O Brasil ainda não despertou para a riqueza incalculável de suas espécies terapêuticas.
Ginseng, carqueja, guaraná, confrei, ginkgo biloba, espinheira santa, sene, guaco, boldo….difícil encontrar quem nunca utilizou ou pelo menos ouviu falar dessas plantas medicinais, tão eficazes e em muitos casos, acessíveis. Elas integram um rol de plantas cujas substâncias podem ser utilizadas com finalidade terapêutica. Muitas delas são, inclusive, matérias-primas para o preparo de medicamentos sintéticos.
O uso de plantas medicinais remonta a própria história da humanidade, permanecendo até os dias atuais como a base da terapêutica moderna, porém, no Brasil ainda há pouca aplicabilidade se comparado a outros países, como a Alemanha, onde 75% da população já utiliza fitoterápicos. Por aqui, sobretudo nos grandes centros, os médicos e muitas vezes, os próprios pacientes, resistem ao uso desses medicamentos, que possuem eficácia comprovada e agregam inúmeros valores sociais, econômicos e ambientais, que os levam a serem considerados pelos seus defensores como os biocombustíveis da saúde, pois poderiam representar fonte de riquezas e divisas incalculáveis para o país.
De todo modo, ainda ouviremos falar muito sobre Fitoterapia. Ela foi recomendada pela Organização Mundial de Saúde como medida estratégica para universalizar os direitos à utilização de medicamentos e tem recebido amplo apoio do Ministério da Saúde brasileiro. O médico Luiz Sérgio Passos Alves (1), especialista em Plantas Medicinais e responsável pelo módulo de medicina na pós de fito da Universidade Federal de Lavras, explicou que a política nacional, que define as regras e os recursos destinados à Fitobrasil, é ainda muito recente, mas que a quantidade de pós-graduações e cursos universitários já quadruplicou, trazendo no seu rastro trabalhos científicos de boa qualidade. Apesar desse movimento favorável, ele diz que a fitoterapia ainda não conta com a adesão do Conselho Regional de Medicina. “O médico, ainda conhece pouco sobre esta opção terapêutica. Mas estamos melhorando” – esclareceu ele.
Alves explicou que o medicamento fitoterápico é aquele obtido exclusivamente de matérias-primas vegetais, processado tecnologicamente, com benefícios comprovados nas finalidades curativas, profiláticas ou diagnósticas.
Fonte de Riqueza
Além do aspecto que envolve a saúde, estamos falando de um mercado que movimenta US$ 22 bilhões/ano, sendo US$ 8,5 bilhões, na Europa e US$ 6,3 bilhões nos Estados Unidos. O Brasil tem a parcela de apenas US$ 400 milhões.
A Alemanha detém 39% do mercado europeu, apesar de possuir apenas 20 plantas endêmicas (próprias da região), contra 25.000 espécies brasileiras. Porém, os alemães formaram o maior centro de pesquisa mundial em fito (Comissão E). O tema é matéria curricular obrigatória nas faculdades de medicina, sendo prescrita por 70% dos médicos (contra 3% no Brasil). “Possuímos a maior grife ecológica do Planeta. Um hectare da Floresta Amazônica tem mais espécies de plantas do que todo o Continente Europeu (200 a 300)” – confirmou o especialista.
No entanto, como 65% das Indústrias Farmacêuticas instaladas no Brasil são multinacionais, 80% dos Fitoterápicos produzidos aqui são feitos com plantas exóticas (não-nativas do Brasil). Nos raros casos onde o produto brasileiro é valorizado, como o açaí e a castanha-do-pará, torna-se possível oferecer emprego para mais de 30.000 pessoas.
Para Alves, “a fitoterapia é a grande chance do Brasil embarcar definitivamente na milionária rota tecnológica da indústria farmacêutica”. Isso sem contar a questão da sustentabilidade e qualidade que poderia reverter um triste panorama brasileiro: a saúde pública.
Biodiversidade e Biopirataria
A união da grande biodiversidade com a falta de um controle efetivo de nossos recursos naturais, faz do Brasil a maior vítima mundial da Biopirataria. A CPI da Biopirataria acusou diversos países por patentes indevidas de nossas plantas nativas: cupuaçú, biribiri, mandioca selvagem, açaí…. Calcula-se que o conhecimento sobre a biodiversidade brasileira tenha um valor de US$ 2 trilhões (quatro vezes o PIB nacional). “Um exemplo disso é que entre os anos de 1983 e 1994, 60% dos antineoplásicos descobertos vinham diretamente das plantas. A folha da graviola que nasce e cresce em abundância no Brasil (subespontânea) demonstrou ser eficaz no tratamento do adenocarcinoma de cólon” – disse o médico. O mundo científico vasculha o Brasil em busca de plantas para tratamento do câncer, AIDS, hepatite B, herpes e gripe.
Farmácias Vivas
Os fitoterápicos produzidos com tinturas e extratos vegetais custam de duas a quinze vezes menos que os remédios industrializados. Muitos estados brasileiros (Ceará, Espírito Santo, Minas Gerais, etc) possuem Farmácias Vivas, onde se planta, manipula e dispensa gratuitamente fitos, prescritos pelos médicos locais. Este já pode ser considerado um re?exo positivo da implantação da Política Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos, que tem o objetivo de garantir o acesso seguro e o uso racional, visando a sustentabilidade desses recursos naturais.
Em 2004, a ANVISA (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) publicou uma resolução (RE 89) que facilitava o registro de 34 fitoterápicos, com a intenção de incentivar a produção e baratear o custo ao usuário. “Infelizmente esta lista só continha três plantas nativas do Brasil (guaco, espinheira-santa e guaraná)” – diz Alves.
Complexidade
A introdução da fitoterapia não é um processo simples. As plantas possuem seu próprio laboratório de síntese. Tão perfeito e complexo que o homem jamais conseguiu imitar. Talvez esteja aí o grande desafio desse resgate ao natural, que precisa estar adaptado às necessidades do mercado: padronização, uniformidade, produtividade contínua, quantidade, qualidade, tamanho, aspecto, homogeneidade, freqüência, etc. “Não é tarefa fácil. Por isto, a Fitoterapia é uma ciência eminentemente interdisciplinar. Não adianta o médico prescrever sem a mobilização de biólogos, taxonomistas, agrônomos, químicos, farmacêuticos e, principalmente, a agregação do conhecimento popular” – considerou o especialista.
Riscos
Nas últimas décadas, a fitoterapia ganhou notoriedade mundial por ser considerada segura, eficaz e com baixa incidência de efeitos colaterais. Contudo, é preciso desmistificar o dito popular: “É natural, não faz mal”. Alves cita o exemplo do confrei, que foi utilizado indiscriminadamente para prevenção e tratamento de leucemias, mas acabou provocando inúmeros tumores hepáticos malignos.
Outros agravantes são: a incidência de contaminação (bactérias, mofo, coliformes fecais, insetos e metais pesados), a adulteração intencional e a identificação errônea das ervas, assim como a manipulação e preparo de forma inadequada, que podem levar a resultados desastrosos e perigosos. A associação entre fitos e sintéticos também pode oferecer riscos ao paciente. Por isso mesmo, a prescrição médica é indispensável.
Instinto de Sobrevivência
Estudos apontam que o uso de plantas como medicamento faz parte do extinto de sobrevivência animal. Dentre os inúmeros exemplos está o chimpanzé, que consome 16 tipos de ervas, que não possuem nem sabor agradável nem valor nutricional, apenas terapêutico. Também o gavião, que quando picado por cobra, ingere folhas de guaco, cujas propriedades antiofídicas foram recentemente comprovadas pela ciência.
Já o homem que, desde a antigüidade, utilizava plantas com fins terapêuticos, traçou rumos diferentes. Com a evolução da química e a possibilidade da síntese de medicamentos a nível industrial, a fitoterapia caiu no descrédito total, até que nos anos 60, com o advento da Talidomida (2), se percebeu uma nova doença desastrosa: o efeito colateral e os riscos oferecidos pelo uso indiscriminado de medicamentos sintéticos. O mundo então voltou seu olhar, novamente, para as alternativas naturais.
As Plantas Terapêuticas
Ervas com registro facilitado no MS/ANVISA são:
• castanha-da-india (fragilidade capilar, varizes);
• alho (hipertensão arterial leve, dislipidemia e prevenção da aterosclerose);
• babosa (queimadura térmica grau 1 e 2 e de radiação);
• uva-ursi (infecção do trato urinário);
• calêndula (cicatrizante e antiin?amatório dermatológico);
• centela asiática (insu?ciência venosa dos membros inferiores);
• cimicifuga racemosa (sintomas do climatério);
• alcachofra (estimulante da função hepática);
• echinácea (preventivo e coadjuvante na terapia de resfriado e infecção do trato urinário);
• ginkgo biloba (vertigens e zumbidos, insu?ciência vascular cerebral);
• hypericum (estados depressivos leves e moderados);
• camomila (anti-espasmódico,antiinflamatório tópico, distúrbios digestivos, insônia leve);
• espinheira santa (dispepsia e coadjuvante no tratamento de úlcera gástrica);
• melissa (anti-espasmódico, carminativo, distúrbios do sono);
• hortelã (cólicas intestinais, carminativo, expectorante);
• ginseng (fadiga física e mental, adaptógeno);
• passi?ora (sedativo);
• guaraná (astenia, estimulante do SNC);
• boldo-do-chile (estimulante hepático, distúrbios gastrintestinais espásticos);
• anis (antiespasmódico, carminativo, expectorante);
• kava-kava (ansiedade, insônia, tensão nervosa, agitação);
• cáscara-sagrada (constipação intestinal);
• salgueiro (antitérmico, antiin?amatório, analgésico);
• sene (laxativo);
• saw palmeto (hipertro?a benigna de próstata),
• confrei (cicatrizante tópico),
• tanaceto (pro?laxia da enxaqueca);
• gengibre (pro?laxia dos vômitos causados por movimentos e pós-cirúrgicos);
• valeriana (insônia leve, sedativo, ansiolítico),
• guaco (expectorante, broncodilatador);
• hamamelis (hemorróidas e equimoses);
• poligala (bronquito, faringite);
• eucalipto (antitussígeno e antibacteriano das vias aéreas superiores, expectorante).