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Extremismo

Escrito por Neo Mondo | 15 de setembro de 2025

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Imagem gerada por IA - Foto: Ilustrativa/Divulgação

ARTIGO

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Por – Daniel Medeiros*, articulista de Neo Mondo

Nas conversas, é comum ouvir que os extremos são sempre ruins e não trazem nenhuma contribuição válida.
Perfeito. Sem dúvida, o extremismo é a decisão pela negação do que se opõe. É a manifestação de que aquilo que se combate deve ser eliminado — como fazem os terroristas, ao buscar destruir seus inimigos; os fanáticos, quando exigem que os pecadores sejam punidos de forma absoluta; ou os radicais, que querem acabar com seus opositores, “varrendo-os do mapa”.

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Nas conversas, porém, é comum ouvir equívocos que borram nossa compreensão sobre o que é extremismo.
Por exemplo: quando se afirma que todo “ismo” é extremista. Dessa forma, o feminismo seria apenas a outra face do machismo, assim como o racismo teria seu reverso na oposição de negros contra brancos (o chamado “racismo reverso”). Ou quando se colocam conservadores de costumes contra a comunidade LGBT. Ou “patriotas” contra os imigrantes.

O extremismo ocorre sempre que alguém ultrapassa a barreira da máxima que afirma que “as ideias é que devem disputar, nunca as pessoas”. Se, diante das ideias de alguém, eu resolvo eliminá-lo, sou um extremista.
Mas não nos iludamos: ideias que propagam a eliminação dos que pensam e agem de forma diferente também são extremistas. Mesmo que o cidadão que fala não mate, se ele diz — ou apenas insinua — que o mundo ficaria melhor sem aquelas pessoas, é extremista.

Machistas negam direitos às mulheres. Feministas lutam por direitos iguais. Observem que o extremismo só ocorre, quando ocorre, em uma direção. O mesmo se dá com o racismo: brancos negam direitos aos negros; negros lutam por direitos iguais. Conservadores de costumes negam direitos a pessoas trans. O movimento LGBT não quer negar direitos aos heterossexuais, mas ter os mesmos que eles. Imigrantes querem apenas a oportunidade de trabalhar e viver em paz — não de expulsar os nativos de seus lugares de origem ou de causar-lhes a morte.

Toda vez que uma mulher, um negro, uma pessoa LGBT ou um imigrante pega em uma arma e fere ou mata alguém, torna-se extremista, porque abandona o caminho do diálogo e da luta política por direitos e acredita que, eliminando o seu detrator, poderá conquistar algo. No entanto, o mundo em que vivemos hoje está saturado de discursos machistas, homofóbicos, racistas e xenófobos — e esses discursos alimentam o extremismo em toda parte. De muita gente. Gente que se diz cristã. Gente que se diz “de bem”. Gente que se diz “patriota”. E esses discursos não são simples expressão de uma opinião protegida pela Constituição, mas peças fundamentais de um processo de internalização de uma visão de mundo antidemocrática e violenta, porque negam a igualdade perante a lei e, principalmente, negam a dignidade de cada um buscar ser o que quiser ser — desde que não fira a lei nem atente contra a integridade de outra pessoa. Extremismo.

Logo, um discurso feminista não é produtor de extremismo. Um discurso em favor da diversidade cultural não é produtor de extremismo. Um discurso em favor de direitos iguais para negros e negras não é produtor de extremismo. Um discurso em favor dos direitos dos imigrantes não é produtor de extremismo.
Isso precisa ficar claro nessas conversas, pois são elas — essas conversas do dia a dia, todo dia, toda hora — que criam uma capa de invisibilidade sobre a real razão de tanta violência nos dias de hoje: o extremismo das ideias que defendem um mundo “do jeito que eu imagino”, e não do jeito que combinamos como sociedade democrática, como Estado de Direito.
O “jeito que eu imagino” afasta, discrimina, seleciona, impede, segrega e, no limite, elimina. Não é, portanto, um mundo admissível em uma sociedade democrática. E deve ser combatido — pela lei, não pela violência. Pela lei. Porque a violência é a arma do extremismo.
E os extremos são sempre ruins e não trazem nenhuma contribuição válida.

*Daniel Medeiros - Advogado e especialista em Filosofia Contemporânea pela PUCPR. Mestre e Doutor em Educação Histórica pela UFPR. Pós doutorando em Bioética pela PUCPR. Professor da Especialização em Filosofia do Direito, da Escola de Direito, e Especialização em Neurociência e Educação, da Escola de Educação e Humanidades da PUCPR. Autor da Coluna Cuidados Humanos, da revista Humanitas. Articulista do Portal Neo Mondo.

E-mail: danielhortenciodemedeiros@gmail.com

Instagram: @profdanielmedeiros

foto de daniel medeiros, autor do artigo extremismo
Daniel Medeiros - Foto: Divulgação

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