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Escrito por Neo Mondo | 21 de julho de 2026
Fogo sob controle não basta quando novas fronteiras do petróleo avançam sobre a Amazônia - Imagem gerada por IA - Foto: Neo Mondo/Ilustrativa
POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DO NEO MONDO
Há um ano, Belém sediava a COP30 e o Brasil discursava, aos olhos do mundo, como protagonista de uma nova liderança ambiental. Os números que o MapBiomas divulgou nesta terça-feira, 21/07, parecem, à primeira vista, confirmar esse papel: a Amazônia registrou em 2025 a menor área queimada desde que o monitoramento por satélite começou a rastrear o bioma, em 1985 — 3,1 milhões de hectares, ante os 15,8 milhões que consumiram a floresta no ano anterior. Em todo o território nacional, o fogo consumiu 12,7 milhões de hectares, o menor volume desde 2018. É um resultado que chega embrulhado em circunstância política: a menos de três meses das eleições em que Luiz Inácio Lula da Silva busca um novo mandato, um balanço ambiental positivo tem o peso de um argumento de campanha.
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A explicação técnica é conhecida e menos generosa do que a política gostaria: a queda das queimadas segue, com alguma defasagem, a queda do desmatamento, e um deslocamento no calendário das chuvas ajudou a reduzir a propagação do fogo. Não há mistério nem milagre — há, sobretudo, um ano climático mais favorável somado a uma fiscalização que finalmente colhe resultado. O Cerrado, no entanto, se recusa a acompanhar a boa notícia: o bioma segue com níveis elevados de incêndio, um lembrete de que a vitória na Amazônia não se repete automaticamente onde a vegetação é mais seca e a pressão do agronegócio mais constante.
O problema não está no dado em si, mas no que ele convive ao lado. Enquanto o país comemora o menor índice de fogo em quatro décadas, o mesmo governo segue tocando adiante a exploração de petróleo na Foz do Amazonas — um processo que atravessa anos e que, apenas nos últimos meses, produziu um vazamento durante a perfuração do poço FZA-M-59 pela Petrobras. A estatal arrematou dez dos dezenove blocos oferecidos na região no leilão da Agência Nacional do Petróleo, e o Ibama autorizou a prospecção mesmo diante de pareceres técnicos que apontavam lacunas nos planos de mitigação de impactos e de proteção à fauna marinha. A Margem Equatorial concentra um dos ecossistemas mais ricos em biodiversidade do Atlântico Sul — recifes, manguezais, espécies ameaçadas como o peixe-boi marinho — e é, ao mesmo tempo, a nova fronteira fóssil que o Brasil escolheu abrir bem no momento em que celebra ter apagado o próprio incêndio.
Essa coexistência não é acidente de calendário, é o retrato mais fiel da política ambiental brasileira em 2026: dois eixos avançando em paralelo, sem que um module o outro. Um país pode, ao mesmo tempo, reduzir o fogo que consome sua floresta e abrir novas rotas para o petróleo que a ameaça de outra forma — e nenhuma das duas coisas invalida ou desmente a outra diante do eleitor, porque falam a públicos diferentes, em registros diferentes, com prazos diferentes. A queda das queimadas é uma vitória mensurável, fotografável, exibível em qualquer palanque. A abertura de blocos na Foz do Amazonas é uma aposta de longo prazo, cujos custos ambientais só aparecem quando já não há mais como recuar.
Para quem acompanha risco sistêmico e coerência regulatória, o recorte relevante não é escolher qual dos dois dados é mais verdadeiro, mas notar que o Brasil consegue, simultaneamente, ser exemplo e contraexemplo — e que os mercados, os fundos e os organismos multilaterais que monitoram a credibilidade ambiental do país precisarão, cada vez mais, ler os dois números lado a lado, e não um de cada vez. A COP30 ficou para trás em novembro passado; o teste de coerência que ela deveria ter encerrado continua, um ano depois, plenamente em aberto.
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