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Inconsciência de classe

Escrito por Neo Mondo | 7 de julho de 2025

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No Brasil existe uma "inconsciência de classe muito grande - Imagem gerada por IA - Foto: Ilustrativa/Divulgação

ARTIGO

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Por – Daniel Medeiros*, articulista de Neo Mondo

A média salarial do brasileiro, no primeiro trimestre de 2025, foi de R$ 3.410, segundo o IBGE. 35,63% dos trabalhadores ocupados — ou seja, 34,7 milhões de brasileiros — ganham apenas o salário mínimo, que é de R$ 1.518. 95% dos empregos no país pagam menos de R$ 5 mil por mês. Os 10% mais ricos ganham, em média, 14,4 vezes mais do que os 40% mais pobres. Já o 1% mais rico recebe 39,2 vezes mais do que esses 40% e concentra, sozinho, 49,6% da riqueza nacional.

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Apesar disso, a percepção do brasileiro médio é de que o governo gasta muito, cobra muito imposto e, por isso, “a vida do pessoal não desanda”. Essa percepção impacta fortemente a aprovação do governo, que está mais baixa do que nunca.

A despesa do governo federal com políticas sociais correspondeu a 16,8% do PIB. Apenas em renúncias fiscais a indústrias e ao agronegócio, o governo deixa de arrecadar cerca de 8% do PIB. Já o pagamento de juros da dívida pública para os bancos que a financiam gira entre 7% e 8% do PIB. Ou seja: isenções a grandes empresas urbanas e rurais + pagamento a bancos equivalem praticamente às despesas sociais do governo federal.

Governar é administrar recursos escassos. O país tem uma dívida social enorme, histórica, com dezenas de milhões de brasileiros, e, por isso, precisa investir em melhores salários, saúde, educação, saneamento básico, luz, gás, mobilidade urbana, segurança e moradia. Tudo isso custa muito dinheiro. Ao mesmo tempo, o Brasil foi, ao longo de sua história, apropriado por interesses oligárquicos, que utilizaram o Estado para aumentar suas riquezas, por meio de políticas de investimento direcionado, isenções e imunidades fiscais, além da proteção de bens subutilizados ou voltados à especulação.

A falta de educação política — ou mesmo de educação básica — permitiu que as eleições fossem exploradas para garantir uma representação desproporcional no Congresso. Dos 594 parlamentares, 273 afirmam ser empresários e 160, fazendeiros. Isso representa 72% do Congresso Nacional.

Recentemente, várias medidas aprovadas pelo Congresso impuseram derrotas significativas ao governo federal, cujo slogan é: “colocar o pobre no Orçamento e o rico no Imposto de Renda”. A proposta de isentar do Imposto de Renda os brasileiros que ganham até R$ 5 mil e aumentar a alíquota para quem recebe mais de R$ 1 milhão por ano está empacada há meses, sem expectativa clara de avanço. Por outro lado, a PEC que aumentou o número de deputados de 513 para 531, com acréscimo de R$ 64 milhões por ano em despesas, foi aprovada em tempo recorde.

Da mesma forma, a tentativa do governo de manter o nível de gastos sociais e compensar a despesa com o aumento do IOF sobre transações internacionais foi derrubada pelo Congresso, sob o argumento de que “o povo não aguenta mais impostos”. Curiosamente, o aumento da alíquota não afetava em nenhuma circunstância os 95% dos trabalhadores que ganham até R$ 5 mil por mês. Já a isenção do Imposto de Renda, sim.

Nos últimos dias, uma campanha nas redes sociais resolveu colocar os pingos nos is: há ricos e pobres no Brasil. E não há dinheiro suficiente para manter, ao mesmo tempo, todos os privilégios dos ricos e minorar a ausência de direitos dos pobres. A conta não fecha.

É preciso pensar em uma solução como a adotada por países europeus no pós-Segunda Guerra, conhecida como Estado de Bem-Estar Social, no qual o Estado assume a responsabilidade de garantir a cidadania, e a parcela mais abastada da população ajuda a fechar a conta.

Na Suécia, por exemplo, a alíquota máxima do Imposto de Renda pessoal é de 52%. Na Alemanha, Inglaterra e França, 45%. No Brasil, para quem tem carteira assinada, a alíquota máxima é de 27,5%. No entanto, segundo a Folha de S.Paulo, edição de 18 de outubro de 2024, há empresários no país que pagam apenas 4% de imposto. Ou seja, existem muitos furos, brechas, exceções, isenções, imunidades, artifícios contábeis e recursos jurídicos que impedem um maior equilíbrio entre as responsabilidades do governo e os deveres dos mais ricos.

E há também a inconsciência de classe. É a velha história do motorista de aplicativo que fatura R$ 4 mil por mês, trabalhando 12 horas por dia, sem assistência médica ou garantias trabalhistas, mas acredita no empreendedorismo e na livre iniciativa — e se irrita ao saber que o governo quer taxar jatinhos e iates de luxo. “Governo comunista!”, esbraveja, entre uma mordida no sanduíche frio que lhe serve de almoço, porque “não pode parar de faturar”. Afinal, “tempo é dinheiro” e “todo mundo tem as mesmas 24 horas”. “E só é pobre quem quer.”

Pois é.

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Daniel Medeiros, autor do artigo "Inconsciência de classe" - Foto: Divulgação

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