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Borboletas mudaram de área em 105 países, e a Amazônia é o ponto cego do mapa

Escrito por Neo Mondo | 23 de agosto de 2026

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Borboletas se alimentam de néctar em uma inflorescência, gesto rotineiro que sustenta a reprodução de milhares de plantas e que o aquecimento vem redesenhando no mapa - Foto: Ilustrativa/Freepik

POR - REDAÇÃO NEO MONDO*

A revista Nature Ecology & Evolution publicou em 5 de agosto de 2026 a maior compilação já feita sobre o deslocamento geográfico de borboletas no planeta: 6.182 registros, 1.758 espécies, 105 países e territórios, algo próximo de 10% de toda a diversidade conhecida do grupo. Em 79% dos casos, o deslocamento apareceu associado às mudanças climáticas e a eventos meteorológicos extremos. O trabalho foi conduzido por pesquisadores da Universidade Monash, na Austrália, do Centro Alemão de Pesquisa Integrativa em Biodiversidade (iDiv), da Universidade Friedrich Schiller de Jena e do Centro Helmholtz de Pesquisa Ambiental (UFZ), com literatura em 15 idiomas e 68 avaliações de especialistas.

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Os números contrariam a leitura mais confortável do fenômeno, a de insetos fugindo do calor rumo a regiões amenas. Oitenta por cento das espécies ampliaram sua área de ocorrência, 27% a reduziram e 22% subiram ou desceram em altitude. Expansão predomina porque espécies limitadas pelo frio passam a ocupar territórios que se aqueceram. Não é adaptação bem-sucedida. É redistribuição forçada. "Para muitas borboletas, sobreviver significa se mover, muitas vezes rápido", disse Shawan Chowdhury, autor principal e chefe do Global Change Ecology Lab da Monash.

O achado metodológico pesa tanto quanto o ecológico. A equipe demonstrou que fontes em inglês super-representam expansões e sub-representam contrações, enquanto as avaliações de especialistas fazem o inverso. Ou seja: quem lê apenas o circuito anglófono da ciência enxerga um mundo em que as borboletas conquistam território novo, e não um mundo em que elas também somem. O retrato completo só emergiu quando os autores cruzaram literatura multilíngue, produção não indexada e conhecimento de campo.

O Brasil aparece nos dois lados dessa conta. O país figura entre os que mais concentram registros de expansão horizontal nos trópicos, e o estudo cita a borboleta Godartiana byses, que ampliou sua ocorrência do Rio de Janeiro e da Bahia até São Paulo em resposta ao aquecimento, movimento descrito por Braga, Ramos, Aguiar e André Victor Lucci Freitas, da Unicamp, coautor do artigo global. Ao mesmo tempo, a Bacia Amazônica integra a lista das áreas mais sub-representadas do levantamento, ao lado da África Central, do Sudeste Asiático e da Nova Guiné. Na América do Sul, o fator mais citado para os deslocamentos não foi o clima, e sim "intrusões e perturbações humanas", assinatura direta do uso da terra.

A escassez de dados tem custo mensurável. Sessenta e cinco por cento das espécies do banco têm um único registro, vindo de um único estudo e de um único país. Apenas três espécies acumulam registros repetidos de mudança altitudinal em estudos distintos. Para um terço de todas as borboletas do mundo não existe sequer um registro de ocorrência disponível. Nos trópicos, onde os deslocamentos em altitude quase não foram documentados, as espécies vivem próximas de seus limites térmicos superiores, com distribuições restritas e pouco acesso a refúgios frios. "Mesmo pequenos aumentos de temperatura podem empurrá-las além do limite", resumiu Chowdhury.

A base brasileira de evidências continua rala. Levantamento de Thomas Lewinsohn, Kayna Agostini, André Freitas e Adriano Melo, publicado na Biology Letters em 2022, reuniu 75 tendências ao longo de 22 anos, em média, para insetos terrestres, com maioria de queda. A Mata Atlântica dominou a amostra, Cerrado e Amazônia apareceram pouco, e para Caatinga e Pantanal a equipe não encontrou estudo algum.

Para quem formula política pública, o problema deixa de ser entomológico. O artigo aponta que 76% das espécies de insetos estão insuficientemente representadas no sistema atual de áreas protegidas, proporção que sobe a 85% entre as borboletas migratórias. A Lista Vermelha da IUCN opera com mapas estáticos, e o planejamento de conservação raramente incorpora dinâmica de distribuição ao delimitar reservas. Alinhar o Brasil às metas do Marco Global de Biodiversidade de Kunming-Montreal exige incorporar dados de deslocamento ao planejamento territorial, ao monitoramento e aos relatórios de progresso.

A projeção que dá dimensão ao risco veio de outro estudo da mesma revista, assinado por Stefan Pinkert e colegas em 2025: a perda da extensão geográfica termicamente adequada às borboletas pode chegar a 64% até 2100, mesmo supondo dispersão plena dentro de cada região biogeográfica.

*Com informações do Jornal da USP.

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