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Escrito por Neo Mondo | 9 de fevereiro de 2026
a violência contra a mulher é um fracasso coletivo que começa muito antes da agressão física - Foto: Ilustrativa/Freepik
Por - Paulo Rocha*, especial para Neo Mondo
A violência contra a mulher não começa no tapa. Ela nasce muito antes — nas palavras que ferem, nos silêncios que consentem, nos estereótipos que se repetem, na omissão coletiva que normaliza o inaceitável. E toda cultura que tolera a violência fracassa moralmente.
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Por isso, o enfrentamento dessa barbárie vai além da segurança pública. É um desafio educacional, civilizatório. Não se trata de assumir uma posição ideológica — como se houvesse mais de uma possível. A escola precisa romper o silêncio e incorporar esse tema com seriedade.
A educação atua como escudo em três frentes: prevenção, proteção e transformação. Ensinar respeito, empatia e igualdade desde a infância é enfrentar a raiz da violência. Crianças e jovens precisam aprender que força não é dominação, que diferenças não justificam desigualdades e que autonomia, voz e dignidade não são concessões — são direitos de todas as pessoas.
Silenciar é educar para a violência. Ignorar o problema não o elimina — o aprofunda. Os dados são alarmantes: mais de 641 milhões de mulheres no mundo já sofreram violência física, psicológica e/ou sexual de parceiro íntimo. Só no último ano, uma em cada dez mulheres passou por isso. A OMS classifica a violência contra a mulher como emergência de saúde pública e violação grave de direitos humanos.
No Brasil, a tragédia tem números ainda mais gritantes. Em 2023, 3.903 mulheres foram assassinadas — taxa de 3,5 homicídios por 100 mil mulheres, superior à de muitos países de alta renda. Foram registrados 1.467 feminicídios e quase 2.800 tentativas. A cada hora, centenas de mulheres sofrem ameaças, agressões ou abusos, com crescimento em quase todos os indicadores.
A cor da pele e o endereço agravam a vulnerabilidade: 64% das vítimas de feminicídio são negras, 71% têm entre 18 e 44 anos e 64% morrem dentro de casa. Em nove anos de Lei do Feminicídio, mais de 10 mil mulheres foram mortas por homens com quem tinham laços afetivos ou familiares. O agressor, quase sempre, está ao lado.
A educação protege porque amplia horizontes. Mulheres com acesso ao conhecimento tendem a conquistar mais autonomia, consciência de direitos e capacidade de romper ciclos abusivos. Isso não as torna imunes — mas fortalece sua resistência. Ao mesmo tempo, a educação também forma meninos mais conscientes, capazes de reconhecer limites, respeitar o outro e construir relações baseadas em cuidado, não em poder.
Transformar a sociedade não é apenas punir seus algozes, mas educar suas futuras gerações. Homens de verdade não violentam — cuidam, respeitam, compartilham. E isso se aprende. Ou se ensina.
Tratar a violência contra a mulher como uma questão menor é ser cúmplice da barbárie. Não há neutralidade possível: onde há silêncio, há conivência; onde há omissão, há continuidade. A educação não é ornamento — é trincheira. Por isso, esse tema precisa deixar de ser eventual ou periférico e tornar-se parte explícita do currículo, da formação docente e das práticas pedagógicas. Um currículo que ignora essa realidade não é neutro: é um currículo que consente.
Enquanto apostarmos apenas em grades, sirenes e câmeras, continuaremos a contar corpos. Quando investirmos em empatia, diálogo e informação, começaremos a salvar vidas. Educar é prevenir. Educar é proteger. Educar é afirmar: a dignidade humana não se negocia. Diante da violência contra a mulher, não há outro caminho legítimo além desse.
*Paulo Rocha, é Vice-Presidente do Biopark, o maior e mais moderno parque científico e tecnológico privado do Brasil, localizado no Paraná. Atua há quase duas décadas na área da educação, inovação e desenvolvimento institucional, com foco em transformar o conhecimento em impacto social e econômico.
Egresso do Executive Program in International Management da Stanford Business School – National University of Singapore, mestre pela Fundação Dom Cabral em Redes Colaborativas, e MBA pelo IBMEC em Gestão de Negócios. É formado em Gerenciamento de Projetos pela Universidade Salvador e graduação em e Administração pela Universidade Federal da Bahia.
Autor dos livros Liderança Humanitária (2021) e Memórias da Alta Liderança (2019), ambos voltados à reflexão sobre propósito, gestão e o papel humano na liderança contemporânea.

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