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Escrito por Neo Mondo | 24 de novembro de 2025
Na plenária da COP30, países avançam em consenso sobre transição justa, adaptação e Acordo de Paris — passos importantes, mas ainda longe da urgência climática - Foto: Ueslei Marcelino/COP30
POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DE NEO MONDO
Entre vitórias políticas, lacunas perigosas e um Brasil dividido entre pavulagem e frustração, Belém encerra a COP da Implementação com um pacto possível — ainda que longe do necessário
Vou te contar com toda sinceridade: saí da COP30 com aquela sensação agridoce que só quem acompanha essas conferências há anos conhece. De um lado, a euforia genuína — sim, pavulagem autorizada — de ver Belém vibrando com povos indígenas, movimentos negros, juventudes, cientistas, artistas e milhares de pessoas que transformaram a capital amazônica no epicentro global do clima. Do outro, a velha frustração que insiste em nos lembrar que, enquanto o planeta pega fogo, alguns países ainda parecem acreditar que dá pra negociar com a física.
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E no meio disso tudo, emergiu a tal “COP da Implementação”.
A “Decisão Mutirão”, documento final da COP30, não trouxe os tão esperados mapas do caminho para eliminar combustíveis fósseis e acabar com o desmatamento. Ficou devendo — e muito.
E olha que Lula e Marina Silva jogaram alto: lançaram cedo, ainda na Cúpula de Líderes, a bandeira dos dois roadmaps. Ganharam apoio de dezenas de países, mobilizaram sociedade civil, cientistas e até inspiração poética para redes sociais. Mas a pressão árabe, capitaneada pela Arábia Saudita, com o apoio nada tímido de Rússia, China e Índia, foi mais forte.
O texto saiu? Saiu. Mas saiu sem aquilo que poderia ter marcado a COP30 como o divisor de águas desta década.
Ainda assim, negar os avanços seria injusto — e até desonesto.
Depois de anos de empurra-empurra, os países toparam dobrar a aposta no financiamento para adaptação. Fala-se em triplicar recursos até 2035. Não é a revolução que a ciência exige, mas é o movimento mais concreto em muito tempo.
E aqui entra um ponto histórico: o Brasil lançou o Fundo de Florestas Tropicais para Sempre (TFFF), uma proposta ousada e necessária para proteger o que ainda resta — e recuperar o que já levou pancada demais.
Não resolve tudo? Não. Mas abre caminhos.
Belém entregou algo que muitos negociadores já consideravam improvável: a adoção dos 59 indicadores da Meta Global de Adaptação (GGA).
A meta inicial era 100, mas quem acompanha COP sabe: 59 alinhados valem mais do que 100 intangíveis.
E ainda veio a “Visão Belém–Addis”, um processo de dois anos que vai desenhar as políticas concretas para esses indicadores até a COP32, na Etiópia.
É técnico? É. Mas é transformador — especialmente para países do Sul Global, sempre à beira do colapso climático.
É simbólico? É.
É político? Muito.
É histórico? Sem dúvida.
A COP30 é a primeira conferência do clima a reconhecer formalmente o papel das comunidades afrodescendentes no combate às mudanças climáticas.
E reforça, de forma inédita, os direitos territoriais dos povos indígenas — uma vitória gigante para o movimento indígena, que há anos luta por esse reconhecimento.
Essa conquista não veio de cima. Veio da base. Da mobilização de lideranças negras, quilombolas, ribeirinhas e indígenas que lotaram Belém com suas vozes, seus corpos, suas histórias.
As regras de transparência do Acordo de Paris avançaram. A ideia é simples:
“Se você promete, cumpra. E se não cumprir, explique.”
É quase um conselho de mãe — mas, no universo da diplomacia climática, soa como revolução.
Ainda assim, persistem lacunas perigosas: a famigerada lacuna de ambição, esse abismo entre o que os países dizem que farão e o que realmente fazem, segue viva, pulsando e nos lembrando do calor insuportável que já nos assombra.
Fora da decisão final.
Simples assim.
E é aqui que a frustração vira quase um deboche.
A Colômbia, indignada, pediu até VAR na plenária — e não estava errada. Se Dubai, há dois anos, abriu a porta para a discussão sobre o fim dos combustíveis fósseis, Belém deveria ter transformado essa porta em estrada. Em roadmap.
Mas não aconteceu.
Ainda assim, há uma promessa: o embaixador André Corrêa do Lago continuará presidindo o processo até o início da COP31, na Turquia, e se comprometeu a retomar os mapas. Se vão deixar? Aguardemos.
Sabe quando alguém diz que “Belém não estava pronta”? Pois estava. E brilhou.
Mesmo com:
E ainda assim, Belém pulsou.
Belém resistiu.
Belém acolheu.
Belém mostrou ao mundo que a Amazônia não é só um bioma — é um sujeito político.

Belém entregou avanços significativos.
Belém ampliou vozes silenciadas.
Belém trouxe ferramentas concretas para adaptação e financiamento.
Mas Belém não trouxe a coragem que o mundo precisava.
E é aqui que a pavulagem vira responsabilidade: se queremos celebrar a Amazônia, precisamos também honrá-la com decisões à altura de sua grandeza.
A COP30 avança.
Mas a humanidade ainda tropeça.
E, no final, talvez a pergunta que fica seja a de sempre:
“Vamos continuar negociando a sobrevivência da nossa espécie como quem negocia preço de açaí na feira?”
Porque o planeta, prezada(o) leitora(o)…
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