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Sinal de incêndio:

Escrito por Daniel Medeiros | 12 de novembro de 2025

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Não há futuro possível sem letramento - Foto: Ilustrativa/Freepik

ARTIGO

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Por – Daniel Medeiros

Segundo dados oficiais, nossos jovens do Ensino Médio, em sua imensa maioria, não sabem destacar a ideia principal de um texto nem interpretar um gráfico simples. Erram conta de mais (e erram demais!). Trocam o s pelo z, o p pelo b. Ou seja, pelo andar da carruagem, os alunos do Ensino Fundamental, em pouco tempo, saberão mais do que os alunos do Ensino Médio. E o diploma, em vez de um carimbo do MEC, terá a imagem do fundo do poço.

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Lógico que a pergunta que não quer calar é: por que isso acontece? E a resposta é simples — o que não quer dizer fácil: o Ensino Médio não está gerando aprendizado. O aluno até chega a aprender algo em uma série, mas não utiliza esse aprendizado na série seguinte. Daí, esquece. E começa tudo de novo. Então, aprende algumas outras coisas, mas não aprofunda, consolida ou sedimenta conhecimento algum. Tudo fica ali, na superfície, nas duas primeiras linhas. E, quando o jovem é apresentado a um desafio que exija a mobilização de suas aprendizagens — como quem usa ferramentas para consertar ou inventar algo —, ele estaca. Dá “tilt”. Não constrói nada com o pouco que tem nas mãos. E na cabeça.

E como gerar aprendizado? Em primeiríssimo lugar, pelo letramento. Se não soubermos ler e compreender os signos da nossa cultura, nunca poderemos cultivar nada. Somos humanos porque nos inventamos por meio de nossas mãos e de nossas palavras. Há milhares de anos, fazemos e ensinamos aos outros como se faz; e, então, os que aprendem ensinam sem precisar mais fazer — por meio das palavras. As palavras permitem a multiplicação do aprendizado sobre as obras dos homens e mulheres no mundo. Como na história dos pães e dos peixes. Se não soubermos utilizar com desenvoltura e familiaridade a linguagem, nada será possível. Morreremos de fome e de sede. Não nos salva nem a matemática, nem a física, nem a química — pela razão óbvia de que seu aprendizado depende também da língua materna.

Faço coro ao que afirmava Roland Barthes: “Se tivesse que deixar uma única disciplina para ser ensinada na escola, escolheria a Literatura”. Pois, se compreendermos como as pessoas falam do mundo e como explicam o mundo, como o resumem, como o enfrentam com as palavras, como buscam decifrá-lo e transformá-lo, saberemos como fazer todo o resto, pois compreenderemos. Mas, sem a ferramenta mestra da linguagem e de seu uso social, quando muito pescaremos um peixinho magro que só servirá para lembrar de nossa fome e de nossa incapacidade de viver à beira de um rio caudaloso. “Minha pátria é minha língua”, já dizia o poeta. Sem saber ler e compreender o que se lê, somos como os cegos de Saramago: “Cegos que veem, cegos que, vendo, não veem”.

Daniel Medeiros - Advogado e especialista em Filosofia Contemporânea pela PUCPR. Mestre e Doutor em Educação Histórica pela UFPR. Pós doutorando em Bioética pela PUCPR. Professor da Especialização em Filosofia do Direito, da Escola de Direito, e Especialização em Neurociência e Educação, da Escola de Educação e Humanidades da PUCPR. Autor da Coluna Cuidados Humanos, da revista Humanitas. Conselheiro e colunista do Portal Neo Mondo.

E-mail: danielhortenciodemedeiros@gmail.com

Instagram: @profdanielmedeiros

foto de daniel medeiros, autor do artigo Sinal de incêndio:
Daniel Medeiros - Foto: Divulgação

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