais de R$ 280 bilhões em investimentos em energia solar, mostrando que o percurso de transição energética não começou ontem — e que há resultados palpáveis que não podem ser ignorados.

Essa história humana — de famílias que instalaram painéis em seus telhados, de pequenos empreendedores que apostaram nas renováveis, de jovens técnicos que construíram carreiras nas usinas solares — é tão relevante quanto os gigawatts registrados nos relatórios.

Um ângulo surpreendente: o Brasil pode reinventar seu papel no mercado solar global

O que pouca gente percebe é que essa retração pode ser um ponto de inflexão — não uma derrota. A crise pode impulsionar modelos inovadores de negócio, por exemplo:

  • Combinação de energia solar com armazenamento em baterias (BESS) — mitigando curtailments e aumentando a confiabilidade da rede.
  • Comunidades solares e geração compartilhada — democratizando o acesso à energia limpa e contornando obstáculos técnicos de conexão.
  • Inovação em financiamento verde e microcrédito sustentável — criando um ambiente mais resiliente para pequenos investidores e consumidores.

E, em um mundo onde a transição energética não é apenas tendência, mas necessidade, essas alternativas podem posicionar o Brasil não apenas como consumidor, mas como protagonista tecnológico e exportador de soluções em energia limpa.

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Queda de instalações não é apenas um número — é um espelho que reflete nossas escolhas políticas - Foto: Ilustrativa/Freepik
Reflexão final: um país de sol precisa (re)aprender a brilhar

Queda de instalações não é apenas um número — é um espelho que reflete nossas escolhas políticas, econômicas e estratégicas. O sol não vai embora; o que precisamos repensar é a forma de aproveitá-lo para incluir mais pessoas, gerar riqueza local e impulsionar uma transição energética real e justa.

O Brasil tem sol de sobra. Talvez o que falte seja luz na tomada das decisões que realmente importam.

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