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Agropalma abriga sensores que medem 24 horas por dia o que a seca faz com oito igarapés do Pará

Escrito por Neo Mondo | 22 de agosto de 2026

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Agropalma reúne em suas reservas florestais a equipe de campo do projeto de monitoramento, responsável pela instalação dos sensores e pela coleta dos registros a cada seis meses - Foto: Divulgação/Agropalma

POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DO NEO MONDO

Oito igarapés nos municípios de Acará, Moju e Tailândia, no nordeste do Pará, passaram a operar como um laboratório permanente. Em cada ponto, sensores submersos registram temperatura e condutividade elétrica da água 24 horas por dia, sem interrupção, ao longo de três anos. O projeto é coordenado por Leandro Juen, professor e doutor em Ecologia da Universidade Federal do Pará, e foi desenvolvido pelo PPBio e pelo PELD Amazônia Oriental, da Rede AmOr, com apoio do LABECO, do LABENE, da UNIFAP, da rede internacional CAPACREAM e da UKRI, agência de pesquisa do Reino Unido. As áreas de reserva florestal e de manejo da Agropalma abrigam o primeiro sítio de monitoramento contínuo dessa rede.

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A escolha dos pontos seguiu critérios técnicos. Os riachos precisavam ser perenes, condição sem a qual a medição ininterrupta não se sustenta, e foram distribuídos em desenho pareado, comparando trechos com maior cobertura florestal a trechos submetidos a diferentes usos da terra. O protocolo é padronizado, o que permite comparar depois esses riachos com os de outras regiões da bacia.

O que está sendo medido tem peso desproporcional em relação ao tamanho dos cursos d'água. Para cada quilômetro quadrado de floresta amazônica existem de dois a quatro quilômetros lineares de igarapés, que ocupam cerca de 80% da área das bacias hidrográficas da região. São eles que abastecem, resfriam e conectam o restante do sistema. E são justamente eles que quase ninguém mede de forma contínua.

A lacuna ficou visível na seca de 2023 e 2024. Um estudo liderado por Ayan Fleischmann, do Instituto Mamirauá, publicado na Science, mostrou que entre setembro e outubro de 2023 a água do Lago Tefé, no Amazonas, ultrapassou 40 graus em toda a coluna d'água por vários dias, chegando a 41 graus. A variação térmica entre o dia e a noite alcançou 13,3 graus, e a camada profunda, que normalmente funciona como refúgio, deixou de existir. Entre o fim de setembro e outubro daquele ano foram encontradas 209 carcaças de botos-vermelhos e tucuxis. Os pesquisadores calcularam ainda um aquecimento contínuo de 0,6 grau por década desde 1990. Adalberto Luis Val, do Inpa, coautor do trabalho, resume o efeito fisiológico em termos diretos: aumentos de 1 ou 2 graus já comprometem a reprodução e o metabolismo dos peixes.

Aquilo foram lagos de várzea. Riachos de cabeceira têm outra dinâmica térmica, outra vazão, outra resposta. Ninguém sabe, com resolução horária, o que aconteceu com eles.

Há também uma correção de rota na leitura das causas. O El Niño costuma aparecer como explicação suficiente para as secas amazônicas, e não é. A análise de atribuição do World Weather Attribution concluiu que El Niño e mudança climática reduziram a chuva em proporções semelhantes, mas foi o aumento de temperatura, de origem antrópica, que agravou a seca até os níveis registrados. Trabalhos posteriores acrescentaram que a transição da La Niña de 2022 e 2023 para o El Niño de 2023 funcionou como gatilho, com efeitos amplificados pelo aquecimento global. Os sensores instalados no Pará vão registrar, portanto, eventos que deixaram de ser apenas cíclicos.

A comparação entre trechos florestados e trechos alterados também dialoga com um corpo de evidências já consolidado. Estudos anteriores mediram córregos de 3 a 4 graus mais quentes em áreas desmatadas do que em áreas com mata. Pesquisa da USP publicada na PLOS One indicou aumento de até 6 graus na temperatura média de riachos de cabeceira após o desmatamento, com peixes perdendo até 16% de massa em água mais quente. O que falta não é a direção do efeito. É a série temporal capaz de mostrar quando ele ocorre, por quanto tempo persiste e em que ponto a fauna deixa de conseguir acompanhar.

"O monitoramento contínuo permite enxergar a dinâmica dos igarapés em uma resolução temporal que as coletas convencionais dificilmente alcançam. Poderemos identificar variações diárias e sazonais, eventos extremos e tendências de longo prazo", afirma Juen.

A localização acrescenta densidade ao caso. Acará, Moju e Tailândia estão no Centro de Endemismo Belém, região biogeográfica entre os rios Tocantins e Pindaré que é a área mais desmatada da Amazônia. Os remanescentes florestais ali funcionam como referência para medir o que já foi perdido no entorno. As reservas da Agropalma correspondem a cerca de 60% das terras da empresa e são monitoradas em parceria com a Conservação Internacional, dentro desse mesmo Centro de Endemismo. A parceria com o LABECO já dura mais de dez anos e produziu mais de 40 artigos científicos e a formação de mais de 30 mestres e doutores.

O contexto societário mudou há pouco tempo. Em junho de 2026, o grupo colombiano Daabon concluiu a aquisição de 100% da operação da Agropalma no Pará, que inclui a área de plantação e reserva florestal, seis indústrias de extração em Tailândia e a refinaria em Belém. A transação envolve 107 mil hectares, dos quais mais de 40 mil são cultiváveis. O Daabon foi fundado em 1914, tem sede em Santa Marta, na Colômbia, emprega mais de 5 mil pessoas e opera em quatro continentes.

A rotina de campo é simples e rígida. A cada seis meses, equipes fazem manutenção dos equipamentos e baixam os registros, que passam por curadoria e controle de qualidade antes de entrar na série histórica. Relatórios técnicos, publicações e policy briefs estão previstos para o fim dos três anos de financiamento. Enquanto isso, a rede se expande: a instalação de sensores no Rio Xingu, em Altamira, já está em andamento, e novas unidades devem chegar ao Tapajós, em Santarém, e aos estados do Amapá, Amazonas, Mato Grosso, Maranhão e Tocantins.

foto de cientistas instalando o sensor no igarapé, remete a matéria Agropalma abriga sensores que medem 24 horas por dia o que a seca faz com oito igarapés do Pará
Com água pela cintura, a equipe de campo fixa em uma haste de madeira o medidor que vai acompanhar o igarapé 24 horas por dia - Foto: Divulgação/Agropalma

"Diante da crescente frequência de eventos climáticos extremos na Amazônia, a ciência é nossa maior aliada", diz Tulio Dias Brito, diretor de Sustentabilidade da Agropalma. "O monitoramento contínuo nos garante uma gestão de recursos hídricos muito mais inteligente e transparente."

Juen coloca a aposta em outra escala. "Quando esses dados forem integrados aos demais sítios da rede, teremos uma oportunidade de compreender, em uma escala espacial mais ampla, como riachos de diferentes regiões da Amazônia respondem às mudanças climáticas e às transformações no uso da terra."

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