COLUNISTAS Cultura Destaques Saúde Segurança Sustentabilidade
Escrito por Daniel Medeiros | 4 de novembro de 2025
“A escolha por amar é uma escolha por conectar," bell hooks - Foto: Ilustrativa/Freepik
Por – Daniel Medeiros
A pensadora estadunidense bell hooks escreveu: a escolha por amar é uma escolha por conectar, por nos encontrarmos no outro. Leio essa frase na apresentação do livro De Marte à Favela, da jornalista Aline Midlej e do ativista Edu Lyra, idealizador do projeto Gerando Falcões, focado no empoderamento dos moradores das favelas e baseado na ideia de Favela 3D: digitalizadas, desenvolvidas e dignas.
Leia também: Domingo
Leia também: À espera
Edu passou a infância em uma favela em Guarulhos, no Jardim Cumbica (SP). O pai virou bandido e foi preso por roubar um banco. A mãe segurou as pontas da casa trabalhando como diarista e sempre dizia ao menino:
— Filho, não importa de onde você vem, mas sim para onde você vai.
O menino cresceu e tornou-se um dos mais importantes influenciadores sociais do mundo. Poderia ter sido um cadáver amontoado na entrada da favela. Escapou. Outros não tiveram a mesma sina. Ou sorte. Ou mãe.
Eu cresci em frente a uma favela. Uma das entradas, que na época da minha infância tinha perto de 20 mil moradores, ficava a uma quadra da minha casa. Mamãe pedia para eu comprar coisas na vendinha da favela — e eu ia: chinelo de dedo, calção frouxo, sem camisa, dinheiro na mão — e trazia o pacote de farinha de araruta para o delicioso pão da tarde. Jogava bola com os meninos da favela, empinava pipa, saía com a baladeira para matar calangos que se espraiavam pelos muros, pegando sol, a cabeça balançando e desafiando a morte.
Eu não era um favelado — por isso não posso me comparar a eles em sua vulnerabilidade —, mas vivia no limite dessa realidade. Escapei. Outros não tiveram a mesma sina. Ou sorte. Ou mãe.
Nesta semana, a polícia do RJ empreendeu uma megaoperação de repressão ao tráfico de drogas no Complexo do Alemão e da Penha. Centenas de favelados foram mortos — 117 pessoas —, além de quatro policiais. Outras 113 pessoas foram presas. O governo do Estado diz que apenas os quatro policiais foram vítimas, pois todos os outros mortos eram bandidos.
No entanto, o deputado Otoni de Paula (MDB-RJ), também pastor evangélico da Assembleia de Deus Ministério Missão da Vida, afirmou na tribuna da Câmara dos Deputados que ao menos quatro mortos na megaoperação não tinham relação com o Comando Vermelho e eram “meninos que nunca portaram fuzis”.
Inconformado, o pastor disse, aos brados, na tribuna:
— Sabem quando vão saber se são bandidos ou se não são? Nunca. Ninguém vai atrás. E vocês sabem por que não? Preto correndo em dia de operação na favela é bandido. Preto de chinelo Havaianas, sem camisa, pode ser trabalhador, mas, se correu, é bandido.
Esses jovens eram como Edu, na favela em Guarulhos. Edu teve sorte. Eles não.
Segundo a Secretaria de Segurança Pública e o Governo do Estado, o objetivo principal da operação foi combater a expansão territorial do Comando Vermelho (CV) e cumprir 100 mandados de prisão contra integrantes e lideranças criminosas. Até o momento em que escrevo esta coluna, 99 corpos de favelados já foram identificados. Nenhum dos mortos estava na lista de denunciados da operação.
No livro De Marte à Favela, Edu Lyra diz:
“A missão da Gerando Falcões é transformar a pobreza da favela em um item de museu antes de Marte ser colonizado. Se a ciência permite que a humanidade vá até lá, deve existir uma maneira de resolvermos os problemas mais básicos aqui embaixo.”
Por sua vez, o senador pelo Rio de Janeiro, Flávio Bolsonaro, afirmou:
“Não há outro caminho para buscar a liberdade de milhões de pessoas que vivem sob a lei paralela desses marginais com tamanho poderio bélico.”
A violência é uma realidade. A criminalidade é um fato. Parece mesmo não haver mães suficientes para salvar a todos. Mas ainda há a lição que elas ensinam todos os dias: a escolha pelo amor, e não pelo ódio.
Ódio pela favela, ódio pelos pobres, ódio pelos pretos, ódio pelos moradores de rua, ódio pelos incapacitados, pelos vulneráveis — tudo recende a ódio travestido em uma bizarra ideia de Justiça. Vibram os que odeiam: bandido bom é bandido morto. “Se correu é porque tinha culpa no cartório.” “O que estava fazendo naquela hora, naquele local?” “Se tá com pena, leva pra casa!”
Ninguém — nenhum de nós — quer uma sociedade insegura. Mas quantos realmente querem uma sociedade segura para todas as pessoas, de todos os lugares?
A Gerando Falcões atua em rede e, já em 2022, alcançou mais de 700 mil pessoas em cerca de 6 mil favelas, através de seu ecossistema social mais amplo. O projeto Favela 3D continua sendo expandido para novas localidades — como Piranema (ES) e Curitiba (PR) —, visando replicar esses resultados e transformar a pobreza em dignidade em escala nacional.
Ao contrário do que pensa o senador Flávio, parece haver sim outro caminho para buscar a liberdade de milhões de pessoas. E o primeiro deles — antes de tudo — é usar a inteligência antes da violência. É fazer o Estado invadir a favela com saúde, educação, lazer, moradia, tecnologia, parcerias e oportunidades de emprego, e não apenas com a polícia.
Só assim os Edus poderão sobreviver para criar um trabalho que, como diria Paulo Freire, é uma boniteza.
Daniel Medeiros - Advogado e especialista em Filosofia Contemporânea pela PUCPR. Mestre e Doutor em Educação Histórica pela UFPR. Pós doutorando em Bioética pela PUCPR. Professor da Especialização em Filosofia do Direito, da Escola de Direito, e Especialização em Neurociência e Educação, da Escola de Educação e Humanidades da PUCPR. Autor da Coluna Cuidados Humanos, da revista Humanitas. Conselheiro e colunista do Portal Neo Mondo.
E-mail: danielhortenciodemedeiros@gmail.com
Instagram: @profdanielmedeiros

Heloisa Schurmann apresenta série infantil sobre preservação marinha na Bienal do Livro de São Paulo
Gerdau reforça presença no agronegócio em parceria com maior evento de cultura agro do Brasil