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Escrito por Neo Mondo | 27 de maio de 2020
Desmatamento Amazônia - Foto: Divulgação
Salles: "O Brasil não é o vilão das emissões de efeito estufa no mundo". Checagem do WWF-Brasil: A recessão global gerada pela Covid-19 deve causar uma redução nas emissões de gases de efeito estufa da ordem de 6% em 2020. Não no Brasil. Segundo análise do Observatório do Clima, as emissões do Brasil podem subir entre 10% e 20% neste ano de pandemia em relação a 2018, último ano para o qual há dados disponíveis. Considerando a Amazônia Legal, as emissões ficaram em 499 milhões de tCO2e (2018) e 646 milhões de tCO2e (2019). Em 2018, o Brasil ficou em 14o lugar no ranking dos países que mais emitem carbono, segundo o Global Carbon Atlas. Abaixo um cálculo da emissão brasileira e a importância do desmatamento na composição do número final. Fonte: WWF-Brasil
| emissões (milhões de tCO2e) | 2018 | 2019 | 2020 (Janeiro a Abril) |
| energia | 408 | 420 | 132 |
| agropecuária | 492 | 492 | 164 |
| indústria | 101 | 101 | 32 |
| resíduos | 92 | 92 | 31 |
| desmatamento e mudança solo | 846 | 993 | 441 |
| Total | 1939 | 2098 | 800 |
| variação anualizada | 8% | 14% |
Açái - Foto: Divulgação
Salles: a GLO reduziu o desmatamento na AMZ em 2019. Checagem do WWF-Brasil: MENTIRA. Nos primeiros oito meses de 2019, houve uma elevação de 92% da taxa de desmatamento da Amazônia em relação ao mesmo período de 2018, segundo o Deter.A Garantia da Lei e da Ordem (GLO), estabelecida no final de agosto, levou militares para a Amazônia e proibiu fogo na região, reduzindo os focos de calor e incêndios. Ainda assim, o desmatamento continuou crescendo nos meses seguintes. 2019 fechou seu número final com 9.165,6 quilômetros quadrados de floresta desmatados, um aumento de 85,3% em relação a 2018, segundo o Inpe. Além disso, segundo o MapBiomas, 99% do desmatamento ocorrido no Brasil em 2019 foi ilegal. Salles: "84% da floresta está preservada" e "depois de 500 anos de ocupação, temos só 16% do bioma alterado". Checagem do WWF-Brasil: MENTIRA. O bioma Amazônia perdeu 19% de sua área original – portanto, 81% é preservado, e não 84%. A diferença entre a alegação que o ministro apresenta e os dados oficiais é igual a quase o Estado do Amapá. Segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), o bioma Amazônia perdeu, até 2018, uma área de 788.352 km2 dos seus 4,2 milhões de km². Salles: “Nos últimos 16 meses, foi feito um esforço muito grande para atacar as causas do desmatamento” Chegagem do WWF-Brasil MENTIRA: nos últimos 16 meses, o que se vê é uma série de medidas, tomadas pelo Governo Federal, que visam fragilizar os órgãos de controle ambiental - e assim estimulando os desmatamentos. Algumas dessas medidas: extinção de conselhos e comitês de políticas públicas; diminuição na expedição de multas por crimes ambientais; exoneração de servidores ligados ao operações e fiscalização; subordinação de IBAMA e ICMBio à ala militar do governo; falas presidenciais de apoio a criminosos ambientais como madeireiros e garimpeiros; desautorização de orgãos de cunho científico como o Inpe e esvaziamento das funções do Ministério do Meio Ambiente. Salles: “Os governos anteriores não fizeram nada em relação ao tema do saneamento básico” Chegagem do WWF-Brasil VAGO. Não é possível afirmar isso. Embora os resultados sejam modestos, governos anteriores tomaram uma série de ações com o objetivo de melhorar o saneamento básico no Brasil. Importante marco regulatório da área, a Lei 11.445 - ou Lei do Saneamento Básico - foi promulgada em 2007. A lei estabelece as diretrizes nacionais para o setor - além de trazer regras e introduzir um conjunto de novos instrumentos de gestão, como a regulação e o planejamento com vistas a melhorar a eficiência das empresas operadoras. A Lei do Saneamento Básico determinou a elaboração do Plano Nacional de Saneamento Básico (Plansab), que foi instituído por um decreto da presidente Dilma Rousseff, em 2013. Os governos anteriores também aumentaram gradualmente os investimentos em saneamento básico - embora em escala muito aquém da necessária para garantir o acesso universal ao abastecimento de água e tratamento esgoto. De acordo com estudo feito pelo Centro de Estudos em Regulação e Infraestrutura da FGV, de 1998 a 2007, a média anual de investimento na área foi de cerca de R$ 4 bilhões por ano. Em 2007, com a promulgação da Lei do Saneamento Básico e o lançamento do PAC I, os investimentos saltaram para valores próximos dos R$ 9 bilhões por ano. Por fim, em 2011, foi lançado o PAC II, promovendo novo aumento nos investimentos, dessa vez bem menos expressivo. De acordo com a ONG Trata Brasil, o índice de pessoas atendidas com água tratada aumentou de 80,9% em 2007 para 83,3% em 2015. Na coleta de esgotos de 42,0% em 2007 para 50,3%.
Foto - DivulgaçãoSalles: várias empresas que falam na Amazônia não estão lá. Não têm as suas fábricas na Amazônia. Uma está no Paraná, a outra está aqui na região metropolitana de São Paulo. Por que essas empresas não estão na Amazônia? Gerando emprego na Amazônia? Permitindo que os moradores da Amazônia tenham efetivamente oportunidade de trabalhar em atividades que não são de devastação ou muito atrativas na ausência delas? Chegagem do WWF-Brasil MENTIRA: A Natura e a Michelin são exemplos de duas grandes empresas inseridas na área de bioeconomia na Amazônia. Apenas as duas geram milhares de empregos na região, graças ao extrativismo de frutos e de plantas nativas e da extração da borracha. O açaí e a castanha do Pará também são dois frutos que geram milhares de empregos nas comunidades locais e são exportados para diversos países em todo o mundo. O Açaí talvez seja o produto da Amazônia mais conhecido fora do Brasil. Em seu site, a Natura afirma que em 20 anos, o modelo de negócios sustentáveis na Amazônia já gerou R$1,8 bilhão em volume de negócios e impactou positivamente a vida de 5.500 famílias ( 22 mil pessoas). O Programa Prioritário de Bioeconomia (PPBioeconomia) prevê o desenvolvimento de soluções para exploração econômica sustentável da biodiversidade a partir da ciência, tecnologia e inovação para o desenvolvimento sustentável da Amazônia, e abrange todos os 05 estados da Amazônia Ocidental – Acre, Amapá, Amazonas, Rondônia e Roraima. O PPBioeconomia contabiliza 51 projetos recebidos e validados, que estão sendo apresentados para empresas. Dentre as propostas, destacam-se uma já em desenvolvimento, que envolve um novo cosmético, e duas em fechamento de negociação: uma espécie de fruta amazônica melhorada com potencial comercial e nova tecnologia de suporte aos sistemas de produção regionais ambientalmente saudáveis. Esses três projetos já têm R$ 1,5 milhão destinado. Em março de 2020, o Sebrae lançou o programa “Inova Amazônia” para estimular o desenvolvimento sustentável no bioma e fomentar o crescimento econômico aliado à conservação ambiental. Será lançado um edital para selecionar empresas, startups e pessoas físicas com ideias de negócios que possam contribuir para o desenvolvimento sustentável na região. Salles: "Não há fábricas instaladas na Amazônia" Checagem do WWF-Brasil: Isso é mentira. A Michelin é um exemplo. Sua fábrica está instalada na estrada AM-010, polo industrial de Manaus. Em 2019, sua produção foi de 400 toneladas de borracha. Em 2019, o grupo empregava 900 funcionários de forma direta e mais de 2.500 indiretamente. Em janeiro de 2020, a multinacional anunciou que vai aumentar em 100% a aquisição de borracha natural nos próximos dois anos. Por sua vez, a Natura possui uma fábrica e um laboratório de pesquisa e desenvolvimento no estado do Pará com “capacidade de produção de 280 milhões de barras de sabonetes e 480 toneladas de essências e óleos fixos. Além desses produtos, o “Ecoparque” também absorverá a produção de “noodles”, massa base para fabricação de sabonetes, fazendo com que o mercado brasileiro e internacional seja abastecido com produtos 100% fabricados na Amazônia. A Natura é o maior empregador de Benevides, a cidade onde está estabelecida. Além disso desenvolve ações de desenvolvimento de produtos da sociobiodiversidade em comunidades de toda a Amazônia. Nós também checamos: O que significa "passar a boiada"? (Expressão dita por Salles na reunião ministerial) A fala do ministro expressa que ele considera a calamidade provocada pela COVID-19 uma oportunidade de destruição do arcabouço legal de proteção ao meio ambiente no Brasil. A “boiada” a que se refere são atos infralegais, que são medidas que não modificam a legislação, mas podem modificar o entendimento dessa legislação. A fala do Ministro Ricardo Salles na reunião expõe sua consciência de que o que está propondo é ilegal, e que portanto se ressente da ameaça que a Justiça pode trazer às suas intenções. Expõe que age contra os interesses nacionais, na surdina, alheio à uma ampla discussão que abarque os anseios da sociedade.
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