Biodiversidade Ciência e Tecnologia Destaques Emergência Climática Meio Ambiente Oceano Saúde Segurança Sustentabilidade

20,96 °C: o oceano quebra o recorde de julho às vésperas do El Niño mais forte já projetado

Escrito por Neo Mondo | 17 de agosto de 2026

Compartilhe:

Oceano fora das regiões polares atingiu 20,96 °C em julho, a maior média já registrada para o mês - Foto: Ilustrativa/Freepik

POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DO NEO MONDO

A temperatura média da superfície do mar fora das regiões polares chegou a 20,96 °C em julho, superando o recorde anterior de 20,89 °C, medido em 2023. O número foi divulgado em 10 de agosto pelo Copernicus, serviço climático da União Europeia, e cobre a faixa oceânica entre 60° sul e 60° norte, onde se concentra praticamente toda a atividade econômica ligada ao mar.

Leia também: Brasil perde 14 pontos de vegetação nativa em 41 anos e fica mais exposto ao El Niño

Leia também: O degelo do Ártico parou de desacelerar, e o que parecia trégua era só um intervalo

O calor não parou em julho. Dados preliminares do monitoramento diário da Universidade do Maine indicam que, em 10 de agosto, a média global da superfície do mar atingiu 21,15 °C. Na mesma data de 2023, até então o ano recordista, o valor era 21,03 °C.

Boa parte desse calor está represada num único lugar. O Copernicus atribui a alta a temperaturas excepcionalmente elevadas em grande parte do Pacífico tropical, área onde as condições de El Niño já estão presentes e devem se fortalecer nos próximos meses. A leitura da NOAA é mais dura. O Climate Prediction Center opera desde 11 de junho sob El Niño Advisory e agora projeta mais de 90% de chance de um evento muito forte durante o outono e o inverno do Hemisfério Norte de 2026-27. Há ainda 69% de chance de o fenômeno superar em intensidade todos os eventos registrados desde 1950. A mudança na previsão veio da velocidade com que o El Niño está se intensificando e da convergência quase unânime dos modelos para um pico no fim do outono e início do inverno.

No ar, o mês foi menos excepcional. A média global de superfície ficou em 16,90 °C, 1,47 °C acima do nível estimado para o período pré-industrial de 1850 a 1900, praticamente empatada com julho de 2024 e atrás apenas do recorde de julho de 2023. É a diferença entre os dois números que interessa: o ar oscila, o mar acumula.

A Europa viveu a face terrestre do mesmo fenômeno. O período de junho a julho foi o mais quente já observado no continente, com temperaturas 2,79 °C acima da média, e julho concentrou a terceira e a quarta ondas de calor desde maio. A seca iniciada em maio persistiu e se agravou. "Sistemas persistentes de alta pressão retiveram o calor sobre a Europa Ocidental, e as temperaturas extremas também amplificaram a seca generalizada. À medida que os solos secam, perdem a capacidade de proporcionar resfriamento natural, permitindo que o calor se acumule mais facilmente", afirmou Samantha Burgess, líder de estratégia para o clima do Copernicus.

O fogo veio junto. Laurence Rouil, diretora do Serviço de Monitorização da Atmosfera do Copernicus, registrou atividade excepcional de incêndios florestais na Europa Ocidental em área queimada e emissões. Rouil observou que incêndios maiores injetam fumaça em altitudes mais elevadas, o que permite o transporte por milhares de quilômetros e afeta até países com poucos focos próprios.

O recorde de superfície é apenas a leitura visível de um processo mais profundo. Mais de 90% do calor retido no planeta pelo excesso de gases de efeito estufa é absorvido pelo oceano. Em janeiro, um consórcio de mais de 50 cientistas coordenado por Lijing Cheng, do Instituto de Física Atmosférica da Academia Chinesa de Ciências, publicou na Advances in Atmospheric Sciences o balanço de 2025: o conteúdo de calor dos 2.000 metros superiores do oceano subiu cerca de 23 zettajoules em relação a 2024, o nono aumento consecutivo da série. A taxa de aquecimento também mudou de patamar. Passou de 0,14 W/m² por década entre 1960 e 2025 para 0,32 W/m² por década entre 2005 e 2025. Cerca de 33% da área oceânica global ficou entre as três condições mais quentes de sua história desde 1958, incluindo o Atlântico tropical e o Atlântico Sul.

É aí que a conta chega ao Brasil. O país concentra os únicos sistemas recifais do Atlântico Sul, distribuídos por cerca de 3 mil quilômetros de litoral, e uma diversidade singular de corais-de-fogo do gênero Millepora: das quatro espécies que ocorrem aqui, três só existem na costa brasileira.

Em abril, o Ministério do Meio Ambiente e o ICMBio atualizaram a Lista Nacional de Espécies Aquáticas Ameaçadas de Extinção e elevaram a classificação de risco de todas elas. Millepora braziliensis e Millepora laboreli passaram a "criticamente em perigo", categoria imediatamente anterior à extinção na natureza. Millepora alcicornis foi reclassificada como "em perigo" após mortalidade superior a 90% nos últimos eventos de branqueamento. Millepora nitida entrou em "quase ameaçada". "Millepora braziliensis é um animal com distribuição extremamente restrita, o que aumenta muito o risco. Um único evento de branqueamento em massa pode ser suficiente para extinguir a espécie", disse Miguel Mies, professor do Instituto Oceanográfico da USP e coordenador de pesquisas do Projeto Coral Vivo, à Pesquisa FAPESP.

O episódio anterior mostrou a escala do problema. Entre 2023 e 2025, o branqueamento global atingiu 84% das áreas recifais em 82 países e territórios, no mesmo intervalo em que os recordes de temperatura da superfície do mar foram sucessivamente quebrados. Estudo publicado por Mies na revista Coral Reefs em 2025, baseado no maior esforço coordenado de monitoramento já feito no Atlântico Sul, mostra que as perdas foram severas nos recifes do Nordeste e que a repetição dos episódios vem reduzindo a capacidade de recuperação dos recifes. Ruy Kenji, do Instituto de Biologia da UFBA, aponta que os dados do Coral Reef Watch, da NOAA, mostram estresse térmico mais intenso ao norte de Salvador do que na costa leste da Bahia. Guilherme Longo, do Departamento de Oceanografia e Limnologia da UFRN, descreve o que encontra em campo: "Temos testemunhado um declínio quase completo em algumas áreas". Restam esqueletos antigos, já recobertos por outros organismos, de colônias antes abundantes.

Os recifes ocupam cerca de 0,1% da área marinha global e concentram aproximadamente um quarto de toda a biodiversidade oceânica conhecida. Sustentam pesca, turismo costeiro e proteção contra a erosão de praias. A velocidade da perda levou pesquisadores brasileiros a discutir uma alternativa que até pouco tempo parecia distante: manter espécies criticamente ameaçadas fora do ambiente natural, em tanques e aquários. A conservação ex situ esbarra em custo, financiamento de longo prazo e definição de prioridades, e ainda não saiu do papel.

"Estamos diante de uma possível extinção causada diretamente por nós", afirma Mies.

Compartilhe:


Artigos anteriores:

Duas semanas para desaparecer: o plástico vegetal que libera enzimas contra microplásticos

A escola flutuante que atraca no Rio: 450 toneladas, 11 mil milhas de autonomia e uma tripulação sem marinheiros profissionais

Nenhum ponto intocado: 2.315 amostras revelam 248 compostos humanos dissolvidos no oceano


Artigos relacionados