Dia Internacional da Biodiversidade 2026
Escrito por Neo Mondo | 22 de maio de 2026
Biotecnologia azul em movimento. Cada espécie marinha carrega soluções que a evolução aperfeiçoou ao longo de milhões de anos, reforçando que um oceano saudável é a base da inovação, da economia e da própria vida no planeta - Foto: Ilustrativa/Magnific
Por - Letícia Veras Costa Lotufo* e Eduarda Antunes Moreira*
Para que seja possível usufruir de suas riquezas, é essencial manter o ambiente marinho saudável
A biodiversidade marinha é resultado de uma longa história evolutiva, por vezes em ambientes sujeitos a condições extremas, e possui um grande potencial de se traduzir em inovações úteis à humanidade por meio da biotecnologia. Nesse contexto, o uso da ciência para transformar bioprodutos e bioprocessos do ambiente marinho em conhecimento, bens e serviços, apresenta-se como um importante aliado do desenvolvimento sustentável.
Hoje, a economia azul, campo que trata do contexto econômico dos produtos e serviços oriundos do fundo do mar, vai muito além de artigos comerciais, como alimentos, rações, suplementos alimentares, produtos farmacêuticos, cosméticos, embalagens e roupas. O oceano fornece também – e principalmente - serviços ecossistêmicos essenciais, como a estabilização do clima, o armazenamento de carbono e a produção de oxigênio, que proporcionam inúmeros benefícios para a restauração e a conservação dos diferentes biomas.

Há que se ressaltar, ainda, que 97% de toda a água do planeta está no oceano. Sendo assim, para pensar a governança da água e para que toda a sua riqueza possa ser acessada, estudada e explorada, torna-se essencial debater, de forma séria e aprofundada, a preservação e o uso consciente desse ecossistema.
Da mesma forma que a floresta vale mais – tanto do ponto de vista científico, quanto do econômico – quando as árvores estão de pé, o expressivo potencial inovador do oceano só poderá ser devidamente aproveitado se o mar estiver saudável. Infelizmente, esse não é o cenário atual, nem a tendência para o futuro próximo.
Cientistas de diferentes áreas buscam maneiras de prever, reverter ou mitigar os danos causados pelo aquecimento das águas, pela poluição marinha e pela pesca ilegal, por exemplo. Consequências graves, como o branqueamento de corais, o desequilíbrio dos microrganismos marinhos e alterações que dificultam a sobrevivência e a reprodução das espécies, têm sido estudadas minuciosamente através de técnicas avançadas de análises químicas e genéticas. Ainda assim, a quantidade e a intensidade das alterações limitam a capacidade de ação.
Muito além dos laboratórios, a atuação local, em parceria com as comunidades tradicionais, se mostra cada vez mais importante. A troca de conhecimento com as pessoas que vivem nas regiões costeiras e que têm sua vida, seu sustento e seu lazer baseados no mar é, também, parte essencial do processo de recuperação e conservação desses ecossistemas. Essas comunidades são guardiãs do patrimônio natural, e a escuta atenta pode levar a diagnósticos e soluções baseados em suas experiências.
Diante dos serviços prestados, é justo que as riquezas produzidas a partir dos bioprodutos e bioprocessos oriundos do ambiente marinhos sejam compartilhadas com essas comunidades. Essa ação é estabelecida e regulamentada pelo Ministério do Meio Ambiente, por meio do Programa Nacional para a Repartição de Benefícios (PNRB), que tem como objetivo “promover a valorização do patrimônio genético e dos conhecimentos tradicionais associados e o seu uso de forma sustentável”.

Torna-se evidente que todos ganham com a conservação do oceano: o meio ambiente, a ciência, a economia, as comunidades locais e a população em geral - mas nem sempre essa informação chega a todas as pessoas. É preciso fortalecer a cultura oceânica, levar esse conhecimento a cada vez mais espaços e conscientizar crianças e adultos de que um ambiente marinho saudável é essencial para a sobrevivência da humanidade.
Este conteúdo integra o especial A Teia da Vida: Biodiversidade, Risco e o Futuro do Planeta, produzido pelo Neo Mondo para aprofundar o debate sobre a biodiversidade como um dos principais desafios ambientais, econômicos e civilizatórios do século XXI. Um especial Neo Mondo em parceria com a Seguros Unimed.
*Leticia Veras Costa Lotufo é Professora Titular do Departamento de Farmacologia dos Instituto de Ciências Biomédicas da USP e Membro Titular da Academia Brasileira de Ciências (ABC). Dedica-se à busca por novos fármacos anticâncer a partir da biodiversidade brasileira, em especial do ambiente marinho.
*Eduarda Antunes Moreira é Farmacêutica, Doutora em Ciências (USP), Especialista em Jornalismo Científico pelo Labjor (Unicamp) e Bolsista Mídia Ciência – FAPESP no Laboratório de Farmacologia Marinha (ICB-USP).

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