Destaques Educação Política Segurança Sustentabilidade
Escrito por Neo Mondo | 7 de setembro de 2025
Imagem gerada por IA - Foto: Ilustrativa/Divulgação
ARTIGO
Os artigos não representam necessariamente a posição de NEO MONDO e são de total responsabilidade de seus autores. Proibido reproduzir o conteúdo sem prévia autorização
Por – Daniel Medeiros*, articulista de Neo Mondo
Leia também: Alegria. Alegria?
Leia também: Inclusão
— Então, o senhor quer ser anistiado?
— Sim, Excelência.
— E qual é a sua justificativa?
— Ora, veja, Excelência, o que afirmam que eu fiz não foi nada demais…
— Opa, opa, calma lá, meu senhor. Como assim “não foi nada demais”? O senhor pode repetir o que fez?
— Fiz não, pensei em fazer.
— E o que o senhor pensou em fazer?
— Pensei em uma forma de impedir a posse do governo eleito.
— E o senhor acha que isso é pouco?
— Mas veja, Excelência, não foi o que estão dizendo aí, tipo, um golpe. Foi só um exercício hipotético.
— E a minuta? E a operação Punhal Verde e Amarelo?
— Ilações, Excelência, ilações.
— E a reunião com os comandantes das Forças Armadas?
— Esse é meu espírito democrático, o senhor veja só. Sempre quis ouvir todo mundo.
— Mas ouvir sobre o quê?
— Sobre as possibilidades.
— Quais possibilidades?
— Ora, veja, quero dizer, as possibilidades do que poderíamos fazer.
— Mas fazer o quê?
— É que nem todo mundo estava aceitando aquele resultado, o senhor sabe, as urnas.
— Mas nada foi apurado sobre as urnas. Todos os governadores, senadores e deputados foram eleitos pelas mesmas urnas. E o seu partido foi o grande vencedor. Como que só na sua vez a coisa seria diferente?
— Pois é, mas é uma opinião geral…
— E isso foi suficiente para se tramar um golpe?
— Não, me desculpe, Excelência, nunca houve golpe. Como haveria, sem Forças Armadas?
— Mas é porque as Forças Armadas não o apoiaram…
— Não, veja bem, não foi isso. Só houve uma consulta para saber se haveria alguma saída constitucional.
— Saída constitucional para impedir um presidente eleito de assumir?
— É que naquele momento muitas pessoas não estavam aceitando aquilo.
— Sim, eu sei. Por isso tramaram, inclusive, a morte do eleito. E do vice. E de mim!
— Não, isso foram ilações. Nunca soube disso. Nunca vi nada disso. Desafio quem diga que eu soube disso.
— Mas o delator disse que o senhor inclusive alterou a minuta.
— Mentira dele!
— Mas o ministro do Exército chegou a dizer que poderia prender o senhor se aquela conversa continuasse!
— Mentira… isto é, o general pode ter se enganado. Não me recordo de nada disso. É que ultimamente tenho estado adoentado, o senhor sabe disso.
— Mas os acontecimentos foram em dezembro de 2022 e janeiro de 2023.
— Pois é. Mas já naquela época eu não estava passando muito bem.
— Então tudo o que aconteceu não teve seu consentimento e, pelo jeito, nem o seu conhecimento.
— Sim, exatamente. Por isso exijo a anistia.
— O senhor entende que a anistia é um perdão, não é?
— Sim, perfeitamente.
— Mas se o senhor não fez nada, o senhor não deveria estar exigindo a sua absolvição?
— Sim, mas veja, é que eu acredito que não importa o que eu diga, os senhores vão me condenar.
— Mas a condenação do senhor não seria resultado do conjunto de indícios e provas, além dos testemunhos acumulados nos meses de inquérito e durante esse julgamento? O senhor não reparou que nenhum dos advogados de defesa, em nenhum momento, negou a existência de um golpe? Se nenhum deles nega, diante desse tribunal, que não houve uma tentativa de golpe, a que conclusão devemos chegar?
— Mas é que não foi bem assim, Excelência. O senhor precisa compreender. Aliás, posso fazer uma brincadeirinha?
— Não.
— Bom, o senhor me desculpe. Era só pra descontrair o ambiente. Sabe, sou uma pessoa simples, sou do povo. Esse negócio todo é muito estressante. E se a gente parasse com tudo isso, libertasse toda essa gente, virasse a página, sabe? O Brasil precisa ser pacificado, não pode ficar nessa divisão o tempo todo. O senhor não acha?
— Mas então, na sua opinião, deveríamos esquecer tudo o que ocorreu? A vandalização da Praça dos Três Poderes, as ameaças, as reuniões, as minutas, os pedidos de intervenção militar?
— Isso foi uma loucura, Excelência, coisa de gente que não tinha mais o que fazer. Mas são todas pessoas de bem. Não são bandidos. Bandido é diferente, o senhor sabe como é, não?
— Bandido não é quem comete crime?
— Isso. Mas essa gente não cometeu crime nenhum. Foi só uma baderna, uma algazarra, coisa de arruaceiro. Golpe? Que golpe? Não encontraram nenhuma faca nos acampamentos. Só bíblias. Então, Excelência, não dá pra chamar essas velhinhas bem-intencionadas de bandidas, né?
— Bem-intencionadas?
— Sim, elas só queriam o bem do Brasil.
— E o bem do Brasil seria o quê, exatamente?
— Ora, a minha eleição. Mas com as urnas fraudadas, daí não dá, né?
— E isso justificaria o golpe?
— Sim… Não, lógico que não. Nunca houve isso de golpe, Excelência. O senhor quase me confundiu. É que não ando bem de saúde, o senhor sabe, não é?
*Daniel Medeiros é professor e consultor na área de humanidades, advogado e historiador, Mestre e Doutor em Educação Histórica pela UFPR.
E-mail: danielhortenciodemedeiros@gmail.com
Instagram: @profdanielmedeiros

Mulheres que curam: ciência, pele e liderança sustentável
O Brasil quer liderar a bioeconomia global. Mas ainda não sabe o que ela é
Mudanças climáticas encurtam o período de floração e frutificação de espécies do Cerrado