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As cidades estão ficando mais quentes. O que isso significa para a saúde da nossa pele?

Escrito por Dra. Marcela Baraldi | 6 de julho de 2026

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Cidades que oferecem sombra, árvores e espaços verdes também protegem a pele. Em um planeta mais quente, planejar ambientes urbanos saudáveis é uma forma silenciosa — e eficaz — de prevenir o câncer de pele e promover qualidade de vida - Foto:Ilustrativa/Magnific

POR - DRA. MARCELA BARALDI*

As mudanças climáticas não afetam apenas o planeta. Elas também estão transformando a forma como nossa pele envelhece e se protege do câncer

Quando pensamos em câncer de pele, quase sempre imaginamos uma cena bastante conhecida: um dia de praia, muito sol e uma pessoa que se esqueceu de aplicar o protetor solar. Embora essa associação esteja correta, ela já não conta toda a história.

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Hoje, sabemos que o ambiente em que vivemos também influencia nossa saúde cutânea. As mudanças climáticas, o aumento das temperaturas, a urbanização acelerada e a redução das áreas verdes estão modificando nossa relação com a exposição solar e criando novos desafios para a prevenção do câncer de pele.

Essa é uma discussão que ultrapassa os limites da dermatologia. Ela envolve saúde pública, planejamento urbano, sustentabilidade e qualidade de vida.

O câncer de pele continua sendo o mais frequente no Brasil

O câncer de pele é o tipo de câncer mais comum entre os brasileiros. A boa notícia é que, quando diagnosticado precocemente, especialmente nos carcinomas basocelular e espinocelular, apresenta elevadas taxas de cura. Já o melanoma, apesar de representar uma parcela menor dos casos, é responsável pela maior parte das mortes relacionadas ao câncer de pele devido ao seu comportamento mais agressivo.

A principal causa continua sendo a exposição à radiação ultravioleta (UV), que provoca danos cumulativos ao DNA das células da pele. Esses danos podem permanecer silenciosos por anos, até que se manifestem na forma de lesões pré-cancerosas ou de um câncer estabelecido.

Por isso, a prevenção sempre foi — e continua sendo — a nossa ferramenta mais poderosa.

Um planeta mais quente muda também o comportamento humano

As mudanças climáticas vêm tornando as ondas de calor mais frequentes, intensas e prolongadas em diversas regiões do mundo.

Embora o aquecimento global não aumente diretamente a intensidade da radiação ultravioleta emitida pelo Sol, ele modifica profundamente nossos hábitos.

Em dias extremamente quentes, tendemos a usar roupas mais leves, permanecer por mais tempo em ambientes externos, praticar atividades físicas ao ar livre e buscar praias, clubes, parques e piscinas como forma de aliviar o calor.

Na prática, isso significa mais tempo de exposição aos raios ultravioleta e, consequentemente, maior risco de queimaduras solares, envelhecimento precoce e câncer de pele, principalmente quando a fotoproteção é negligenciada.

As mudanças ambientais, portanto, influenciam indiretamente o risco da doença ao alterar nosso comportamento cotidiano.

As cidades também fazem parte dessa equação

Outro fator frequentemente esquecido é a forma como construímos nossas cidades.

O crescimento urbano acelerado reduziu significativamente a presença de áreas verdes em muitos centros urbanos. Árvores foram substituídas por concreto, asfalto e grandes edificações, criando as chamadas ilhas de calor — regiões onde as temperaturas podem ser vários graus mais elevadas do que nas áreas vizinhas.

Esse cenário produz dois efeitos importantes.

O primeiro é o aumento do desconforto térmico, que incentiva roupas mais curtas e maior exposição da pele.

O segundo é a diminuição da sombra natural, aumentando a incidência direta da radiação solar sobre as pessoas durante atividades rotineiras, como caminhar até o trabalho, esperar um transporte público ou praticar exercícios.

Investir em arborização urbana, criar espaços públicos sombreados e planejar cidades mais resilientes não é apenas uma estratégia ambiental. É também uma medida de promoção da saúde.

E a camada de ozônio?

Durante décadas, a destruição da camada de ozônio foi uma das maiores preocupações ambientais relacionadas ao câncer de pele.

A camada de ozônio funciona como um verdadeiro filtro natural da Terra, absorvendo grande parte da radiação ultravioleta B (UVB), justamente uma das principais responsáveis pelas queimaduras solares e pelo desenvolvimento de câncer de pele.

Felizmente, a ciência também nos mostra boas notícias.

Graças ao Protocolo de Montreal, assinado em 1987, diversos países eliminaram progressivamente substâncias que destruíam a camada de ozônio. Como resultado, ela vem apresentando sinais consistentes de recuperação.

Esse talvez seja um dos maiores exemplos de como decisões políticas baseadas em evidências científicas podem produzir impactos positivos para a saúde humana e para o meio ambiente.

É uma demonstração clara de que preservar o planeta também significa proteger pessoas.

Sustentabilidade também é uma estratégia de prevenção

Quando falamos em sustentabilidade, pensamos rapidamente na preservação das florestas, na redução das emissões de carbono ou na proteção da biodiversidade.

Mas existe outra dimensão igualmente importante: a saúde.

Cidades mais verdes reduzem a temperatura ambiente. Ambientes urbanos melhor planejados oferecem mais sombra, mais conforto térmico e favorecem a prática de atividades ao ar livre com maior segurança.

Políticas públicas voltadas para adaptação climática podem reduzir riscos relacionados ao calor extremo e melhorar diretamente a qualidade de vida da população.

Sob essa perspectiva, proteger o meio ambiente também passa a ser uma forma de prevenir doenças.

O papel do dermatologista diante desse novo cenário

Como dermatologista, acredito que nosso papel vai muito além de prescrever um protetor solar.

Precisamos educar, conscientizar e ampliar o olhar sobre os fatores que determinam a saúde da pele.

A fotoproteção continua sendo indispensável. O uso diário de protetor solar, roupas com proteção UV, chapéus de aba larga, óculos escuros e a preferência por horários de menor intensidade solar permanecem como recomendações fundamentais.

Entretanto, também precisamos compreender que a prevenção do câncer de pele não depende exclusivamente das escolhas individuais. Ela é influenciada pelo ambiente em que vivemos, pelas cidades que construímos e pelas políticas públicas que adotamos para enfrentar os desafios climáticos.

A pele também conta a história do planeta

A pele é o maior órgão do corpo humano e funciona como nossa primeira barreira de proteção contra o ambiente.

Ela registra a passagem do tempo, os hábitos de vida, a exposição ao Sol e, cada vez mais, os efeitos das transformações ambientais que estamos vivendo.

Talvez seja justamente por isso que a dermatologia tenha tanto a contribuir para a discussão sobre sustentabilidade.

Quando cuidamos do meio ambiente, não estamos apenas preservando ecossistemas ou protegendo espécies. Estamos construindo cidades mais saudáveis, reduzindo riscos para a população e investindo na qualidade de vida das próximas gerações.

No fim das contas, cuidar da pele e cuidar do planeta são atitudes que caminham na mesma direção.

Porque um futuro mais sustentável também é, necessariamente, um futuro mais saudável.

*Dra. Marcela Baraldi é médica dermatologista, membro da Sociedade Brasileira de Dermatologia, com atuação no corpo clínico do Hospital Israelita Albert Einstein e em consultório particular. Atualmente, cursa MBA em Estratégia e Gestão de Negócios pela Fundação Getulio Vargas. É colunista do portal Neo Mondo. CRM: 151733 | RQE: 66127.

foto da dra marcela baraldi, autora do artigoAs cidades estão ficando mais quentes. O que isso significa para a saúde da nossa pele?
Dra. Marcela Baraldi - Foto: Arquivo pessoal

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