Escrito por Neo Mondo | 1 de outubro de 2025
A Democracia só se sustenta com participação ativa, voto informado e debate qualificado - Imagem gerada por IA - Foto: Ilustrativa/Divulgação
ARTIGO
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Por – Daniel Medeiros*, articulista de Neo Mondo
Muitos têm sido os estudiosos, professores e pesquisadores de grandes universidades que analisam a crise da Democracia. De Steven Levitsky e Daniel Ziblatt a Yascha Mounk, de David Runciman a Adam Przeworski, o enfraquecimento do modelo democrático pelo mundo foi estudado e diversas teses foram levantadas: a estratégia de erodir o sistema democrático por dentro; a dissociação entre liberalismo e Democracia; a expansão burocrática dos regimes representativos, que vem afastando esses sistemas políticos dos problemas reais dos cidadãos; e até, como afirma Larry Diamond, a ideia de que vivemos uma época de recessão democrática em vez de uma crise definitiva.
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Há muito o que ler e buscar compreender. Mas há, pelo menos, uma questão que poderíamos acrescentar e que não tem sido objeto desses estudos tão competentes quanto diversos: qual é o nosso papel nisso tudo? E, quando falo “nosso”, refiro-me a todos nós que crescemos no processo de redemocratização, aprendendo o que era o “antes” e o “depois”, compreendendo a importância dos ganhos democráticos em termos de liberdade de pensamento e expressão, de escolha e de decisão. Assim como aqueles que, na Espanha, em Portugal e no Leste Europeu, viveram o fim de suas ditaduras, nós — argentinos, chilenos, uruguaios e paraguaios — também experimentamos a recuperação do Estado de Direito depois de muitas perdas e cicatrizes. Com essa conquista tão importante, o que fizemos para manter e dar continuidade a esse modelo, corrigindo falhas e sustentando virtudes do regime democrático?
Um dos esteios fundamentais de qualquer Democracia é o voto informado. Não a decisão ideológica ou, pior, automática, mas o voto baseado no debate cujo propósito é refinar nossa visão sobre os acontecimentos, as posições de partidos e candidatos e suas possibilidades de acerto nas gestões. Os gregos já sabiam disso e entendiam que o debate não tinha como propósito a vitória de uma das partes, mas sim o ganho coletivo por meio do conhecimento compartilhado e aprimorado pelos questionamentos de todos. A erística foi o fim da Democracia na Grécia. Platão já alertava para isso: o ideal de um governo dos melhores, construído pelo debate público, perdeu-se em meio a técnicas falaciosas de convencimento, destituídas de conteúdo.
Como contribuímos para manter acesa a chama do debate voltado à melhoria da Democracia? Nesses mais de quarenta anos de redemocratização, as universidades, que formaram milhares de professores, até que ponto se empenharam em prepará-los para disseminar informações consistentes e duradouras sobre a importância da Democracia? E as escolas públicas de educação básica, ao longo de décadas sob a gestão de governos progressistas, o quanto criaram espaços reais de participação dos jovens nas decisões da própria escola? Ou não nos preocupamos com isso, acreditando, de forma leviana, que a Democracia — o mais antinatural dos regimes políticos — se sustentaria por si mesma? Que não precisaria de injeções diárias de ânimo nas escolas, universidades, locais de trabalho, ações públicas de governo, nem de controle permanente e aperfeiçoamento constante?
Deixamos isso de lado. Com o que realmente nos preocupamos durante todo esse tempo? Houve avanços, é claro. Principalmente porque retomamos o país no fundo do poço, vítima da incompetência monstruosa dos governos militares e de seus parceiros civis. Mas descuidamos de um detalhe óbvio: o que julgávamos ser o fim da ditadura era apenas uma “recessão autoritária”. Agora temos de lidar com esses monstros novamente e, para isso, precisamos retomar o ponto do qual nos afastamos: o de que só há Democracia com informação clara, consistente e com envolvimento eficaz e produtivo.
*Daniel Medeiros - Advogado e especialista em Filosofia Contemporânea pela PUCPR. Mestre e Doutor em Educação Histórica pela UFPR. Pós doutorando em Bioética pela PUCPR. Professor da Especialização em Filosofia do Direito, da Escola de Direito, e Especialização em Neurociência e Educação, da Escola de Educação e Humanidades da PUCPR. Autor da Coluna Cuidados Humanos, da revista Humanitas. Articulista do Portal Neo Mondo.
E-mail: danielhortenciodemedeiros@gmail.com
Instagram: @profdanielmedeiros

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