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Escrito por Neo Mondo | 2 de setembro de 2025
Para Thelma Krug, a COP30 pode entrar para a história como a “COP da mudança” - Foto: Ilustrativa/Divulgação
POR - OSCAR LOPES*, PUBLISHER DO PORTAL NEO MONDO
A 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP30), que será realizada em novembro em Belém (PA), tem potencial para marcar uma virada na governança climática mundial. Para Thelma Krug, pesquisadora aposentada do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e ex-vice-presidente do Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima (IPCC), o encontro pode deixar de ser apenas um espaço de negociações formais para se tornar palco de ações efetivas, com protagonismo dos países em desenvolvimento.
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Krug, que atualmente coordena o Conselho Científico da COP30, destaca a importância simbólica e estratégica de sediar a conferência na Amazônia. “É uma oportunidade única de reduzir o desconhecimento global sobre a dimensão e a relevância da floresta. Espero que, ao sobrevoarem a região rumo a Belém, os delegados se sensibilizem ao ver aquele oceano verde ainda preservado, apesar das pressões”, afirma. Para ela, o Brasil tem credenciais robustas a apresentar – desde sua liderança em energia limpa até os esforços pelo desmatamento zero –, mas também enfrenta contradições, como a ameaça de flexibilização do licenciamento ambiental.
Entre os destaques da conferência estará a Agenda de Ação Climática, que amplia a responsabilidade sobre a crise para além dos governos, envolvendo setor privado, sociedade civil e comunidades locais. Proposta pelo embaixador André Corrêa do Lago, presidente designado da COP30, a iniciativa ganhou o apelido de “mutirão da agenda” por seu caráter inclusivo e coletivo.
Organizada em seis eixos temáticos, a agenda reúne 30 ações prioritárias, entre elas: triplicar a geração de energias renováveis, abandonar progressivamente os combustíveis fósseis, combater o desmatamento, promover agricultura sustentável e viabilizar mecanismos de financiamento climático. Essas metas dialogam diretamente com o Balanço Global – um dos pilares do Acordo de Paris –, que avalia a cada cinco anos se o mundo está de fato cumprindo suas promessas. O primeiro balanço, divulgado em 2023, trouxe alerta preocupante: os esforços atuais ainda estão muito aquém do necessário para conter o aquecimento global dentro de limites seguros.
Um dos pontos mais debatidos é a meta de limitar o aumento da temperatura média global a 1,5 °C em relação aos níveis pré-industriais. Em 2024, o mundo ultrapassou temporariamente esse limite, registrando 1,6 °C. Para Krug, o episódio não significa fracasso definitivo. “O IPCC trabalha com séries de 20 a 30 anos. Um ano atípico é diluído na média de longo prazo. O problema é que estamos vivendo décadas consecutivamente mais quentes. Mesmo assim, acredito que ainda é possível reverter o cenário até o fim do século, desde que adotemos medidas ambiciosas e rápidas.”
A cientista vê na COP30 uma oportunidade concreta de acelerar a ação climática global, impulsionada não só por compromissos governamentais, mas também por iniciativas práticas motivadas por razões econômicas, como a adoção crescente da energia solar.

Outro tema central será o fortalecimento do multilateralismo. A ausência do governo federal dos Estados Unidos, maior emissor histórico de gases de efeito estufa, preocupa, mas Krug ressalta que diversos estados norte-americanos permanecem engajados e devem participar da conferência. “O risco maior seria um efeito dominó em outros países. Para mim, o sucesso da COP30 será justamente evitar isso e fortalecer a cooperação internacional com nova liderança, sobretudo dos países em desenvolvimento.”
Ela também cita a China como exemplo de país que, embora hoje seja o maior emissor global, investe fortemente em renováveis e mobilidade elétrica, preferindo anunciar metas modestas, mas alcançáveis.
Para além das diferenças entre países, as desigualdades internas também exigem atenção. Krug lembra que 26 milhões de pessoas vivem na Amazônia, muitas delas dependentes diretamente da floresta. Por isso, considera essencial valorizar a ciência regional, o conhecimento tradicional e as soluções que emergem da realidade local.
Nesse contexto, a pesquisadora celebra o fortalecimento da ciência brasileira, marcada por diversidade regional e de gênero, com presença crescente de mulheres em posições de liderança internacional. “Não se trata apenas de simbolismo. Homens e mulheres trazem perspectivas diferentes, e essa diversidade enriquece o debate e fortalece as soluções”, destaca.
O Conselho Científico da COP30, coordenado por Krug, terá papel estratégico de fornecer suporte técnico e analítico durante a conferência. Ao lado de outros dois conselhos – voltados à tecnologia e inovação e ao financiamento –, o grupo reunirá cientistas renomados do Brasil e do exterior para subsidiar negociações oficiais e iniciativas da agenda de ação.
Paralelamente, Krug também lidera a participação da FAPESP no evento, a convite do presidente Marco Antonio Zago. A ideia é ir além da apresentação de resultados científicos, promovendo um espaço dinâmico de diálogo entre ciência, setor privado, sociedade civil e comunidades locais. “Queremos mostrar que a ciência pode ser ponte entre conhecimento e ação, articulando novos olhares e soluções conjuntas”, resume.
Para Thelma Krug, a COP30 pode entrar para a história como a “COP da mudança”. “É a chance de transformar negociações em ações efetivas, de trazer o mundo para dentro da Amazônia e de mostrar que o Brasil pode liderar, mas sem esquecer suas próprias fragilidades ambientais e sociais. Temos diante de nós um desafio imenso, mas também uma oportunidade única de deixar um legado duradouro.”
*Com informações da Agência FAPESP.
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