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Escrito por Neo Mondo | 2 de abril de 2026
Fundo do oceano em disputa: máquinas avançam sobre o fundo marinho enquanto a ciência ainda tenta compreender a vida que ali existe - Imagem gerada por IA - Foto: Ilustrativa/Neo Mondo
POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DO NEO MONDO
Em março de 2026, enquanto pesquisadores da Universidade de Lodz e do National Oceanography Centre publicavam na revista ZooKeys a descoberta de 24 novas espécies de anfípodes na Zona Clarion-Clipperton — incluindo uma superfamília inteiramente nova, batizada de Mirabestioidea, que obrigou a ciência a criar um galho inédito na árvore da vida —, Estados Unidos e Japão assinavam um memorando de cooperação para acelerar a mineração no fundo do mesmo oceano. A sincronia não é acidental. É uma síntese precisa da contradição que define este momento: quanto mais a ciência revela o que existe no abismo, mais veloz é a corrida para extraí-lo.
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O memorando, assinado por autoridades dos dois países, estabelece que Japão e Estados Unidos compartilharão pesquisas e conhecimentos sobre mineração em águas profundas, criando um grupo de trabalho para trocar informações sobre ciência do fundo do mar e projetos de exploração mineral. O documento não tem força de tratado — é uma declaração de intenções —, mas seu peso simbólico excede o texto. Diplomatas e especialistas em geopolítica oceânica descreveram-no como um apoio público extraordinário às iniciativas recentes dos Estados Unidos para impulsionar a indústria de mineração de profundidade.
O pano de fundo é a dependência estrutural de Tóquio e Washington em relação à China. Pequim detém participação média de 70% na capacidade de refino de 19 dos 20 minerais estratégicos mais relevantes segundo a Agência Internacional de Energia, e 91% de participação quando se consideram especificamente as terras raras. Nos últimos três anos, a China restringiu exportações de pelo menos onze minerais e terras raras em resposta a pressões dos Estados Unidos e de outros países, provocando alta de preços e escassez de suprimentos — inclusive de minerais necessários para imãs usados em indústria e defesa. O abismo do Pacífico, nessa lógica, deixou de ser um ecossistema e passou a ser um repositório estratégico.
O Japão tem motivações específicas para esse movimento. O governo japonês pretende acelerar o desenvolvimento de depósitos de terras raras próximos à ilha de Minamitori, localizada a cerca de 1.900 quilômetros a sudeste de Tóquio, dentro da Zona Econômica Exclusiva do país, a 5.500 metros de profundidade — onde lama rica em terras raras foi descoberta pela primeira vez em 2011. As reservas estimadas giram em torno de 16 milhões de toneladas. O governo japonês destinou aproximadamente 113 milhões de dólares de um orçamento suplementar para o projeto, incluindo a construção de instalações de processamento, embarcações de transporte e infraestrutura de apoio. A meta é que empresas privadas comecem a exploração comercial a partir do ano fiscal de 2028.
Mas o memorando aponta para águas além da ZEE japonesa. Os Estados Unidos passaram quase um ano perseguindo a mineração de fundos marinhos sem cooperação do restante do mundo, e o Japão surgiu agora como o primeiro aliado a declarar apoio público a essa agenda. Washington nunca ratificou a Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar — a UNCLOS — e, portanto, não está juridicamente vinculado à Autoridade Internacional dos Fundos Marinhos, o organismo multilateral criado pela convenção para regular a mineração em águas internacionais. O governo Trump emitiu uma ordem executiva determinando que reguladores norte-americanos comecem a emitir licenças de mineração em águas profundas com base em legislação doméstica de 1980, anterior à própria UNCLOS. A empresa canadense The Metals Company, uma das líderes do setor, já protocolou pedido de licença comercial junto à NOAA para operar na Zona Clarion-Clipperton.
O Japão, ao contrário dos Estados Unidos, é signatário da UNCLOS — o que torna sua posição juridicamente ambígua e politicamente explosiva. Donald Rothwell, professor de direito internacional na Universidade Nacional da Austrália e especialista em geopolítica oceânica, observou que, nos anos 1980, o Japão esteve entre os países que hesitavam em aderir à convenção sem os Estados Unidos e explorava acordos alternativos para a mineração submarina. Que Tóquio pareça estar revivendo esse interesse e buscando atuar ao lado da administração Trump, afirmou Rothwell, geraria preocupação entre os grandes atores oceânicos — especialmente a China.
A preocupação tem contornos concretos. A Deep Sea Conservation Coalition alertou que agir fora da UNCLOS não apenas cria um precedente para a mineração submarina, mas enfraquece as regras que governam pesca, navegação, fronteiras marítimas e segurança, além de convidar a reivindicações concorrentes e ao aumento das tensões geopolíticas nos mares. O secretário-geral da Autoridade Internacional dos Fundos Marinhos declarou que qualquer ação unilateral estabelece um precedente perigoso, capaz de desestabilizar todo o sistema de governança oceânica global. Do outro lado, analistas advertem que a China poderia usar sua posição na Autoridade para expandir a presença em zonas de mineração, fortalecendo sua influência econômica e militar em águas internacionais — replicando, no fundo do mar, a lógica que já emprega no Mar do Sul da China.
Quarenta países pediram moratória ou pausa cautelar à mineração submarina enquanto não houver maior compreensão dos ecossistemas e dos efeitos da atividade. Outros atuam de forma unilateral. Entre esses dois polos, o ritmo é ditado por quem age primeiro. O Conselho da Autoridade Internacional dos Fundos Marinhos segue negociando versões de regulamentação — a terceira em três anos — sem conseguir fechar os pontos mais sensíveis. Enquanto isso, os Estados Unidos ampliaram para 28 milhões de hectares a área avaliada para mineração nas Ilhas Marianas do Norte, território livremente associado a Washington na Micronésia.
O que está em jogo ecologicamente é de uma escala que mal começa a ser compreendida. A Zona Clarion-Clipperton, com seus seis milhões de quilômetros quadrados entre o Havaí e o México, já tem mais de 5.500 espécies registradas — entre 88% e 92% delas sem nome formal, segundo o CCZ Species Checklist mantido pelo World Register of Deep-Sea Species. A descoberta publicada em março de 2026 na ZooKeys, liderada por Anna Jażdżewska e Tammy Horton, revelou 24 novas espécies de anfípodes e uma superfamília inteiramente nova — a Mirabestioidea —, representando ramos evolutivos até então desconhecidos da ciência. Dois meses após testes com maquinário comercial na região, em 2022, a abundância de espécies caiu 37% e a biodiversidade recuou em quase um terço, segundo análise de sedimentos do Natural History Museum, de Londres.
Tammy Horton, pesquisadora do National Oceanography Centre, disse que descobrir uma nova superfamília é algo incrivelmente raro e que isso demonstra o quanto ainda se ignora sobre o que existe nas profundezas do mar. Essa confissão científica — de ignorância diante do abismo — é precisamente o argumento central dos defensores da moratória. O problema é que essa mesma ignorância não paralisa os governos. Ela é simplesmente desconsiderada.
O memorando entre Japão e Estados Unidos pode ser lido como uma transação bilateral de baixo comprometimento formal. Especialistas em direito e geopolítica oceânica, porém, leem-no como sinal de outra coisa: a emergência de uma arquitetura paralela à UNCLOS, construída por coalizões de aliados dispostos a contornar os impasses multilaterais. Analistas do Small Wars Journal sugerem que os membros do Quad — Japão, Austrália e Índia — já oferecem uma estrutura cooperativa que poderia ser usada para descentralizar a mineração e o processamento de terras raras, estabelecer reservas de emergência e criar padrões ambientais entre aliados, aumentando a estabilidade e a previsibilidade no desenvolvimento de recursos. Se outros países seguirem esse modelo, o sistema multilateral de governança dos oceanos — construído ao longo de décadas — dificilmente resistirá à pressão.

O fundo do mar nunca foi território neutro. Mas agora é, explicitamente, campo de disputa geopolítica. E as espécies que vivem a quatro mil metros de profundidade, batizadas às pressas por cientistas em workshops de uma semana, existem na zona de interseção entre dois mundos que ainda não encontraram forma de coexistir: o que precisa nomear o que há na vida, e o que já decidiu o que fazer com ela.
Fontes:
New York Times / The Spokesman-Review, "Japan and U.S. Agree to Team Up on Seabed Mining", 2026 Jażdżewska, A.; Horton, T. et al., "New deep-sea Amphipoda from the Clarion-Clipperton Zone", ZooKeys, 2026 Stimson Center, "Current Geopolitics Shift Deep-Sea Mining Debates", 2026 Pew Charitable Trusts, "Nations to Discuss Future of Deep-Sea Mining", 2026 Deep Sea Conservation Coalition, Statement on The Metals Company, 2026 Library of Congress / Congressional Research Service, "U.S. Interest in Seabed Mining in Areas Beyond National Jurisdiction", 2026 Economy.ac, "Japan Launches Proof-of-Concept for Deep-Sea Rare Earth Mining", 2025 Small Wars Journal / Arizona State University, "A New Frontier: Japan's Deep-Sea Mining at Minamitorishima", 2025 Rabone, M.; Glover, A.G.; Horton, T., CCZ Species Checklist, World Register of Deep-Sea Species, 2026.
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