Cultura Destaques Educação Sustentabilidade

Convite para um debate? Cuidado, pode ser uma roubada

Escrito por Neo Mondo | 22 de setembro de 2025

Compartilhe:

Platão - Imagem gerada por IA - Foto: Ilustrativa/Divulgação

ARTIGO

Os artigos não representam necessariamente a posição de NEO MONDO e são de total responsabilidade de seus autores. Proibido reproduzir o conteúdo sem prévia autorização

Por – Daniel Medeiros*, articulista de Neo Mondo

A internet vem sendo povoada por “debates” que mais parecem uma nova modalidade de MMA intelectual. Um cidadão se senta em uma cadeira central enquanto 10 ou 15 pessoas “comuns” tentam convencê-lo de alguma coisa. E, obviamente, são “massacradas” por ele. Em seguida, recortes são feitos com os “melhores momentos”, e o cidadão se exibe em suas redes como o grande debatedor, capaz de derrotar todas as ideias que se contrapõem às suas. Nos EUA, Charlie Kirk — o jovem assassinado por um extremista — usava esse expediente nas universidades com grande sucesso.

Leia também: Extremismo

Leia também: O candidato a anistiado

O fato, porém, é que nada disso tem qualquer relação com a ideia de debate como os gregos, seus inventores, a concebiam. Pelo contrário, trata-se de uma estratégia inteligente de propaganda ideológica, de doutrinação, travestida de atividade democrática e aberta. Na realidade, pouquíssimos dos debatedores estão dispostos a serem convencidos; querem apenas vender seu peixe ideológico. Bem treinados, apresentam-se principalmente para jovens malformados (culpa da escola, não podemos negar) ou para senhores e senhoras de senso comum alimentado pelos grupos de WhatsApp — e fazem sua “mágica” de conversão doutrinária. Um verdadeiro case de sucesso neste conturbado século XXI.

Para os gregos, o debate tinha uma abordagem radicalmente diferente. Não se tratava de uma competição, mas de um caminho colaborativo em busca da verdade. O objetivo dos debates antigos era a verdade, não a vitória. A prática de debater apenas para vencer era chamada de erística e era desprezada por filósofos de peso como Platão, que a associava aos sofistas — os “coachs” de comunicação da época. Na dialética, como Platão chamava seus diálogos em torno de temas importantes, a vitória era de todos quando um conhecimento era alcançado de forma consistente ou quando uma falsidade era refutada de maneira peremptória.

No debate dialético preconizado pelos gregos, o debatedor não era um inimigo a ser humilhado, mas um parceiro essencial na investigação. Ao questionar rigorosamente as crenças do outro, o debatedor estava, na verdade, prestando-lhe um serviço: ajudando-o a livrar-se das opiniões falsas que contaminavam seu discurso e suas práticas. Se o argumento era refutado, isso não significava que o debatedor “perdeu”, mas que se libertou de uma ignorância.

Sócrates, o grande filósofo (ou o maior personagem de Platão — nunca saberemos), via-se como uma espécie de “parteira de ideias”. Para ele, o conhecimento verdadeiro já estava latente dentro das pessoas. Seu papel, como provocador, por meio de perguntas cuidadosas, não era ensinar ou afirmar, muito menos vencer e “humilhar o outro”, mas ajudar a pessoa a “dar à luz” às suas próprias conclusões lógicas e a reconhecer as contradições em seu pensamento. A ideia principal do debate grego, público e civilizador, era que a verdade deveria ser descoberta — e não imposta.

E esse é o cerne da questão que esquecemos — e por isso vivemos esse espetáculo de horrores narcisistas dos dias atuais: para entrar em um debate, na forma como os gregos o imaginavam, é preciso abandonar a pretensão de saber tudo. Somente ao admitir a própria ignorância é que alguém se abre para aprender. Quem acredita já ter a resposta final não pode participar de uma busca genuína. Pode apenas querer enganar o outro, doutrinando-o para a sua causa.

Outro sinal do fracasso do nosso tempo é achar que um debate precisa ter um vencedor — e que é preciso sempre “tomar um lado”. Os “isentões” não têm vez, dizem os bem-sucedidos debatedores atuais. Para os gregos, era exatamente o contrário — ou, pelo menos, para Platão. Muitos diálogos de Platão terminam em aporia, um estado de perplexidade e impasse em que os interlocutores percebem que não sabem aquilo que achavam saber. E isso está longe de ser um fracasso. A aporia é um passo fundamental e necessário, pois é o momento em que a pessoa se liberta de suas falsas certezas e está finalmente pronta para iniciar a verdadeira busca pelo conhecimento. Ou seja, é um começo.

O debate, portanto, tem um papel educativo: limpa o terreno das ideias falsas que alimentamos, das convicções sem fundamento que cultivamos, das ideologias internalizadas que carregamos ao longo do tempo — e abre o caminho para a busca de um conhecimento mais consistente e fundamentado.

Por isso, quando você for convidado para um debate, acautele-se. Pode ser o avesso do avesso. Os gregos, infelizmente, não são muito bons de likes.

*Daniel Medeiros - Advogado e especialista em Filosofia Contemporânea pela PUCPR. Mestre e Doutor em Educação Histórica pela UFPR. Pós doutorando em Bioética pela PUCPR. Professor da Especialização em Filosofia do Direito, da Escola de Direito, e Especialização em Neurociência e Educação, da Escola de Educação e Humanidades da PUCPR. Autor da Coluna Cuidados Humanos, da revista Humanitas. Articulista do Portal Neo Mondo.

E-mail: danielhortenciodemedeiros@gmail.com

Instagram: @profdanielmedeiros

foto de daniel medeiros, autor do artigo Convite para um debate? Cuidado, pode ser uma roubada
Daniel Medeiros - Foto: Divulgação

Compartilhe:


Artigos anteriores:

Ekôa Park completa oito anos e consolida a biomimética como ferramenta estratégica para empresas e territórios

O Brasil que falou bonito em Belém e desmontou a lei em Brasília

ActionAid lança Glossário baseado na perspectiva de crianças e adolescentes sobre racismo ambiental


Artigos relacionados