Ciência e Tecnologia CLIMA COLUNISTAS Destaques EcoBeauty Emergência Climática Meio Ambiente Saúde Sustentabilidade Tecnologia e Inovação
Escrito por Dra. Marcela Baraldi | 29 de junho de 2026
Ondas de calor. Um planeta mais quente deixa marcas na nossa pele - Foto: Ilustrativa/Magnific
POR - DRA. MARCELA BARALDI*
O aumento das temperaturas já impacta a saúde da pele. Entenda como as mudanças climáticas favorecem o envelhecimento cutâneo, agravam doenças dermatológicas e aumentam os riscos para os idosos
As imagens impressionam. Ruas vazias em pleno verão, fontes públicas transformadas em refúgio contra o calor, hospitais em alerta e termômetros ultrapassando os 40°C em diversos países da Europa. O que antes era considerado um evento excepcional tornou-se cada vez mais frequente: as ondas de calor são uma das faces mais evidentes das mudanças climáticas.
Leia também: O medicamento mais comentado do mundo foi inventado há 500 milhões de anos
Leia também: Cabelos e unhas: os sinais silenciosos que revelam a saúde do organismo
Mas existe um órgão que sente essas transformações antes mesmo de muitos outros sistemas do corpo: a pele.
Maior órgão do organismo humano e nossa primeira barreira de proteção contra o ambiente, ela responde imediatamente às alterações de temperatura, à radiação solar e à poluição. Por isso, à medida que o planeta aquece, cresce também a preocupação da dermatologia com os impactos das mudanças climáticas na saúde cutânea.
E existe um grupo que merece atenção especial: os idosos.
A pele é um reflexo do ambiente em que vivemos
Costumamos associar as mudanças climáticas ao aumento do nível dos oceanos, às secas prolongadas ou às enchentes. No entanto, poucas pessoas percebem que essas alterações também acontecem diariamente sobre a nossa pele.
Ela regula a temperatura corporal, impede a perda excessiva de água, protege contra microrganismos e funciona como uma verdadeira interface entre o corpo e o meio ambiente. Quando as temperaturas se elevam de forma extrema, toda essa estrutura precisa trabalhar muito mais para manter o equilíbrio do organismo.
O problema é que esse mecanismo possui limites.
Quanto maior o calor, maior a perda de água pela pele, maior o estresse celular e maior o comprometimento da sua função de barreira. Como consequência, aumentam o ressecamento, a sensibilidade, as irritações e a inflamação cutânea.
Ondas de calor aceleram o envelhecimento da pele
O impacto das altas temperaturas vai muito além da queimadura solar.
O calor intenso favorece a produção de radicais livres, moléculas capazes de danificar as células e acelerar a degradação do colágeno e da elastina — proteínas responsáveis pela firmeza e elasticidade da pele.
Além disso, a combinação entre calor extremo, radiação ultravioleta e poluição potencializa o chamado estresse oxidativo, um dos principais mecanismos envolvidos no envelhecimento precoce.
Na prática, isso significa que episódios frequentes de calor intenso podem contribuir para uma pele mais sensível, desidratada, com perda de viço e surgimento mais precoce de rugas e manchas.
Doenças dermatológicas também pioram com o aumento da temperatura
As mudanças climáticas também modificam o comportamento de diversas doenças de pele.
Pacientes com rosácea frequentemente apresentam crises desencadeadas pelo calor. A dermatite atópica tende a piorar quando a barreira cutânea perde hidratação. O aumento da transpiração favorece infecções causadas por fungos e bactérias, enquanto a maior exposição solar eleva o risco de queimaduras e, consequentemente, do câncer de pele.
Ao mesmo tempo, temperaturas elevadas associadas ao aumento da poluição atmosférica intensificam processos inflamatórios que afetam diretamente a saúde cutânea.
Não estamos falando apenas de estética. Estamos falando de saúde pública.
Os idosos são os mais vulneráveis às ondas de calor
Se existe um grupo que exige atenção redobrada diante das mudanças climáticas, esse grupo é formado pelos idosos.
Com o envelhecimento, a pele passa naturalmente por diversas transformações. Ela se torna mais fina, perde parte da gordura que funciona como proteção, reduz sua capacidade de reter água e produz menos suor — um mecanismo essencial para resfriar o corpo.
Além disso, muitos idosos utilizam medicamentos como diuréticos, anti-hipertensivos e antidepressivos, que podem aumentar o risco de desidratação.
O resultado é uma combinação perigosa: o organismo demora mais para dissipar calor e apresenta maior dificuldade para manter a temperatura corporal dentro de níveis seguros.
Por isso, durante ondas de calor, idosos apresentam maior risco de desidratação, exaustão pelo calor, insolação e complicações clínicas potencialmente graves.
Muitas vezes, os primeiros sinais aparecem justamente na pele: ressecamento intenso, perda da elasticidade, vermelhidão persistente e fragilidade cutânea.
Cuidar da pele também é uma estratégia de adaptação às mudanças climáticas
Quando discutimos adaptação às mudanças climáticas, pensamos em cidades mais resilientes, energia limpa e redução das emissões de carbono.
Mas existe também uma adaptação individual.
A proteção da pele passa a ser uma medida importante para preservar a saúde diante de um cenário de temperaturas cada vez mais extremas.
Isso inclui manter uma boa hidratação, aumentar a ingestão de água, utilizar protetor solar diariamente, evitar exposição ao sol nos horários de maior radiação, preferir roupas leves e permanecer em ambientes ventilados sempre que possível.
Nos idosos, esses cuidados tornam-se ainda mais importantes, já que a sensação de sede diminui com a idade, aumentando o risco de desidratação silenciosa.
As mudanças climáticas também desafiam a dermatologia
Durante muito tempo, a dermatologia esteve associada principalmente ao tratamento de doenças e ao envelhecimento da pele. Hoje, porém, a especialidade passa a olhar também para um novo desafio: compreender como o ambiente influencia diretamente a saúde cutânea.
As ondas de calor que atingem a Europa servem como um alerta para o mundo inteiro. Eventos climáticos extremos já fazem parte da nossa realidade e seus efeitos ultrapassam as questões ambientais, atingindo diretamente a saúde humana.
A pele, por ser nossa primeira linha de defesa, é também um dos primeiros órgãos a demonstrar que o clima está mudando.
Um planeta mais quente exige um novo olhar para a saúde
As mudanças climáticas deixaram de ser apenas um tema ambiental. Elas se tornaram uma questão de saúde pública.
Proteger a pele não significa apenas evitar queimaduras solares. Significa preservar uma barreira essencial para o funcionamento do organismo, especialmente em uma população que envelhece rapidamente e se torna cada vez mais vulnerável aos extremos climáticos.
Cuidar da pele é, também, cuidar da capacidade do nosso corpo de enfrentar um planeta em transformação.
Porque, no futuro, falar sobre dermatologia será, inevitavelmente, falar também sobre sustentabilidade.
*Dra. Marcela Baraldi é médica dermatologista, membro da Sociedade Brasileira de Dermatologia, com atuação no corpo clínico do Hospital Israelita Albert Einstein e em consultório particular. Atualmente, cursa MBA em Estratégia e Gestão de Negócios pela Fundação Getulio Vargas. É colunista do portal Neo Mondo. CRM: 151733 | RQE: 66127.

A insustentável riqueza das bets
O medicamento mais comentado do mundo foi inventado há 500 milhões de anos