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No dia que celebra o guardião das florestas, o Brasil reduz o desmatamento em cinco de seus seis biomas

Escrito por Neo Mondo | 17 de julho de 2026

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Dia de proteger as florestas é, acima de tudo, escolher que futuro queremos preservar - Imagem gerada por IA - Foto: Divulgação

POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DO NEO MONDO

Ninguém consegue seguir os passos do Curupira. As pegadas viradas para trás enganam quem tenta rastreá-lo pela mata — e essa é, talvez, a metáfora mais precisa que a cultura popular brasileira já produziu sobre proteção ambiental: o guardião que se defende invertendo a lógica de quem o persegue. No dia 17 de julho, quando o calendário nacional celebra o Dia de Proteção às Florestas e, na tradição oral, também o Dia do Curupira, essa imagem deixou de ser apenas folclore. Ela virou espelho de um comportamento que os números, pela primeira vez em anos, confirmam de forma disseminada pelo território.

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O Brasil reconhece seis biomas terrestres — Amazônia, Cerrado, Mata Atlântica, Caatinga, Pantanal e Pampa — que juntos abrigam cerca de 500 milhões de hectares de floresta, 59% do território nacional, a segunda maior extensão florestal do planeta, atrás apenas da Rússia. Dentro deles vive perto de 20% de toda a biodiversidade da Terra. É um patrimônio que regula chuva, estabiliza solo, sequestra carbono e sustenta cadeias produtivas inteiras — da agricultura à indústria farmacêutica. E é também, pela primeira vez em anos, um patrimônio que recua em menor velocidade quase por completo.

Os dados mais recentes do sistema Prodes, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, mostram o quadro bioma a bioma. Na Amazônia, entre agosto de 2024 e julho de 2025, a supressão de vegetação somou 5.796 quilômetros quadrados — queda de 11,08% ante o período anterior, a menor taxa em onze anos e o quarto ano seguido de redução, depois de oito anos consecutivos de alta. No Cerrado, foram 7.235 quilômetros quadrados, recuo de 11,49%. No Pantanal, o dado consolidado de 2025 aponta retração de 65,4% em relação ao ano anterior, revertendo o aumento de 16,5% registrado em 2024. A Mata Atlântica reduziu sua supressão em 37,9% em 2024, e o Pampa, em 20,08%, com 523,14 quilômetros quadrados suprimidos — o menor valor de sua série histórica, iniciada em 2001.

A exceção tem nome e merece registro sem meias palavras: a Caatinga. Em 2024, o bioma somou 3.484,37 quilômetros quadrados de vegetação nativa suprimida, 9,93% a mais que no ano anterior — o único, ao lado do Pantanal naquele ciclo, a caminhar na direção contrária. É o lembrete de que recuo generalizado não significa recuo uniforme, e de que um bioma historicamente tratado como periférico nas políticas de conservação paga o preço dessa desatenção.

A escala global reforça a leitura. Segundo o Global Forest Watch, do World Resources Institute, os trópicos perderam 4,3 milhões de hectares de floresta primária em 2025 — área do tamanho da Dinamarca, mas 36% menor que a perda recorde de 2024. Boa parte dessa melhora veio do Brasil, que reduziu em 42% sua perda de floresta primária. Ainda assim, o país seguiu sendo o que mais desmatou em termos absolutos, simplesmente por deter mais floresta para perder. E o que fez 2024 ser recorde tem nome: incêndio. Naquele ano, o fogo respondeu por quase metade da perda florestal tropical global, superando pela primeira vez a agropecuária como causa principal — sinal de que a mudança do clima já opera como agente autônomo de destruição, não apenas como pano de fundo.

É aqui que a imagem do Curupira deixa de ser apenas herança simbólica e vira instrumento de leitura de risco. Culturas que convivem há séculos com um bioma desenvolvem sistemas de alerta que a ciência ocidental só recentemente aprendeu a nomear. Chamar a mata de guardada por um espírito não era ingenuidade: era uma forma de dizer que a floresta tem limites, e que ultrapassá-los custa caro — em água, em clima, em alimento. A ex-ministra do Meio Ambiente do Brasil, Marina Silva, já apontou que parte relevante dos focos de queimada registrados em áreas de floresta primária não decorre de causas naturais, mas de esquemas organizados de ocupação de terra pública seguidos de pedidos de regularização fundiária. O desmatamento, na sua parcela mais destrutiva, não é acidente. É estratégia.

Diante disso, a queda registrada em cinco dos seis biomas não permite conforto, mas também não deveria ser descartada como estatística menor. Ela prova algo que discursos ambientais muitas vezes têm dificuldade de sustentar diante de ceticismo institucional: que política pública consistente, fiscalização contínua e financiamento direcionado — o programa União com Municípios já superou R$ 800 milhões investidos, com adesão de 70 dos 81 municípios prioritários da Amazônia — produzem resultado mensurável em tempo relativamente curto. A floresta não responde a promessas. Responde a comportamento.

Resta a pergunta que toda data simbólica deveria provocar, e que o folclore brasileiro já respondeu à sua maneira há gerações: quem realmente segue os passos de quem protege a mata, e quem apenas acredita estar seguindo, enquanto pisa na direção contrária? O Curupira nunca prometeu proteção incondicional. Prometeu apenas que quem tentasse destruir a floresta sem cuidado se perderia nela. Os números de 2024 e 2025 sugerem que, pela primeira vez em mais de uma década, a maior parte do país parou de se perder — e que a Caatinga é, agora, o bioma que mais precisa deixar de andar sozinho.

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