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POR – OSCAR LOPES, PUBLISHER DE NEO MONDO
Em extensão, Amazônia foi o bioma que mais perdeu superfície de água; proporcionalmente, Pantanal foi o bioma que mais secou desde 1985
Em 2023, a água cobriu 18,3 milhões de hectares do território brasileiro, o equivalente a 2% da área nacional. Embora essa extensão seja comparável ao dobro do território de Portugal, ela representa uma diminuição de 1,5% em relação à média histórica. O MapBiomas Água, que lança uma nova coleção de mapas e dados cobrindo o período de 1985 a 2023, revela que houve perda de água em todos os meses de 2023 em comparação com 2022, inclusive durante a estação chuvosa. A última retração da superfície hídrica no Brasil havia sido registrada em 2021, com uma redução de 7%.
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Os biomas brasileiros enfrentam uma perda contínua de superfície hídrica desde 2000, com a década de 2010 sendo a mais crítica. Em 2023, 77% da superfície de água no país eram corpos hídricos naturais, enquanto 23% eram antrópicos, como reservatórios, hidrelétricas, aquicultura e mineração, totalizando 4,1 milhões de hectares. Desse total, os grandes reservatórios, monitorados pela Agência Nacional de Águas, somam 3,3 milhões de hectares, um crescimento de 26% em relação a 1985.
Impactos nos Corpos Hídricos Naturais
Por outro lado, os corpos hídricos naturais sofreram uma queda de 30,8% ou 6,3 milhões de hectares em 2023 em comparação com 1985. Metade das bacias hidrográficas do país esteve abaixo da média histórica em 2023, percentual semelhante ao das sub-bacias de nível 1 (53%) e nível 2 (57%). Dez estados, ou 37% das unidades federativas, tiveram superfície de água abaixo da média histórica em 2023, com os casos mais severos ocorrendo em Mato Grosso do Sul e Mato Grosso. O município de Corumbá (MS) foi o mais afetado, com uma perda de 261 mil hectares (-53%).
Desafios por Bioma
Amazônia
A Amazônia, que abriga 62% da superfície de água do Brasil, apresentou uma retração de 3,3 milhões de hectares em relação a 2022. Em 2023, o bioma sofreu com uma seca severa, impactando populações e causando mortandade de peixes, botos e tucuxis.
Pantanal
O Pantanal foi o bioma que mais secou, com uma redução de 61% na superfície de água anual em 2023 comparado à média histórica. Apenas 2,6% do bioma estava coberto por água no ano passado, o que agravou a ocorrência de incêndios.
Cerrado
O Cerrado registrou a maior superfície de água desde 1985, com 1,6 milhão de hectares, graças ao aumento de áreas antrópicas. No entanto, os corpos de água naturais perderam 696 mil hectares, destacando a dependência de reservatórios artificiais.
Caatinga
Após um período de seca severa, a Caatinga teve um aumento de 6% na superfície de água em 2023, consolidando um ciclo mais chuvoso. No entanto, ainda há problemas de secas localizadas e uma tendência geral de redução da superfície d’água natural.
Pampa
O Pampa teve a menor superfície de água em reservatórios da série histórica, com uma área 40% inferior à média. Apesar das cheias no Rio Grande do Sul, a superfície de água no bioma permaneceu 2% abaixo da média histórica.
Mata Atlântica
A Mata Atlântica registrou uma superfície de água 3% acima da média histórica em 2023. O bioma enfrentou eventos extremos de precipitação, causando inundações e deslizamentos, e possui a maior área de superfície de água antrópica.
Os dados do MapBiomas Água evidenciam uma crise hídrica que afeta diversos biomas brasileiros, com impactos ecológicos, sociais e econômicos significativos. As mudanças climáticas agravam essas tendências, ressaltando a urgência de estratégias adaptativas de gestão hídrica para garantir a sustentabilidade dos recursos hídricos no país.
Com a contínua redução da superfície hídrica, é crucial que políticas públicas e iniciativas de preservação sejam fortalecidas para mitigar os efeitos da mudança climática e assegurar a disponibilidade de água para as futuras gerações.
PDF COM MAPAS E GRÁFICOS DISPONÍVEL NESTE LINK.
Sobre MapBiomas Água – Iniciativa inédita de mapeamento territorial da dinâmica da água superficial e de corpos hídricos para todo o território nacional desde 1985. A exemplo do MapBiomas Fogo, a série Água processou mais de 150 mil imagens geradas pelos satélites Landsat 5, 7 e 8 de 1985 a 2023. Com a ajuda de inteligência artificial, foi analisada a área coberta por água em cada pixel de 30 m X 30 m dos mais de 8,5 milhões de quilômetros quadrados do território brasileiro ao longo dos 39 anos entre 1985 e 2023, distinguindo os corpos hídricos naturais e antrópicos. Ao todo, foram 108 terabytes de imagens processadas, revelando áreas, anos e meses de maior e menor cobertura de água. O método também permite identificar a área com água em cada mês em todo o período, bem como as transições e tendências. Os dados podem ser encontrados em mapas e estatísticas anual, mensal e acumulada em para qualquer período entre 1985 e 2023 na plataforma https://agua.mapbiomas.org/, aberta a todos.
Sobre MapBiomas: iniciativa multi-institucional, que envolve universidades, ONGs e empresas de tecnologia, focada em monitorar as transformações na cobertura e uso da terra no Brasil, para buscar a conservação e o manejo sustentável dos recursos naturais, como forma de combate às mudanças climáticas. Esta plataforma é hoje a mais completa, atualizada e detalhada base de dados espaciais de uso da terra em um país disponível no mundo. Todos os dados, mapas, métodos e códigos do MapBiomas são disponibilizados de forma pública e gratuita no site da iniciativa. Além disso, a rede MapBiomas ampliou-se para outros 13 países, como também gera outros produtos como MapBiomas Alerta, MapBiomas Fogo, MapBiomas Água e MapBiomas Solo.