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Escrito por Neo Mondo | 4 de setembro de 2025
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ARTIGO
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Por – Daniel Medeiros*, articulista de Neo Mondo
Caminhando contra o vento, sem lenço, sem documento, no sol de quase dezembro, eu vou. Com esse chamado meio anárquico, o jovem Caetano Veloso levantou a plateia no festival de música de 1967. No fim da canção, ele insiste: Por que não? Por que não? O que importava, para uma parte da juventude daquela época, era seguir vivendo em meio à cacofonia de estímulos de uma vida urbana cada vez mais intensa e multifacetada — mas sem estar ligado a nada com muita seriedade. Afinal, quem lê tanta notícia?
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O final dos anos 60 marcou a transformação do Brasil em uma ditadura. O próprio Caetano, que nunca mais voltou à escola, foi apanhado pelo Leviatã verde-oliva e, depois de alguns meses no xilindró, acabou chorando no exílio, na fria Londres, pedindo por sua irmã Irene: Eu quero ir, minha gente, eu não sou daqui, eu não tenho nada, nada, nada, quero ver Irene rir, quero ver Irene dar sua risada.
A esquerda, que se acreditava responsável e, pateticamente, pegava em armas para tentar tirar o Exército do poder, chamava Caetano de festivo ou, parafraseando uma de suas próprias músicas, de “esquerda Odara”. Caetano respondia com mais experimentalismo — sem livros e sem fuzil — aprofundando suas contradições em canções que insistiam no Por que não? O país se enfeitava de bandeirinhas para comemorar o tricampeonato de futebol e o “milagre econômico”, enquanto os porões se enchiam de Rubens Paivas (ironia das ironias: décadas depois torcemos e comemoramos como se fosse final de Copa o Oscar para o filme que contou essa tragédia). E Caetano, por entre fotos e nomes, olhos cheios de cores, desafiava os estandartes de todas as matizes, apostando na anarquia que é, em última instância, a possibilidade de seguir pensando e criando — enfrentando as condições objetivas da existência com a resistência do Ser.
Em 2025, foi lançado no Brasil o livro As Perfeições, do escritor italiano Vincenzo Latronico, uma curiosa viagem pela vida contemporânea de dois jovens, Tom e Anna, e sua crônica incerteza sobre a capacidade de se sentirem alegres em meio à infinitude de estímulos estéticos que os cercavam, em uma Berlim pré-decadente, com sua incandescência de fogos-fátuos a deslumbrar nômades digitais de todo o mundo.
Ao ler esse breve texto de 100 páginas, é impossível não dar razão ao intrépido Caetano e sua preguiça diante das Brigittes, Cardinales et al. Tom e Anna associavam suas vidas aos cenários de Instagram, como se a farsa fosse real, o que aprofundava a miséria da existência deles, sempre presos a um círculo de exposição e descrições digitais que, mal percebiam, é como a pedra diária de Sísifo: morro acima, morro abaixo. É só rotina. É só repetição. E assim, de Berlim para Lisboa, de Lisboa para a Sicília, da Sicília para o lugar de onde partiram, Tom e Anna carregavam seus computadores cor de chumbo e, neles, o mundo que queriam que fosse tal qual aparecia na fotografia. O consolo era apenas o dos likes dos usuários da pousada que herdaram de um tio — e que lhes custou um trabalho insano, a pedra montanha acima, montanha abaixo — sem qualquer vestígio da liberdade imaginada. Sem leveza, sem vento no rosto, sem paisagem Odara. Só mesmo o vazio e muita frustração.
*Daniel Medeiros é professor e consultor na área de humanidades, advogado e historiador, Mestre e Doutor em Educação Histórica pela UFPR.
E-mail: danielhortenciodemedeiros@gmail.com
Instagram: @profdanielmedeiros

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