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O desmatamento cai ao menor nível da série, e as florestas mais preservadas do Brasil pararam de estocar carbono em 2013

Escrito por Neo Mondo | 21 de setembro de 2026

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Desmatamento em queda não significa floresta intacta, e o dossel fechado esconde árvores que já morrem mais do que crescem - Foto: Ilustrativa/Freepik

POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DO NEO MONDO

O Brasil chega ao Dia da Árvore desta segunda-feira, 21 de setembro, com dois números que não conversam entre si. No ciclo de agosto de 2025 a julho de 2026, o sistema Deter, do Inpe, registrou 2.874 quilômetros quadrados sob alerta de desmatamento na Amazônia, queda de 36% sobre o período anterior e o menor valor de toda a série. No mesmo mês em que o Inpe divulgou esse resultado, um grupo de pesquisadores brasileiros publicou na Nature Communications a conclusão de que as florestas mais bem preservadas do Sudeste e do Sul do país deixaram de absorver carbono por volta de 2013. Elas não foram cortadas. Elas passaram a perder, em árvores mortas, mais do que ganham em árvores que crescem.

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O artigo saiu em 17 de agosto, assinado por Vinícius Andrade Maia, Rubens Manoel dos Santos e mais 26 pesquisadores, a maioria da Universidade Federal de Lavras. A base tem 49 sítios florestais medidos árvore por árvore entre 1987 e 2020, 50,4 hectares amostrados, 942 espécies e até 31 anos de acompanhamento contínuo. O estoque de carbono acima do solo subiu até cerca de 2013 e começou a cair. O sumidouro líquido chegou a zero no mesmo ponto da curva. A queda vem sobretudo do aumento das perdas, ou seja, da mortalidade, e foi mais acentuada nos sítios quentes e secos do gradiente.

Junto com o carbono, caiu a diversidade. Diversidade taxonômica, funcional e filogenética recuaram em todo o gradiente, com estreitamento da faixa de densidade da madeira e de área foliar específica. Os autores chamam o fenômeno de homogeneização funcional e escrevem que, mesmo sem desmatamento, a perda de espécies e linhagens deve seguir a taxas altas por efeito climático.

A leitura global aponta na mesma direção. Em 30 de julho, também na Nature Communications, a equipe de Zhen Qian e Niklas Boers, do instituto de pesquisa climática de Potsdam (PIK), na Alemanha, reconstruiu o carbono acima do solo das florestas do planeta de 1988 a 2021 com aprendizado profundo aplicado a satélites. As florestas tropicais úmidas, que eram sumidouro de 90,2 teragramas de carbono por ano entre 1988 e 2000, viraram fonte de 190,6 teragramas por ano entre 2001 e 2010. Na Amazônia brasileira, o grupo separou as perdas ocorridas em áreas desmatadas das perdas ocorridas em floresta intacta. A contribuição das áreas desmatadas para a variação anual das perdas de carbono caiu de 60% nos anos 1990 para 13% na década de 2010. A das florestas intactas subiu de 33% para 76%. Os autores concluem que o Acordo de Paris e o REDD+ precisam ir além de conter o corte raso.

Um terceiro trabalho de 2026 mede o quanto de margem resta. Nico Wunderling, Boris Sakschewski, Johan Rockström, Bernardo Flores, Marina Hirota e Arie Staal publicaram na Nature que a combinação de 22% a 28% de desmatamento com aquecimento de 1,5 °C a 1,9 °C pode empurrar mais de dois terços da Amazônia para degradação ou savanização. O limiar pode ser atingido já na década de 2040. Cerca de 17% da Pan-Amazônia já foram desmatados. Em 2016, Carlos Nobre havia estimado o limiar em 20% a 25% de desmatamento com 2 °C de aquecimento. Sobre o novo cálculo, que mostra o ponto de inflexão mais perto do que se supunha, Nobre disse à Mongabay: "Esse é um risco enorme para a Amazônia". O estudo também traz o inverso: sem avanço adicional do desmatamento, a transição em larga escala só se tornaria provável perto de 3,7 °C a 4 °C.

O teste começa agora. Em 3 de setembro, a Organização Meteorológica Mundial classificou o El Niño de 2026 como firmemente estabelecido e a caminho de intensidade muito forte até o fim do ano, com probabilidade próxima de 100% de persistir até fevereiro de 2027. Entre o fim de julho e meados de agosto, as águas do Pacífico equatorial ficaram de 2,2 °C a 2,6 °C acima da média. Nos três El Niños fortes recentes, o maior déficit de chuva do Brasil apareceu nas áreas de agropecuária da Amazônia, 178 milímetros abaixo da referência do trimestre de setembro a novembro, segundo o cruzamento feito pelo MapBiomas Atmosfera na Coleção 11.

Enquanto isso, o eixo do desmatamento brasileiro se deslocou. O Relatório Anual do Desmatamento de 2025, divulgado em 27 de maio pelo MapBiomas e pelo Ipam, registrou 540.614 hectares suprimidos no Cerrado, queda de 17% sobre 2024 e, ainda assim, 55% de tudo o que o Brasil perdeu no ano. É o terceiro ano consecutivo do bioma na liderança. O Matopiba respondeu por 40% do desmatamento nacional e por 70% do cerradense. Guadalupe, no sul do Piauí, assumiu pela primeira vez o topo entre os municípios mais desmatados do bioma, com alta de 228% na área desmatada. Em 2026, a distância aumentou: de janeiro a agosto, o Deter acumulou 3.810 quilômetros quadrados sob alerta no Cerrado contra 2.041 na Amazônia. No Boletim Infoqueima de junho, o Cerrado concentrou 57,8% dos focos de fogo ativo do país, e a Amazônia, 26,2%.

A Coleção 11 do MapBiomas, lançada em 12 de agosto, dá a dimensão acumulada. A vegetação nativa recuou de 79% para 65% do território nacional entre 1985 e 2025, e a agropecuária subiu de 18% para 32%. A Formação Savânica, a fisionomia mais característica do Cerrado, perdeu 46 milhões de hectares, 30% do que existia em 1985, a maior queda proporcional entre as coberturas nativas. Vinte e cinco estados e o Distrito Federal reduziram a participação da vegetação nativa no período. Em 744 municípios, ela deixou de ser a cobertura principal.

No mundo, a curva de 2025 desceu sem mudar de patamar. Dados do laboratório GLAD da Universidade de Maryland, divulgados em 29 de abril pelo World Resources Institute na plataforma Global Forest Watch, mostram 4,3 milhões de hectares de floresta primária tropical perdidos em 2025, queda de 36% sobre o recorde de 2024. A perda associada ao fogo caiu pela metade. A perda não relacionada ao fogo recuou 23% e chegou ao menor nível em uma década. Mesmo assim, o total de 2025 ficou 46% acima do registrado dez anos antes, e o Brasil seguiu como o país que mais perdeu floresta primária em área absoluta. Uma análise do WRI com o Google DeepMind indica que 60% da perda em floresta primária tropical corresponde a mudança permanente de uso da terra, sem regeneração natural esperada.

O dinheiro que deveria remunerar a floresta em pé ainda não fechou a conta. O Fundo Florestas Tropicais para Sempre, lançado pelo Brasil na COP30 em Belém, em novembro de 2025, somava US$ 7,26 bilhões em compromissos anunciados até 3 de setembro, quando o Reino Unido aportou 400 milhões de libras. Participam Noruega, com US$ 3 bilhões, Alemanha, com US$ 1,15 bilhão, Brasil e Indonésia, com US$ 1 bilhão cada, França, com US$ 577 milhões, além de Países Baixos, Portugal e Luxemburgo. A meta é alcançar US$ 10 bilhões até a COP31, marcada para Antalya, na Turquia, de 9 a 20 de novembro. O prazo não é formalidade: a contribuição norueguesa, a maior individual, está condicionada a esse patamar e a um teto de 20% de participação do próprio país. O mecanismo prevê pagar US$ 4 por hectare conservado, com desconto em caso de desmatamento ou degradação por fogo, e destinar ao menos 20% dos rendimentos de cada país a povos indígenas e comunidades locais.

Do lado da demanda, a Europa adiou de novo. O Regulamento (UE) 2025/2650, publicado em dezembro passado, empurrou a lei antidesmatamento do bloco para 30 de dezembro de 2026 no caso de grandes operadores e comerciantes, e para 30 de junho de 2027 no de micro e pequenas empresas. É mais um adiamento de uma norma aprovada em 2023, que condiciona a entrada de soja, carne bovina, café, cacau, madeira, borracha e óleo de palma à comprovação, por geolocalização, de origem livre de desmatamento.

A restauração avança em outra escala. O Brasil assumiu no Acordo de Paris a meta de recuperar 12 milhões de hectares de vegetação nativa até 2030, hoje ancorada no Plano Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa. O Arco da Restauração, parceria do BNDES com o Ministério do Meio Ambiente, projeta 6 milhões de hectares até 2030 e 24 milhões até 2050. O braço operacional dessa política, o Restaura Amazônia, chegou em março de 2026 ao quarto ciclo de editais, com 58 projetos selecionados em 17 unidades de conservação, 77 assentamentos e 35 terras indígenas. A área somada a recuperar é de quase 15 mil hectares. O quarto ciclo isolado destinou R$ 69,5 milhões a 2.877 hectares em seis estados.

Os 49 sítios medidos pela equipe de Lavras foram escolhidos por um critério específico. São as florestas mais conservadas e menos perturbadas da região, sem registro de fogo, corte ou deslizamento durante e antes do monitoramento, muitas dentro de unidades de conservação, acompanhadas por décadas. No artigo, os autores registram que as tendências de queda do sumidouro e da diversidade observadas ali devem ser piores nas florestas menos conservadas do Sudeste e do Sul, que são a maioria.

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