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Escrito por Neo Mondo | 5 de setembro de 2026
Amazônia vista do alto revela a dimensão da floresta que chega ao seu dia com desmatamento recorde de baixa, mas sob a ameaça de uma seca severa em 2027 - Foto: © João Albuquerque / WWF-Brasil
POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DO NEO MONDO
A data instituída em 2007 homenageia um ato imperial de 1850. Cento e setenta e seis anos depois, a floresta que abriga cerca de 10% das espécies conhecidas do planeta convive com dois números que apontam em direções opostas
Hoje é Dia da Amazônia. A floresta chega à data com o menor desmatamento já medido pelo sistema DETER, do INPE: 2.874,38 km² entre agosto de 2025 e julho de 2026, queda de 36% sobre o ciclo anterior e valor 55,6% abaixo da média dos dez ciclos precedentes. Chega também com um El Niño confirmado em junho, em intensificação, com probabilidade elevada de atingir a classificação de muito forte e de rebaixar os rios da bacia até o primeiro trimestre de 2027. Os dois fatos são deste mesmo setembro.
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A data em si nasceu de um gesto que nada tinha a ver com floresta. Em 5 de setembro de 1850, Dom Pedro II sancionou a Lei nº 582, que desmembrou o território do Grão-Pará e elevou a antiga capitania de São José do Rio Negro à condição de Província do Amazonas, encerrando décadas de subordinação a Belém. O bispo e deputado provincial Dom Romualdo Antônio de Seixas conduziu a articulação na Assembleia Geral do Império. A província só foi instalada dois anos depois, sob João Batista de Figueiredo Tenreiro Aranha. Para o Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas, o efeito mais visível daquele período foi a abertura da navegação do rio a embarcações estrangeiras, até então barrada pelo governo imperial por razões ligadas ao ouro, à borracha e às plantas da região. A comemoração nacional veio muito depois, pela Lei 11.621, sancionada em 19 de dezembro de 2007 por Luiz Inácio Lula da Silva, com assinatura de Marina Silva. São dois artigos. O primeiro fixa a data. O segundo diz que a lei entra em vigor na publicação.
O que a efeméride passou a celebrar tem outra escala. O bioma amazônico ocupa 6,7 milhões de km², dos quais 60% em território brasileiro, distribuídos por nove países e por nove estados. A bacia hidrográfica é a maior do mundo e concentra cerca de 20% da água doce do planeta e 80% das águas superficiais do Brasil. A floresta produz parte da própria chuva: até metade da precipitação da bacia nasce da evaporação das árvores, num ciclo que se sustenta enquanto houver cobertura vegetal suficiente para alimentá-lo.
A biodiversidade é o dado que resiste a qualquer síntese. A Amazônia abriga cerca de 10% de todas as espécies conhecidas na Terra. Só de árvores, a estimativa mais usada aponta 16 mil espécies e cerca de 390 bilhões de indivíduos. Metade desses troncos pertence a apenas 227 espécies, batizadas de hiperdominantes por Hans ter Steege e uma rede de pesquisadores de 88 instituições, em trabalho publicado na Science. Essas 227 representam 1,4% da flora arbórea amazônica. No outro extremo, cerca de 6 mil espécies teriam mil indivíduos ou menos, patamar que as colocaria automaticamente em listas de ameaça, se alguém conseguisse localizá-las.
O inventário continua aberto. Um levantamento do WWF-Brasil com o Instituto Mamirauá contabilizou 381 novas espécies descritas entre 2014 e 2015, sendo 216 plantas, 93 peixes, 32 anfíbios, 19 répteis, 18 mamíferos, dois mamíferos fósseis e uma ave, o equivalente a uma nova espécie a cada dois dias. As edições anteriores do mesmo relatório reuniram 1,2 mil espécies entre 1999 e 2009 e outras 602 entre 2010 e 2013. O ritmo não parou. Em 2025, pesquisadores descreveram o inhambu-serra, ave restrita às florestas montanhosas da Serra do Divisor, no Acre, detectada primeiro pelo canto. No mesmo ano, um peixe-elétrico novo apareceu em riachos do Rio Branco, em Roraima, identificado por anatomia, DNA e padrão de descarga elétrica.
Há uma razão geográfica para tanta coisa continuar escondida. Os registros de coleta se concentram nas margens dos grandes rios, aponta o mastozoólogo Ivan Junqueira, do Instituto Mamirauá. Ao olhar os mapas desses registros, diz ele, percebe-se que "extensas áreas têm ausência total de dados amostrais".
Sobre a floresta que já foi mapeada, a notícia deste ano é boa e tem autoria. Além do resultado do DETER, o PRODES fechou 2025 com taxa estimada de 5.796 km² na Amazônia, redução de 11,08% e menor índice em onze anos. Pelos cálculos do SEEG, do Observatório do Clima, a queda registrada entre 2023 e 2026 evitou o lançamento de 2,238 bilhões de toneladas de CO2 equivalente na atmosfera. Ane Alencar, do IPAM, credita o resultado à fiscalização mais atuante, aos embargos remotos, à restrição de crédito a desmatadores e aos repasses a municípios. Entre os estados, Pará e Mato Grosso ainda concentram os maiores volumes de alerta, com 987,27 km² e 834,41 km².
O fogo segue outra curva. O Brasil registrou 20.222 focos de incêndio em agosto de 2026, 9,6% acima dos 18.451 do mesmo mês de 2025, segundo o sistema BDQueimadas. A Amazônia respondeu por 9.206 desses focos, e o Pará liderou o ranking estadual, com 3.932 registros.
A estiagem que vem já tem números. A NOAA calcula 69% de probabilidade de que o índice do El Niño supere, entre outubro e dezembro, todos os episódios anteriores de sua série iniciada em 1950. O Serviço Geológico do Brasil montou cenários de vazante a partir dos anos de maior interferência do fenômeno: se 2026 se parecer com 2015, Manaus enfrentará cota de 12,92 metros; se ficar próximo de 2024, o nível será de 16,32 metros. Dezenas de municípios do Amazonas já estão em alerta ou atenção. Um levantamento do MapBiomas divulgado na véspera do Dia da Amazônia mediu o que a última seca fez com as pessoas: 2.172 das 5.673 localidades habitadas da região, ou 38% do total, tiveram alta exposição aos efeitos do El Niño de 2024. Entre setembro e novembro daquele ano, a superfície de água na Amazônia ficou 1,9 milhão de hectares abaixo da média histórica de 1985 a 2025, o volume de chuvas caiu 27% e a temperatura máxima média subiu 2,6 ºC.
A literatura sobre limiares delimita o que está em disputa. O estudo coordenado por Bernardo Flores com outros 23 cientistas, publicado na Nature em 2024, projeta que 47% do bioma tem potencial moderado de transição para outro tipo de vegetação até 2050, e 10% apresenta potencial alto. Em maio de 2026, uma pesquisa do Instituto de Potsdam publicada na mesma revista quantificou o desmatamento como multiplicador dessa vulnerabilidade: entre 62% e 77% da área amazônica pode colapsar sob aquecimento de 1,5 ºC a 1,9 ºC combinado a desmatamento de 22% a 28% do bioma. Sem novas perdas de cobertura, o mesmo limiar só seria alcançado com aquecimento entre 3,7 ºC e 4 ºC.
Entre 17% e 18% da floresta já foi derrubada. O limiar identificado pela pesquisa começa em 22%.
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