POR – REDAÇÃO NEO MONDO
Iniciativas mostram que ainda há tempo para um futuro mais sustentável
O IPCC, Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas da ONU, divulgou o relatório do ciclo de avaliações sobre o aquecimento global provocado pela humanidade. Para manter o aquecimento em 1,5°C em relação aos níveis pré-industriais, as emissões de gases de efeito estufa devem ser reduzidas de forma profunda, rápida e sustentável em todos os setores. O novo estudo da Proteção Animal Mundial destaca exatamente o papel crucial da pecuária industrial intensiva para o alcance das metas desta agenda.
“Precisamos agir em conjunto, mostrar para a sociedade civil que todos fazem parte do problema, só assim conseguiremos adotar medidas mais ambiciosas. No mês de março também estamos trabalhando com a ação #AindadáTempo nas redes sociais. Com o auxílio de influenciadores, queremos conscientizar as pessoas que o bem-estar animal é fundamental para a sustentabilidade global e requer uma mudança nas atitudes culturais em relação aos animais. A transição para o consumo de proteínas éticas e sustentáveis irá necessariamente reduzir o número de animais em sistemas de criação industrial e intensivo”, declara Karina Ishida, Coordenadora de Campanhas de Sistema Alimentar da Proteção Animal Mundial Brasil.
O Ranking dos Vilões da Pecuária, da Proteção Animal Mundial, classifica as cinco gigantes mundiais da pecuária industrial pela quantidade de emissões nocivas liberadas de sua cadeia de produção (somados, eles abatem 11,5 bilhões de frangos e 150 milhões de suínos a cada ano) à emissão de gases de carros em todo o mundo. A brasileira JBS, maior produtora global de carne e detentora das marcas Seara, Swift e Friboi, lidera o ranking dos maiores poluidores, responsável por emissões equivalentes a 14 milhões de carros em circulação a cada ano. Inclusive, a Proteção Animal Mundial é signatária da carta que pede que o CDP (conhecido anteriormente como Carbon Disclosure Project) revogue a recente pontuação “A-” e o status de “Liderança” concedido à gigante de processamento de carne JBS por seu desempenho no enfrentamento das mudanças climáticas por diversos motivos, incluindo a falta de um plano significativo de descarbonização, apesar do comprometimento da empresa em zerar as suas emissões líquidas até 2040.
Um dos motivos para o rebaixamento é o fato da empresa ainda não ter divulgado seu plano estratégico Net Zero para lidar com as emissões decorrentes do fornecimento de ração animal para fazendas industriais e nem ter detalhado como pretende frear a destruição dos habitats dos animais silvestres. Como indicado no ranking, a pegada da cadeia de produção de grãos para ração animal da JBS é equivalente a 7,8 milhões de carros em circulação a cada ano. “Aqui é válido lembrar que para manter o atual sistema de criação animal é necessária uma ampla produção de grãos para alimentar os animais de fazenda o que, infelizmente, tem ocorrido em áreas de desmatamento. Com isso o bem-estar de milhares de animais silvestres também é impactado, pela perda do habitat, mortes nos incêndios ou até mesmo em desdobramentos em decorrência do fogo (como atropelamentos)”, explica Ishida.
“Como o nosso estudo revela, as cinco operações intensivas de carne — que impulsionam a destruição do habitat natural para cultivar grãos usados na ração animal, bem como infligem crueldade aos animais — equivalem a 36,4 milhões de carros em circulação anualmente lançando poluentes nocivos. A JBS é atualmente a pior dessas poluidoras em série, e o que fica latente em nossa pesquisa é que a pecuária industrial intensiva não é compatível com um futuro seguro para o clima”, afirma Jacqueline Mills, chefe de campanha de agropecuária sustentável da Proteção Animal Mundial.
O Ranking dos Vilões da Pecuária, além dos principais culpados pelas mudanças climáticas na pecuária industrial, mostra ainda como algumas empresas se preparam para submeter suas metas à iniciativa Science-Based Targets Initiative (SBTi), apoiada pela ONU, que valida os planos apresentados pelas corporações para seu objetivo de Net Zero climático.
A Proteção Animal Mundial tem receio de que a JBS tente explorar lacunas nas diretrizes da SBTi quando submeter seus planos este ano.
“É imperativo que a SBTi impeça a indústria de carne de fazer greenwashing (estratégia de marketing para criar a falsa aparência de que algo é sustentável). Ela deve rejeitar a meta da JBS e remover a brecha que permite que essa fraude óbvia aumente as emissões gerais, ao mesmo tempo em que reivindica credenciais verdes”, comenta Mills.
Para subir na classificação, as empresas devem:
- Ter compromissos sólidos para parar de destruir o habitat de animais silvestres e de liberar carbono para a atmosfera quando a terra é desmatada para cultivos de grãos destinados a alimentar animais de criação.[1]
- Disponibilizar publicamente planos de ação climática confiáveis que contabilizem as emissões da cadeia de produção de ração animal e apresentar relatórios públicos relacionados.[2]
- Parar de produzir cada vez mais carne e laticínios de origem industrial. Em vez disso, produzir mais alimentos de origem vegetal e garantir que os produtos animais sejam de alto bem-estar animal para enfrentar a crise do clima, da biodiversidade e da segurança alimentar;
- Elevar o nível de bem-estar dos animais, assumindo compromissos alinhados aos padrões mínimos do FARMS.
O ranking se baseia em dados do relatório da Proteção Animal Mundial “Mudança climática e crueldade”, estudo encomendado pela organização e conduzido pela Blonk Consultants. O material, lançado nacionalmente em novembro de 2022, revela os impactos ambientais e climáticos da produção de carne suína e de carne de frango nos quatro maiores centros de pecuária industrial do mundo — Brasil, China, EUA e Holanda (representando a Europa).
A Proteção Animal Mundial reitera que todas as empresas citadas no ranking foram procuradas para prestar esclarecimentos e se posicionar, mas, infelizmente, até o presente momento a organização não obteve resposta.
[1] A Danish Crown e a Tyson Foods se comprometem com desmatamento zero para soja até o final de 2025. A BRF pretende acabar com o desmatamento para fornecimento de grãos nas regiões da Amazônia e do Cerrado até 2025. Esses compromissos permitem que a destruição do habitat continue nesse ínterim.
[2] Embora a BRF, a Danish Crown, a Pilgrim’s Pride UK (JBS) e a Tyson Foods tenham compromissos que abrangem o Escopo 3/ração animal, acreditamos que as empresas deveriam reduzir as emissões totais, em vez da intensidade das emissões por quilograma de carne processada.