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790 espécies sob risco: o Brasil publica seu retrato mais detalhado da fauna ameaçada

Escrito por Neo Mondo | 24 de junho de 2026

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790 espécies ameaçadas. A arara-azul-grande (Anodorhynchus hyacinthinus) é uma delas — e uma das poucas com trajetória de recuperação documentada. Pantanal, Brasil - Foto: Divulgação/ICF

POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DO NEO MONDO

O roedor de Vespucci (Noronhomys vespuccii) não existe mais. Endêmico do arquipélago de Fernando de Noronha, o pequeno mamífero integra a lista de nove espécies que o Brasil reconhece oficialmente como extintas — seis aves, dois anfíbios e esse único representante da classe dos mamíferos, e com ele desaparece qualquer possibilidade de registro futuro na natureza. Sua ausência permanente, registrada em portaria publicada no Diário Oficial da União em 18 de junho de 2026, é o dado mais silencioso de um documento denso: a nova Lista Nacional Oficial de Espécies da Fauna Ameaçadas de Extinção, que o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima lançou sob o número 1.704.

>> Para consultar a lista completa acesse aqui a publicação do Diário Oficial da União.

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O documento contabiliza 790 espécies ou subespécies sob algum grau de risco. É também o inventário mais abrangente que o Brasil já produziu sobre a situação de sua fauna terrestre — resultado de um ciclo de avaliações que mobilizou mais de 200 especialistas ao longo de 15 oficinas técnicas, conduzidas pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) em parceria com universidades, museus e organizações da sociedade civil. A versão anterior, de 2022, é formalmente substituída.

Os números têm textura. Enquanto a primeira lista nacional, publicada em 2003, foi elaborada com base na análise de cerca de 1.800 espécies, atualmente mais de 15 mil espécies da fauna brasileira são monitoradas e avaliadas pelo ICMBio. A escala da comparação revela menos um agravamento súbito da crise ambiental do que uma maturação da capacidade analítica do Estado: o Brasil passou duas décadas ampliando sua infraestrutura científica de avaliação, e o que a lista reflete agora é também esse acúmulo.

A distribuição taxonômica da lista expõe onde a pressão é maior. Os invertebrados terrestres lideram com 264 espécies ou subespécies ameaçadas. As aves vêm em segundo lugar, com 242 — a maioria das espécies ameaçadas concentra-se em biomas extremamente alterados, como a Mata Atlântica, o Cerrado e os Pampas; em biomas com cobertura vegetal nativa menos fragmentada, como a Amazônia, o risco de extinção ocorre de forma pontual em regiões sob pressão do agronegócio ou do garimpo, segundo avaliação do herpetólogo Rafael De Fraga. Répteis somam 123 espécies, mamíferos chegam a 102 e anfíbios a 59.

A nova portaria incluiu 180 espécies ou subespécies e retirou 150. Esses movimentos em sentidos opostos não se equivalem em significado. A saída de espécies da lista pode refletir avanço no conhecimento científico, novos registros de ocorrência, revisões taxonômicas — ou efetiva melhora no estado das populações. A inclusão, por sua vez, pode derivar tanto da identificação de novas pressões quanto de lacunas de conhecimento preenchidas. Distinguir uma coisa da outra exige leitura caso a caso.

A arara-azul-grande (Anodorhynchus hyacinthinus) é o exemplo que concentra a tensão mais legível. Reclassificada como Vulnerável (VU) — uma categoria menos severa do que a que ocupava —, a mudança reflete monitoramento que indicou melhora em algumas populações, principalmente no Pantanal, mas a espécie ainda enfrenta perda de habitat, tráfico de animais e queimadas. Desde 1999, o número de indivíduos subiu de 1.500 para 5.000 no Pantanal, segundo dados do Instituto Arara Azul, organização que acompanha a espécie há mais de três décadas. A reclassificação não sinaliza segurança: sinaliza que a conservação dirigida produz resultados mensuráveis quando mantida por tempo suficiente.

Entre os incluídos estão o bugio-preto (Alouatta caraya) e o tamanduaí (Cyclopes rufus), espécies que reaparecem no mapa oficial do risco após avaliações atualizadas. O bugio-preto ocorre em fragmentos do Cerrado, do Pantanal e em transições com a Mata Atlântica, biomas submetidos a ritmos acelerados de conversão de uso do solo. O tamanduaí, menor representante dos tamanduás brasileiros, tem distribuição ampla mas populações pouco estudadas — sua inclusão na lista reconhece as lacunas ainda abertas na ciência da conservação nacional.

A portaria distingue cinco categorias de risco, seguindo os critérios da União Internacional para Conservação da Natureza (UICN): Vulnerável (VU), Em Perigo (EN), Criticamente em Perigo (CR), Possivelmente Extinta (CR-PE) e Extinta na Natureza (EW). As categorias mais graves — CR e CR-PE — são aquelas em que a intervenção tem prazo mais curto e margem mais estreita. Não há número público discriminado por categoria na portaria recém-publicada, mas o conjunto das classificações orienta diretamente a priorização de Planos de Ação Nacional (PAN) e de Planos de Redução de Impactos à Biodiversidade (PRIM), instrumentos que vinculam a lista à política ambiental concreta.

A partir de agora, a lista passará a ser atualizada anualmente, conforme previsto na Portaria MMA 43/2014, com base nas espécies que tiverem concluído o ciclo completo de avaliação no período anterior. A mudança é estrutural. O modelo anterior acumulava avaliações e as publicava em ciclos longos, criando defasagem entre o conhecimento científico produzido e sua tradução em política pública. Com atualizações anuais, o intervalo entre a avaliação de risco de uma espécie e sua incorporação aos instrumentos de conservação tende a se comprimir.

As informações são periodicamente disponibilizadas no Sistema de Avaliação do Risco de Extinção da Biodiversidade (SALVE), do ICMBio, e subsidiam a atuação integrada de órgãos governamentais, comunidade científica, setor produtivo e sociedade civil. A plataforma SALVE é o repositório técnico que alimenta a lista e permite consulta pública das avaliações. É também onde o ciclo científico do processo se torna legível: avaliações concluídas e validadas passam pela Comissão Nacional de Biodiversidade (CONABIO) antes de se tornarem política oficial.

O Brasil abriga entre 15% e 20% da biodiversidade conhecida do planeta. Esse patrimônio convive com pressões que não aparecem nas listas — a fragmentação de habitats, a expansão de fronteiras agrícolas, os episódios recorrentes de incêndio no Pantanal e no Cerrado, a alteração do regime hídrico em bacias críticas. A lista não registra essas pressões diretamente: registra suas consequências sobre populações específicas. Cada espécie incluída é um indicador de um processo maior, que a lista nomeia mas não resolve.

O roedor de Vespucci já não pode ser salvo. A pergunta que o documento de 2026 deixa aberta é quantas das 790 espécies que ainda figuram como ameaçadas chegarão à próxima atualização com status melhorado — e o que será necessário, em recursos, políticas e tempo, para que essa proporção seja maior do que a história recente sugere.

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