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Escrito por Daniel Medeiros | 18 de novembro de 2025
O vice-presidente do Brasil, Geraldo Alckmin - Foto: Rafael Neddermeyer/COP30
Por – Daniel Medeiros
A floresta amazônica está em polvorosa. É tanta gente importante circulando por lá, tanto sobrenome famoso, tantas contas bancárias recheadas, além de milhares de anônimos com crachá no peito e uma ideia na cabeça, buscando contribuir para salvar a casa na qual todos moramos. Pelo menos por ora, enquanto os bilionários não constroem o foguete para Marte e fundam um clube com campo de golfe por lá.
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Há também muitas manifestações, e os famosos reclamam da falta de segurança. Coisa engraçada: o mundo derretendo e eles preocupados porque tem índio demais, sem-terra demais, ecologistas demais, querendo coisas demais. Será que esse povo não sabe que não é assim que a carruagem anda?
O nosso presidente faz discurso emocionado e propõe fundos para salvar o mundo. Os países ricos se encolhem e dizem que agora não é o momento — estão gastando muito em armas para conter a Rússia e atender às exigências de Trump, o grande ausente da pajelança. Lá da casa dele, no Hemisfério Norte, o presidente estadunidense ainda reclama de uma estrada que derrubou milhares de árvores, um escândalo, enquanto o país dele continua a liderar o ranking global de maior emissor de gases de efeito estufa da história da humanidade. Mas aquela estrada naquele lugar remoto da América do Sul…
Parece que todo mundo que importa está fazendo discurso transformador na COP30. É o que dá para ver no Instagram: centenas de fotos, relatos, painéis e textos, todos dispostos a fazer o que precisa ser feito. Estes dias, até a performancer global da geração Z, Greta Thunberg, apareceu por lá e participou da Marcha da Cúpula dos Povos que, segundo disse uma de suas organizadoras, Lorena Rosa, “terá vários blocos integrados: o primeiro, por terra, território e recursos; o segundo, por transição e cidades justas; e o terceiro, pelo internacionalismo e soberania dos povos”.
Uma festa. Uma FLIP da ecologia, embalada pelos números decrescentes do desmatamento, destacados pela infinita Marina Silva: nesse último ano, o desmatamento ficou em somente 5.795 quilômetros quadrados, uma queda de 11% em relação ao período anterior. Como diria o saudoso Roberto Freire: “Viva eu, viva tu, viva o rabo do tatu.”
Ao ouvir tanta notícia boa, tanta gente boa reunida falando de floresta, clima, oceano, energias renováveis, descarbonização, consciência ecológica, parece mesmo que a tal ponte entre a Ciência e a Vida, preconizada pelo médico bioeticista Van Potter, finalmente vai ganhando ares de realidade. E por que não? Como insiste o presidente Lula: “Nunca antes na história deste país…” É, dá para acreditar.
Então por que fica essa sensação ruim, esse gosto de zinco na boca, essa trave no olho, essa aceleração estranha no coração? Talvez porque a COP está quase no fim e, assim como as instalações das Olimpíadas — equipamentos que ficariam para a população em uma obra inédita de integração esporte/sociedade — viraram pouco mais do que nada, as ideias da COP possam também se transformar em ótimas intenções para serem pensadas em um futuro próximo. Os parcos recursos até agora anunciados — para o fundo global das florestas, por exemplo, pouco mais de 30% do esperado já foi comprometido, sendo que mais de 90% por um só país, a Noruega — estão longe de tirar do papel a miríade de ideias e projetos propostos e anunciados.
E há outras urgências, até para o governo anfitrião, às voltas com um tarifaço da maior potência do mundo, tendo de manter a química com o presidente negacionista enquanto, com a outra mão, tenta embalar os naturalistas de todo o mundo. Aliás, ali pertinho da sede da COP, na margem equatorial da foz do Amazonas, a Petrobras iniciou a perfuração de poços para avaliar a extração de combustível fóssil altamente poluente. Mas é para financiar a transição energética, diz o governo, entre um discurso emocionado e outro, prometendo uma revolução verde para o planeta. Ufa!
Tudo isso é ótimo, tudo isso é válido, tudo isso é de bater palmas de pé. Mas é suficiente? “Calma”, dirão os realistas. “O importante é termos um começo como esse. O resto vem com o tempo.”
Acho que é daí que vem a gastura na boca do estômago, a vista turva, o mal-estar generalizado. Talvez não haja tempo. E talvez não sobre nem resto. Mas tudo bem. Calma. Calma. Calma…
Daniel Medeiros - Advogado e especialista em Filosofia Contemporânea pela PUCPR. Mestre e Doutor em Educação Histórica pela UFPR. Pós doutorando em Bioética pela PUCPR. Professor da Especialização em Filosofia do Direito, da Escola de Direito, e Especialização em Neurociência e Educação, da Escola de Educação e Humanidades da PUCPR. Autor da Coluna Cuidados Humanos, da revista Humanitas. Conselheiro e colunista do Portal Neo Mondo.
E-mail: danielhortenciodemedeiros@gmail.com
Instagram: @profdanielmedeiros

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