Amazônia COPs Cultura Destaques Economia e Negócios Emergência Climática Meio Ambiente Oceano Política Saúde Segurança Sustentabilidade Tecnologia e Inovação Turismo
Escrito por Neo Mondo | 23 de novembro de 2025
Encerramos a COP30 com uma sensação difícil de engolir: o Oceano esteve em todos os lugares… menos no texto final - Imagem gerada por IA - Foto: Ilustrativa/Divulgação
POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DE NEO MONDO

Alexander Turra encerra a cobertura do Neo Mondo com um balanço irônico, contundente e necessário: fizemos de tudo… mas Belém perdeu a chance histórica de assumir o Oceano como protagonista do clima
Esta matéria fecha um ciclo.
O último boletim da COP30 não vem dos corredores da Blue Zone, nem de um pavilhão lotado, nem de uma travessia pelo Rio Guamá. Vem de São Paulo. E talvez isso seja simbólico: o Oceano é tão vasto que não cabe em um único território — e tão ignorado que nem precisa estar fisicamente presente para ser relegado ao rodapé das negociações.
Leia e assista também: COP30 — Dia 11: O Pacote Azul, o fim dos fósseis e o Brasil em busca de aliados para um futuro de baixo carbono
Leia e assista também: COP30 — Dia 10: Inovação azul, diplomacia científica e a união Amazônia Verde + Amazônia Azul
E sim, o resultado final foi decepcionante.
Mas antes de chegar ao desfecho amargo, vale lembrar a travessia.
Ao longo das últimas duas semanas, você acompanhou comigo — através do olhar generoso, inquieto e por vezes aflito do professor Alexander Turra — uma COP30 que ousou se declarar “A COP do Oceano”.
E convenhamos: coragem não faltou.
O Oceano estava por toda parte. Literalmente.
Dia 1 ao 3 — vimos o Pavilhão do Oceano nascer como símbolo de uma nova era. Turra mostrava, em vídeo, o entusiasmo: o mar finalmente havia tomado o centro das discussões. Havia vozes, ciência, esperança, diálogos sobre cultura oceânica, economia azul, adaptação, mitigação e inovação.
Dia 4 ao 6 — acompanhamos debates sobre turismo sustentável, dados oceanográficos, UNOceans, inovação azul, empreendedorismo, portos inteligentes, marés, ventos, correntes, risco, previsibilidade.
Conversamos sobre navios com emissões zero, economia circular, gênero, rodas de negócio, descarbonização portuária e a visita de autoridades globais — incluindo chanceleres e enviados especiais.
Dia 7 ao 9 — vimos a Estratégia Nacional Oceano Sem Plástico, ouvimos Carlos Nobre, Tamara Klink, cineastas, pesquisadores e defensores do oceano.
Fizemos denúncias, levantamos dados, apresentamos resultados alarmantes sobre microplásticos em mexilhões, ostras e sururus.
Assistimos à Noruega puxar a fila da ciência e dos dados abertos, anunciando o monumental navio Rev Ocean, que virá ao Brasil em 2027.
Dia 10 — Turra falou de diplomacia científica, Amazônia Azul, Amazônia Verde, inovação, tecnologia e cooperação multilateral.
Foi a síntese de tudo que desejamos ver florescer nos próximos anos.
Dia 11 — já de volta a São Paulo, ele descreveu os bastidores das negociações finais: o Pacote Azul, a pressão global para abandonar combustíveis fósseis, a necessidade de desmatamento negativo, e o papel do Brasil em uma transição justa e eficiente.
E hoje chegamos ao fim.
Turra não dourou a pílula.
Nem deveria.
“O resultado da COP30 em relação ao oceano é desconcertante.”
Por quê?
Porque o texto final apresenta apenas uma menção genérica, superficial e quase burocrática ao Oceano.
Ignora:
É como se o Oceano tivesse sido o tema mais debatido da COP30, mas não tivesse sido convidado para escrever o último parágrafo do documento oficial.
O texto trata o Oceano como um coadjuvante, quando ele é o protagonista inevitável:
Reduzi-lo a uma nota de rodapé é mais que um erro técnico — é uma miopia estratégica.
Turra ironiza, com a sutileza elegante que só ele tem:
“Não quero dizer que morremos na praia… mas podíamos ter ido mais longe.”
Turra é categórico:
Na mobilização para a COP31, os países insulares do Pacífico precisam ser nossos aliados.
São eles que:
A estratégia já começou.
E começa agora.
O boletim 12 encerra a série, mas não encerra a luta — nem o jornalismo.
“A COP acaba, mas não acaba nossa luta para combater a crise climática, a crise da biodiversidade, da poluição, da pobreza. Tudo isso tem a ver com o oceano.”
E termina com um chamado que deveria ecoar para além de Belém, para além do Brasil, para além da COP30:
“Vamos botar o oceano para dentro.
Vamos fazer o oceano inundar todos os espaços.”
Nós, no Neo Mondo, assinamos embaixo.
E seguimos cobrindo, incomodando, questionando e propondo — até que o Oceano ocupe o lugar que sempre foi seu.
Série especial “Boletins da COP30 | Horizontes Azuis”
A cada novo dia da COP30, o portal Neo Mondo publica um boletim em vídeo direto da Blue Zone, apresentado por Alexander Turra — professor da USP, coordenador da Cátedra Unesco para a Sustentabilidade do Oceano com a parceria estratégica da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP).
Os vídeos são incorporados às matérias escritas por Oscar Lopes, publisher do portal, conectando o olhar da ciência e da comunicação no maior evento climático do planeta.

Biólogo, educador, pesquisador e comunicador. Professor titular do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo e coordenador da Cátedra Unesco para a Sustentabilidade do Oceano, dedica-se a promover a aproximação entre o oceano e a sociedade.

O Amapá e o mar que ainda é seu
Desmatamento no Brasil fica abaixo de 1 milhão de hectares em 2025