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Escrito por Neo Mondo | 10 de novembro de 2025
Foto: Embaixador André Corrêa do Lago, presidente designado da COP30
POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DE NEO MONDO
As cartas de André Corrêa do Lago encerram um ciclo de palavras e abrem outro — o da ação, da coragem e da cooperação global rumo à COP30
Há momentos em que a diplomacia deixa de ser apenas linguagem de Estado e se transforma em poesia política — um gesto de humanidade, um apelo à razão e ao coração. Foi assim que li a nona e a décima (e última) carta do embaixador André Corrêa do Lago, presidente-designado da COP30, divulgadas às vésperas da conferência que levará o mundo a Belém.
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Esses dois textos — distintos, mas profundamente conectados — são, a meu ver, a síntese de uma era que se encerra e outra que começa. Um ciclo de palavras que se fecha, e um ciclo de ação que finalmente se abre.
Na nona carta, Corrêa do Lago faz um chamado direto: “converter déficits em forças de aceleração”. É uma frase simples, mas poderosa. Ele fala sobre transformar lacunas em alavancas, urgência em oportunidade, e reafirma algo que ressoa fortemente comigo — que o Acordo de Paris está funcionando, e que agora é hora de fazê-lo operar em plenitude.
Pela primeira vez desde sua criação, todo o ciclo de políticas climáticas globais — das NDCs aos relatórios de transparência — está ativo. A COP30, segundo ele, será o momento de “passar da negociação para a entrega”.
Li essa passagem e pensei: é isso. Chegou a hora da verdade. A hora em que a ambição não é mais medida pelo tamanho da promessa, mas pela velocidade da implementação.
A carta fala em pontos de inflexão — e não só os que ameaçam o planeta, mas os que podem virar o jogo. A energia limpa, a restauração de florestas, o combate ao metano, a infraestrutura digital, o financiamento climático acessível — são todos gatilhos de mudança.
E há algo ainda mais simbólico: a Amazônia como catalisador global.
Corrêa do Lago lembra que proteger florestas e pessoas é uma mesma missão, e destaca a criação do Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF) — um novo modelo de financiamento baseado em resultados, que recompensa países por manterem suas florestas em pé.
Em suas palavras, “em Belém, a verdade deve encontrar a transformação, e a ciência deve tornar-se solidariedade.”
Não consigo imaginar definição mais precisa para o que significa fazer uma COP na Amazônia.
A última carta, publicada logo em seguida, é quase uma despedida — mas daquelas que anunciam um recomeço.
O embaixador escreve: “Com esta décima carta, concluo um ciclo de palavras para que o mundo abra um ciclo de ação.”
E aí está a essência de tudo o que a COP30 representa: passar da retórica à prática, da promessa ao fazer.
Ele descreve Belém com uma beleza que transcende a geografia: “onde o rio encontra o oceano: onde a humanidade recomeça.”
Essa metáfora é mais do que poética — é profundamente simbólica. Porque o encontro entre rio e mar é também o encontro entre o local e o global, entre o humano e o natural, entre o que fomos e o que ainda podemos ser.
Na carta, Corrêa do Lago convida o mundo a transformar a COP30 de um fórum de debate adversarial em um laboratório de soluções.
Um mutirão global — essa expressão, tão brasileira, tão simples e tão poderosa — define bem o espírito que ele busca imprimir à conferência. Um mutirão que não é de governos, mas de povos; não de acordos frios, mas de cooperação viva.
E ao listar as dez cartas que escreveu ao longo de um ano, ele traça uma narrativa que é, no fundo, a trajetória da própria COP30:
da visão à ação;
da diplomacia à mobilização;
da promessa à aceleração;
da palavra ao gesto.
Quando Corrêa do Lago afirma que “a COP30 deve ser a COP da Verdade”, ele não está falando apenas de transparência ou prestação de contas — está falando de coerência.
Da necessidade de alinhar discurso e prática, metas e entregas, compromissos e coragem.
Ele reconhece: estamos quase lá. O mundo começa a curvar a trajetória das emissões. A transição climática é irreversível. Mas “quase”, diz ele, não é suficiente.
Essa frase ecoa como um mantra: precisamos ir mais rápido.
Mais rápido para proteger cada comunidade ameaçada, cada floresta em risco, cada recife, cada rio, cada criança que ainda não nasceu.
Como publisher do Neo Mondo, acompanho há anos o desenrolar das COPs — cada uma com seus impasses, suas esperanças, suas promessas. Mas há algo diferente nesta.
A COP30 não é apenas um evento global. É um símbolo de reconexão.
O Brasil transfere temporariamente sua capital para Belém, e o mundo transfere seu olhar para o coração da Amazônia — lembrando que a liderança climática precisa brotar das raízes, não dos cúpulos de vidro.
É uma virada de chave: do cume do poder à fonte da vida.
Belém é o cenário onde o planeta pode, enfim, se olhar no espelho e escolher mudar por vontade — e não por tragédia.
É onde a diplomacia se torna humanidade, e onde as palavras de um embaixador se convertem em legado.

Enquanto escrevo estas linhas, penso em como essas cartas — a nona e a décima — se transformam em algo maior do que documentos. Elas são cartas ao futuro.
A nós, que herdamos o planeta num estado de urgência; e às próximas gerações, que nos cobrarão o que fizemos com essa urgência.
Corrêa do Lago termina dizendo: “Temos uma escolha. Podemos mudar. Mas precisamos fazê-lo juntos.”
E é justamente isso que me move — como jornalista, como cidadão e como ser humano.
A COP30 é o momento em que o Brasil olha o mundo nos olhos e diz: vamos virar o jogo.
De Belém, o rio encontra o oceano. E talvez, finalmente, a humanidade encontre a si mesma.
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