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A solução que destrói o que protege: planícies de maré viram vítimas das próprias políticas climáticas

Escrito por Neo Mondo | 23 de junho de 2026

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Solução que promete capturar carbono, mas pode estar eliminando um dos maiores cofres naturais de carbono do planeta: as planícies de maré - Foto: Divulgação

POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DO NEO MONDO

Um estudo publicado em 2026 na revista Nature Sustainability por pesquisadores liderados por Mu Tian, Zeng Yiwen e Lu Zhi documentou um paradoxo que inverte o senso comum sobre políticas climáticas: ao longo da costa oriental da China, programas governamentais de aflorestação de manguezeiros e expansão de energia solar — ambos financiados como soluções para a crise climática — estão destruindo planícies de maré, um dos ecossistemas mais eficazes do planeta na remoção e no armazenamento de carbono. O problema não é a intenção dos programas. É a ausência de mapeamento ecológico adequado do substrato onde essas intervenções são implementadas. O resultado, documentado com imagens de satélite e dados de campo, é que duas políticas verdes simultâneas produzem, juntas, o efeito oposto ao que prometem.

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As planícies de maré são ecossistemas que cobrem menos de 0,5% da superfície oceânica global, mas sequestram carbono em taxas que rivalizam com as das florestas tropicais. Seus sedimentos acumulam matéria orgânica ao longo de séculos, em condições de anaerobiose que impedem a decomposição e trancam o carbono no fundo. Uma síntese de dados de 184 sítios distribuídos por 23 países, publicada em 2026 no periódico Global Change Biology, estimou que as planícies não vegetadas sequestram 8,6 teragramas de carbono por ano e armazenam 1,2 petagramas no metro superior de sedimento, aumentando as estimativas globais de carbono azul em até 17%. Esses números foram calculados antes da escala atual dos programas de aflorestação e energia renovável que hoje avançam sobre esses mesmos territórios.

O mecanismo de destruição é preciso. Quando manguezeiros são plantados em planícies de maré que nunca abrigaram mangue, as raízes alteram o fluxo de sedimentos, reduzem a circulação de água e modificam a química do solo de formas que inviabilizam tanto as espécies que dependem da planície aberta quanto as que dependem do mangue estabelecido. O resultado é uma área de transição ecologicamente degradada que acumula carbono em ritmo muito inferior ao que a planície original acumulava e ao que um mangue maduro acumularia décadas à frente. A instalação de painéis solares sobre essas mesmas áreas amplifica o problema: a estrutura física dos painéis altera a incidência de luz, a temperatura do sedimento e o regime de marés em escala local, perturbando os processos biogeoquímicos que mantêm o carbono trancado no fundo.

A dimensão dos mercados voluntários de carbono entra aqui com força. Projetos de carbono azul certificados por padrões como o Verified Carbon Standard ou o Gold Standard geram créditos que são vendidos a empresas dispostas a pagar pela compensação de suas emissões. O preço de cada crédito reflete a tonelagem de carbono comprometida a ser sequestrada ao longo da vida do projeto. O que os métodos de verificação atuais raramente contabilizam é o carbono liberado pelo ecossistema perturbado que existia antes do projeto. Numa planície de maré com sedimentos de quinhentos anos de acumulação, a perturbação do substrato pode liberar em meses o carbono estocado em décadas. O projeto continua emitindo créditos. O planeta continua acumulando CO₂.

O problema não é exclusivo da Ásia. A lógica que o estudo da Nature Sustainability identificou na costa oriental da China reproduz-se em variações locais ao longo de costas tropicais e subtropicais onde governos e empresas buscam simultaneamente cumprir metas climáticas e de biodiversidade. No Brasil, planícies estuarinas e apicuns no litoral nordestino têm sido pressionados por projetos de energia eólica e solar offshore. No Sudeste Asiático, programas nacionais de reflorestamento de manguezeiros avançam sobre planícies que abrigam espécies migratórias sem substituto funcional. Em todos esses contextos, o problema estrutural é o mesmo: a métrica que orienta os projetos é a tonelagem de carbono prometida, não a integridade do ecossistema que ela pressupõe.

O Marco Global de Biodiversidade de Kunming-Montreal, aprovado na COP15 em 2022 e cujos mecanismos de implementação foram debatidos até a COP30 em Belém, em novembro de 2025, estabeleceu como meta a proteção de 30% dos ecossistemas terrestres e marinhos até 2030. Planícies de maré estão formalmente incluídas nessa meta. O que o estudo de Mu e seus colaboradores evidencia é que a proteção nominal pode coexistir com a destruição funcional quando os instrumentos de verificação não são capazes de distinguir entre área protegida no papel e área preservada no substrato.

O que está em jogo não é apenas a coerência das políticas climáticas. É a credibilidade dos mercados de carbono como ferramenta de transição. Se projetos certificados e financiados como soluções climáticas estão destruindo os ecossistemas que mais eficientemente resolvem o problema que pretendem resolver, a pergunta que os dados impõem é direta: a quem serve a métrica que não consegue enxergar o que destrói ao mesmo tempo em que contabiliza o que promete criar?

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