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O açúcar que você não vê enrijece o colágeno da sua pele

Escrito por Dra. Marcela Baraldi | 31 de agosto de 2026

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Açúcar em excesso enrijece as fibras de colágeno e altera a textura da pele muito antes de a primeira ruga aparecer - Imagem gerada por IA - Ilustrativa/Neo Mondo

POR - DRA. MARCELA BARALDI*

Chamada de glicação, a reação entre moléculas de açúcar e proteínas da derme altera colágeno e elastina muito antes de a primeira ruga aparecer

A glicação é uma reação química em que moléculas de açúcar se ligam a proteínas do organismo. Entre as atingidas estão o colágeno e a elastina, responsáveis pela sustentação, pela resistência e pela elasticidade da pele. Quando a reação avança, o corpo forma os produtos finais de glicação avançada, os AGEs, associados a alterações na estrutura e na função dessas proteínas. O processo é lento e silencioso.

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Nada disso acontece de repente, e um doce ocasional não produz uma ruga. A glicação integra um conjunto de mecanismos que ocorrem naturalmente no organismo, mas sua intensidade aumenta em determinadas condições, sobretudo quando existe exposição persistente a níveis elevados de glicose, somada ao estresse oxidativo e à inflamação. Vale a mesma lógica para o açúcar em si: ele não está apenas nos alimentos de sabor doce.

Para entender por que a glicação interessa tanto à dermatologia, é preciso lembrar o que o colágeno faz. Essa proteína forma a estrutura de sustentação da derme e responde pela firmeza e pela resistência do tecido. Com o passar dos anos, a produção diminui e a degradação se acentua. A radiação ultravioleta, o tabagismo e a poluição aceleram esse desgaste.

A glicação acrescenta outro mecanismo à equação. Quando os AGEs se acumulam, as fibras de colágeno se tornam mais rígidas e menos funcionais. Os mesmos compostos participam de processos celulares ligados ao estresse oxidativo e à inflamação, o que favorece o envelhecimento dos tecidos.

Dizer que "açúcar causa rugas", portanto, simplifica demais. O que existe é um processo bioquímico capaz de comprometer, ao longo de anos, a qualidade das proteínas que sustentam a pele. O que aparece no espelho resulta da combinação desse mecanismo com vários outros fatores.

Boa parte da discussão esbarra em um problema prático: quase ninguém sabe quanto açúcar consome. Bebidas prontas, cereais matinais, biscoitos, molhos industrializados, produtos instantâneos, pães e ultraprocessados em geral somam quantidades expressivas ao longo do dia, sem que o paciente registre isso como consumo de doce.

Isso não transforma esses produtos em vilões nem exige eliminar o açúcar da alimentação. O organismo usa glicose como fonte de energia, e os carboidratos fazem parte de uma dieta equilibrada. Frutas, verduras, legumes, grãos e leguminosas fornecem carboidratos acompanhados de fibras, vitaminas, minerais e outros compostos que o corpo aproveita.

A questão está no excesso e na frequência. Quando alimentos ricos em açúcares adicionados ocupam parcela expressiva da rotina, o padrão alimentar como um todo se torna menos favorável à saúde metabólica e, por consequência, à saúde da pele. Observar o conjunto da dieta rende mais do que perseguir um único alimento. A qualidade da alimentação ao longo de anos pesa muito mais do que uma sobremesa eventual.

A glicação também é apenas uma parte da história. O envelhecimento cutâneo resulta da interação entre fatores intrínsecos e extrínsecos. O tempo altera naturalmente a produção de colágeno, elastina e ácido hialurônico. Fatores ambientais aceleram esse relógio, e a exposição acumulada à radiação ultravioleta ocupa o papel central. Tabagismo, poluição atmosférica, estresse oxidativo, alterações hormonais, sono inadequado e sedentarismo entram na mesma conta.

Por isso, nenhuma estratégia isolada interrompe o processo. Reduzir o consumo de açúcar não substitui o protetor solar diário, assim como um bom fotoprotetor não compensa uma alimentação desequilibrada. Pele, metabolismo e estilo de vida respondem juntos.

Quem quiser começar por algum lugar pode começar pelo rótulo. Identificar açúcares adicionados nos produtos industrializados já muda decisões de compra. Vale também avaliar quantos ultraprocessados fazem parte da rotina e quais deles podem ser substituídos, em parte, por alimentos in natura ou minimamente processados. A mudança não precisa ser radical. Pequenas escolhas repetidas por anos rendem mais do que restrições extremas mantidas por poucos dias.

Existe ainda uma conexão pouco explorada entre esse ajuste e a sustentabilidade. Repensar o excesso de ultraprocessados significa, na prática, repensar hábitos de consumo, desperdício, origem dos alimentos e valorização de produtos frescos e sazonais. Alimentação, saúde e meio ambiente fazem parte da mesma conversa.

No consultório, a orientação é sempre a mesma: fotoproteção diária, alimentação equilibrada, atividade física, sono adequado, controle de alterações metabólicas, abandono do tabagismo e acompanhamento dermatológico individualizado. Nenhum desses itens depende de cortar o açúcar por completo. Depende de reduzir o excesso que passa despercebido.

*Dra. Marcela Baraldi é médica dermatologista, membro da Sociedade Brasileira de Dermatologia, com atuação no corpo clínico do Hospital Israelita Albert Einstein e em consultório particular. Atualmente, cursa MBA em Estratégia e Gestão de Negócios pela Fundação Getulio Vargas. É colunista do portal Neo Mondo. CRM: 151733 | RQE: 66127.

foto da dra marcela baraldi, autora do artigo O açúcar que você não vê enrijece o colágeno da sua pele
Dra. Marcela Baraldi - Foto: Arquivo pessoal

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