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Escrito por Neo Mondo | 10 de setembro de 2025
Minerais críticos: a oportunidade do Brasil na transição energética - Foto: Ilustrativa/Freepik
Por - Liliam Fernanda Yoshikawa* e Pedro Henrique Jardim*, especial para Neo Mondo
O Brasil, prestes a sediar a COP30, encontra-se sob os holofotes internacionais, com um discurso climático ambicioso. Em meio a diversos desafios e algumas controvérsias, um tema se destaca por sua relevância e potencial transformador: os minerais críticos, essenciais para a transição energética global.
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A mineração é um pilar incontornável para viabilizar essa transição, já que determinados recursos minerais, especialmente os chamados minerais críticos, são fundamentais para a produção de equipamentos e componentes necessários, como baterias — inclusive para carros elétricos —, além de tecnologias aplicáveis à cadeia de energias renováveis e a outras soluções que contribuem para a redução de poluentes e dióxido de carbono.
Segundo o Sumário Mineral 2024 da Agência Nacional de Mineração (ANM), o Brasil detém cerca de 11,4 milhões de toneladas de óxidos de terras-raras (REO) em reservas provadas e prováveis, o que equivale a 10,8% das reservas globais, concentradas em Minas Gerais, Goiás, São Paulo e Amazonas. Estudos do Serviço Geológico do Brasil (SGB) indicam ainda que o país possui um potencial geológico superior, com estoques que podem ultrapassar 20 milhões de toneladas de REO.

A importância desses recursos para os equipamentos citados e para demais fontes de energias renováveis e tecnologias verdes é inegável. No entanto, crescem as preocupações de que tais minerais sejam produzidos de forma sustentável, pois não faz sentido que os insumos destinados a tecnologias verdes causem impactos ambientais contraditórios com seus objetivos positivos.
O Brasil ainda depende do processamento externo para o refino e a produção de ímãs e componentes de alta tecnologia, sobretudo na China, o que limita sua participação na cadeia global de valor. É natural que, diante das reservas existentes, o país deseje mudar esse cenário e explorar mais do potencial vinculado à cadeia produtiva dos minerais críticos. Hoje, a maior parte da produção nacional de terras-raras ainda vem dos estoques das Indústrias Nucleares do Brasil (INB) e de projetos em fase de ramp-up, como o da Serra Verde, em Minaçu (GO), iniciado em dezembro de 2023. Segundo dados da ANM, os investimentos em pesquisa para terras-raras cresceram 67,4% em 2023, alcançando R$ 31,2 milhões, e tendem a aumentar ainda mais devido à crescente demanda por energia renovável, impulsionada por novas tecnologias de processamento de dados e inteligência artificial.
A demanda global por minerais críticos deverá seguir em ascensão. Dados da IEA (International Energy Agency, 2024) já indicam que a procura por lítio deve atingir 531 mil toneladas em 2030 e 1,3 milhão em 2040, enquanto terras-raras, cobre e níquel deverão dobrar ou mais no mesmo período, impulsionados pela expansão de veículos elétricos e energias renováveis. Esses números evidenciam a oportunidade única de o Brasil se posicionar como fornecedor confiável e sustentável no cenário internacional.
Para transformar esse potencial em liderança climática, o país precisa incentivar a economia circular e o refino nacional, implementar instrumentos financeiros verdes e mecanismos de rastreabilidade, além de criar medidas de inclusão socioeconômica de longo prazo para as comunidades impactadas pela mineração. Também é necessário enfrentar gargalos como a carência tecnológica, o baixo nível de industrialização e a pouca agregação de valor interno, a fim de fortalecer sua posição estratégica no cenário global da transição energética.

A COP30 deve ser mais do que uma plataforma de discursos e ideias; precisa se tornar um marco de ação concreta no campo dos minerais críticos. Ao conciliar exploração sustentável, justiça climática e inovação tecnológica, o Brasil poderá garantir seu papel estratégico na transição energética global e consolidar-se como líder climático.
*Liliam Fernanda Yoshikawa e *Pedro Henrique Jardim são sócios da área de Mineração do Machado Meyer Advogados.
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