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Escrito por Neo Mondo | 17 de julho de 2026
Árvore que resiste sozinha sobre as pedras da Volta Grande do Xingu, onde a correnteza nunca dá trégua e a vida encontra onde se firmar - Foto: Helder Lana/Norte Energia
Produzido pelo NM Studio em parceria com a Norte Energia

Belo Monte fechou 2025 com recorde de geração limpa e Ebitda de R$ 2,9 bilhões, enquanto reconstrói sua relação com o território que a sustenta
Depois de quarenta anos sem registro, o pau-cravo voltou a ser visto nas margens do rio Xingu. A árvore, espécie amazônica em risco crítico de extinção, foi localizada dentro de uma área de preservação permanente que a Norte Energia monitora desde que o licenciamento do Complexo Hidrelétrico Belo Monte começou, em 2008. Trinta matrizes protegidas, mais de cento e cinquenta mudas produzidas, um banco genético que tenta garantir que a espécie não desapareça de novo. É um dado pequeno dentro de um relatório de cento e quarenta e nove páginas — mas é também a imagem que resume melhor do que qualquer indicador o que a companhia demonstra em seu Relatório Integrado de Sustentabilidade 2025: que uma operação industrial de escala continental pode conviver, ano após ano, com o tempo lento da floresta que a cerca.
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Há um deslocamento de fundo nesse documento, e ele aparece antes mesmo dos números começarem a se acumular. Durante décadas, grandes empreendimentos de infraestrutura foram julgados pela extensão de suas obras e pela potência instalada — a lógica bastava a si mesma: mais concreto, mais megawatts, mais desenvolvimento. O relatório de 2025 organiza sua narrativa em outra direção. Estruturado em capítulos como Território e Sociedade, Cuidado com o Planeta, Governança e Prosperidade e Inovação, o documento trata a operação de Belo Monte como parte de um sistema territorial mais amplo, não como um fim em si. A escolha editorial comunica algo que o setor elétrico brasileiro só recentemente começou a incorporar de forma sistemática: ao lado da licença ambiental, consolida-se aquilo que pesquisadores chamam de licença social para operar — uma autorização construída todos os dias, no diálogo com comunidades, povos indígenas e reguladores.
A escala industrial, ainda assim, impressiona. Em 2025, o Complexo Hidrelétrico Belo Monte gerou 30.471 GWh de energia, recuperação de 35% sobre o ano anterior, com índice de disponibilidade operacional de 97,83%. A geração evitou a emissão de 12,5 milhões de toneladas de CO2 equivalente — o cálculo compara a operação hidrelétrica a uma usina termelétrica a gás natural, conforme metodologia do IPCC — e eleva para 84,9 milhões de toneladas o total evitado desde 2019. A companhia manteve, pelo quarto ano consecutivo, o selo ouro do Programa Brasileiro GHG Protocol. As emissões totais de escopos 1, 2 e 3 somaram 7.880,53 toneladas de CO2 equivalente no ano — uma intensidade de 0,259 grama de CO2 por quilowatt-hora, patamar comparável ao de fontes solares e eólicas segundo os próprios parâmetros do IPCC. Mesmo somando as emissões dos reservatórios, calculadas por uma metodologia desenvolvida com a Coppe/UFRJ, a intensidade sobe para 9,072 gramas por quilowatt-hora — ainda assim, inferior à mediana mundial para hidrelétricas.
No campo econômico-financeiro, 2025 consolidou uma trajetória de disciplina. A receita líquida somou R$ 6,3 bilhões, e o Ebitda alcançou R$ 2,9 bilhões — margem de 47,5%, resultado que reflete o rigor na gestão de custos e a otimização operacional adotados pela administração diante das condições estruturais do setor elétrico brasileiro. A companhia encerrou o exercício com cerca de R$ 1,6 bilhão em caixa e equivalentes, posição de liquidez que sustenta o cumprimento de seus compromissos operacionais e financeiros no longo prazo. Esse mesmo compromisso com a solidez orienta o avanço da companhia em governança corporativa, tratada no relatório não como capítulo protocolar, mas como infraestrutura institucional: revisão do Estatuto Social, racionalização dos órgãos colegiados, aproximação com frameworks internacionais como TCFD e TNFD. A transição energética depende de tecnologia, mas depende também de confiança — e confiança é o que investidores, reguladores e comunidades concedem quando reconhecem transparência sustentada ao longo do tempo.
A dimensão social do documento resiste à tentação de reduzir a Amazônia a estatística de compensação. A companhia atua junto a nove etnias — Arara, Juruna, Xikrin, Araweté, Parakanã, Assurini, Kararaô, Xipaya e Kuruaya —, distribuídas por doze terras indígenas que somam cerca de 5 milhões de hectares, quase 7% de todo o território indígena da Amazônia Legal. Desde 2012, o número de aldeias atendidas pelo Plano Básico Ambiental do Componente Indígena cresceu de 34 para 159, e a população diretamente atendida quase dobrou, de 3.037 para 6.007 pessoas — um crescimento que a própria empresa reconhece não ter projetado e que exigiu a ampliação da capacidade operacional dos programas. Os investimentos diretos junto aos povos indígenas somaram R$ 120,6 milhões em 2025, R$ 1,8 bilhão em valor acumulado. Um dos capítulos mais originais do relatório descreve a parceria com a Associação Indígena Tato'a, do povo Parakanã, que passou a executar de forma autônoma ações de fortalecimento institucional na Terra Indígena Apyterewa — um modelo de cogestão no licenciamento ambiental que a companhia descreve como inédito entre empreendimentos hidrelétricos no Brasil. Em paralelo, a revisão da matriz de impactos e do próprio PBA-CI segue os princípios da consulta prévia, livre e informada da Convenção 169 da OIT, começando pelos povos Juruna/Yudjá e Arara da Volta Grande do Xingu — um processo acompanhado de perto pela Funai e pelas próprias comunidades, e tratado pela companhia como parte permanente de sua atuação na região.
Essa mesma postura de acompanhamento contínuo orienta a relação da companhia com o regime hídrico do rio Xingu. A gestão do hidrograma que regula a vazão destinada à Volta Grande segue acompanhada de perto pelos órgãos reguladores, por instituições de controle e pelas comunidades locais, com revisões técnicas conduzidas em conjunto com o Ibama sempre que necessário. No mesmo espírito de colaboração institucional, a companhia mantém diálogo constante com a União e os entes federativos sobre a destinação dos recursos da Compensação Financeira pela Utilização de Recursos Hídricos aos povos indígenas da região, assegurando o cumprimento pontual de suas obrigações fiscais e regulatórias enquanto o tema segue em tramitação legislativa.
A biodiversidade aparece tratada com um rigor pouco comum em relatórios corporativos. A área diretamente afetada pelo empreendimento, de 150 mil hectares, sobrepõe cerca de 30% de seu território a áreas reconhecidas internacionalmente como prioritárias para a conservação. Em contrapartida, a companhia já restaurou ou protege cerca de 45,7 mil hectares — mais que o dobro dos 19,6 mil hectares convertidos durante a construção, concluída em 2015, o que a empresa contabiliza como ganho ecológico líquido. Só em 2025 foram plantadas 46,8 mil mudas de 62 espécies nativas em 60 hectares. O sistema de transposição de peixes, em operação desde 2016, já viabilizou a passagem de 4,3 milhões de peixes; pesquisadores associados à Universidade Federal do Pará descreveram 28 espécies de peixes novas para a ciência, vinte delas endêmicas do Xingu. Depois de catorze anos de monitoramento contínuo e mais de 85 mil coletas, o rio mantém sua classificação como corpo hídrico de boa qualidade.
No campo da inovação, a empresa investiu cerca de R$ 13 milhões em pesquisa e desenvolvimento em 2025, a maior parte voltada à transição energética e à inclusão social: uma microrrede fotovoltaica isolada com hidrogênio verde para comunidades remotas, uma embarcação elétrica batizada "Enguia" adaptada à vida ribeirinha, um catamarã elétrico desenvolvido em preparação para a COP30, realizada em novembro no coração da Amazônia. Mais de 1.900 participações de jovens passaram pela "Jornada COP 30", programa de educação ambiental, enquanto a exposição "Ecos do Xingu" trouxe ao público a ancestralidade dos povos Juruna e Arara. No mesmo ano, mulheres indígenas produtoras de chocolate artesanal ganharam reconhecimento internacional, e uma agroindústria de farinha gerida por uma associação indígena tornou-se a primeira do gênero a receber certificação sanitária oficial do estado do Pará.
O que o relatório da Norte Energia deixa claro, ao tratar governança, clima, povos indígenas e biodiversidade como partes de uma mesma equação, é que a pergunta sobre Belo Monte deixou de ser apenas quanto a usina produz. Tornou-se uma pergunta sobre como uma companhia administra, de forma permanente, sua presença em um dos territórios mais observados do planeta. A resposta não se fecha em um único exercício — constrói-se ano após ano, na disposição de seguir prestando contas. O pau-cravo, sozinho às margens do Xingu, não sabe nada sobre hidrogramas ou compensações financeiras. Mas continua ali. E, contra o esperado, voltou.
"Falar de Belo Monte é falar de escolhas. E escolhas energéticas dizem muito sobre o futuro que um país decide construir."
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