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Moda em Loop: quando a sustentabilidade vira estilo de vida

Escrito por Neo Mondo | 30 de setembro de 2025

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Estamos presenciando uma virada necessária — não apenas no modo como produzimos moda, mas no modo como vestimos valores - Foto: Mariana Maltoni

POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DE NEO MONDO

Num mundo onde a moda muitas vezes é sinônimo de descarte, a Riachuelo propõe um caminho diferente: o da volta, do recomeço e do propósito. Com a nova linha Pool Loop, a gigante do varejo aposta na moda circular não apenas como tendência, mas como revolução silenciosa — transformando resíduos em novas peças, ampliando a vida útil das roupas e convidando o consumidor a ser parte ativa dessa mudança.

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Nesta entrevista, Taciana Abreu, Diretora de Sustentabilidade da Riachuelo, fala sobre os bastidores dessa transformação, os desafios de escalar práticas circulares em uma indústria historicamente linear e o papel das marcas em acelerar a descarbonização da moda. Entre provocações, reflexões e alguns momentos de descontração, Taciana revela por que acredita que o futuro da moda é — e precisa ser — circular.

foto de taciana abreu, Diretora de Sustentabilidade da Riachuelo, remete a matéria Moda em Loop: Quando a Sustentabilidade Vira Estilo de Vida
Taciana Abreu - Foto: Pedro Henrique Cardoso

Acompanhe a entrevista:

"Loop: Veste, Vai e Volta" é um nome que carrega um conceito quase filosófico — o eterno retorno. Como esse conceito dialoga com o propósito de transformação da Riachuelo e com a urgência de repensarmos o ciclo da moda no Brasil?

A ideia da economia circular é exatamente esta. Seria um ciclo de “eterno retorno” dos materiais onde o resíduo de uma produção vira a matéria-prima da próxima. Nesta filosofia, o lixo se torna um erro de design ou, um erro de processo, e passamos a pensar a criação e produção de forma a reaproveitar todos os seus componentes. 

A transformação da Riachuelo está alinhada com a transformação da moda e do mundo. Acelerar a economia circular é um dever de todos. Ela é uma ferramenta fundamental para atingirmos as metas de descarbonização das mais diversas indústrias. 

No caso da moda, o Brasil tem uma vantagem grande em relação a outros países. Somos o 5º parque têxtil do mundo e o último país do Ocidente a ter a indústria têxtil de ponta a ponta (Fonte: ABIT). Vamos desde a produção de fibras à fiações, tecelagens, estamparias, corte, costura, varejo, semana de moda. 

Temos tudo para ser exemplo na reciclagem têxtil, especialmente no jeans e no algodão. Somos o 4º maior produtor e 1º exportador global da fibra de algodão (Fonte: ABRAPA), além de sermos o 2º produtor de denim do mundo (Fonte: ABIT). Ou seja, dominamos a produção da matéria-prima e do jeans, que tem um perfil de produto muito adequado para a incorporação de fibras de algodão recicladas. 

O que precisamos mesmo fazer é montar a cadeia, desde a logística reversa à gestão de sobras, operações de triagem e adaptação de maquinários. A fibra mista (mistura de uma fibra natural com uma fibra sintética, como uma camiseta 70% algodão, 30% poliéster, por exemplo) ainda não é reciclável em escala. Então precisamos trabalhar com o 100% algodão, no máximo um 99% algodão, 1% elastano. A indústria nunca educou o cliente a comprar pela composição, mas precisamos começar este processo. Vamos ter que educar as pessoas a pensarem também na reciclabilidade da peça de roupa que ela compra, garantindo que possa ser devolvida para a loja e encaminhada para reciclagem têxtil.

O fio reciclado também tem suas peculiaridades. No processo de reciclagem mecânica, as aparas e sobras têxteis são trituradas, o que gera uma fibra mais curta do que a fibra do algodão virgem. Para trabalhar bem com ela, precisamos de maquinários adequados, regulagens específicas, tempo de desenvolvimento. 

E tudo isso está sendo acelerado, Pool Loop é um exemplo real e concreto desta transformação da indústria.

Quanto a urgência desta transformação, é a mesma urgência do combate às mudanças climáticas. Uma está diretamente ligada a outra. Acelerar é preciso.

A coleção reaproveitou 9,4 toneladas de aparas de jeans. Esse dado é poderoso. Como você vê o papel das grandes varejistas em escalar a moda circular para além de uma coleção específica, transformando isso em padrão de mercado?

Sim, este dado é poderoso mas queremos ir muito além. Diria que ainda estamos na pontinha do iceberg e que este número não é nem 1% de onde podemos chegar. O padrão é colocar a reciclagem em “loop”. É por isso que gosto tanto deste nome. É deixar a reciclagem como uma etapa automática dos processos industriais têxteis.

Na Riachuelo, temos uma grande vantagem competitiva, que é termos a nossa fábrica própria, a Guararapes. Somos o único varejista têxtil, dentre nossos concorrentes, que tem fábrica. A Guararapes hoje produz entre 40 e 50% do vestuário que abastece as lojas Riachuelo. Para colocar a reciclagem “em loop”, garantindo escala, estamos em processo de pesquisa e desenvolvimento de fios e bases feitos das nossas próprias aparas. 

O setor de moda ainda é um dos mais poluentes do mundo. Como lidar com o ceticismo de quem diz que coleções sustentáveis são apenas greenwashing?

Tirando as empresas que já nasceram na era digital, as grandes indústrias são filhas da revolução industrial e da economia linear. Precisamos todos começar a transição por algum lugar. As coleções mais sustentáveis nascem como experimentos e experiências de como fazer, a partir de volumes menores, para que possamos testar, aprender e escalar. Faz parte do processo. No entanto, pensando no mercado, já são aproximadamente 10 anos testando e aprendendo. Agora é mesmo a hora de colocar intenção na escala. Isso se reflete no comportamento dos consumidores mais engajados, portanto mais críticos, que fazem uma pressão fundamental para que a indústria evolua. Como quem diz, “não me venha com a 10ª cápsula, quero ver pra valer”. 

Eu tomo sempre muito cuidado com greenwashing. Não se pode usar ações pontuais de sustentabilidade para posicionar empresas como empresas sustentáveis. O 100% sustentável só existe no mundo natural, no mundo industrial ele ainda não existe. Cabe a cada empresa comunicar sua jornada de forma transparente, mostrando onde está avançando e onde ainda precisa avançar. Esta é a comunicação na qual eu acredito e, no caso da moda, comunicar coleções mais sustentáveis faz parte desta jornada evolutiva, com ética e transparência, sempre. 

Pra isso, temos investido também na rastreabilidade em blockchain de nossos produtos. Fizemos isso para as nossas camisetas de algodão agroecológico, linha Pool Regen e linha Pool Loop. Através do QRcode nas peças, clientes e consumidores podem acompanhar todas as etapas da cadeia produtiva das peças, ver quem está por trás de cada uma delas e acompanhar indicadores de sustentabilidade de cada etapa do processo.

Existe um dilema entre democratizar a moda — com preços acessíveis — e investir em processos mais caros e sustentáveis. Como a Riachuelo equilibra essa equação sem transferir o custo para o consumidor final?

Sim, este dilema é real e entendemos nosso papel em democratizar uma moda mais sustentável. Sabemos que são as grandes varejistas que vão mexer o ponteiro da transformação da indústria. Marcas menores, com mais margem, conseguem fazer mais fácil – basta querer. Porém, não são elas que tem o poder de escala.

O natural é equilibrar na margem global da coleção, peças com custo mais alto e peças com custo mais baixo. Por isso, as cápsulas são uma ferramenta importante. Você apresenta a inovação em um conjunto menor de produtos, lança e testa. Funcionou, escala. Não vendeu, volta e repensa. 

O que estamos fazendo agora, é lançar já com um volume mais relevante. Em Pool Loop, por exemplo, são 42 mil peças. Não é mais uma cápsula ou edição especial, é uma linha mesmo. Já nasce com escala.

Se você pudesse dar uma dica para quem quer começar um “guarda-roupa circular”, qual seria a primeira peça ou atitude para adotar hoje?

O pensamento circular estimula a gente a manter uma peça circulando com qualidade pelo maior tempo possível e, no final do seu ciclo de vida, ser encaminhada para a reciclagem têxtil.

Sendo assim: compre peças que vai usar muito, cuide bem das suas peças enquanto está usando e, no fim de vida, descarte corretamente suas peças nos coletores de roupa espalhados por todo o país. Mais de 200 lojas Riachuelo tem coletores e você pode buscar outras opções através do APP Cotton Move.

Dentro disso, tem várias outras dicas legais como: busque comprar peças 100% algodão, que são as mais fáceis de reciclar. Lave suas roupas com sabões naturais como o de coco, que lava e amacia ao mesmo tempo. Use ciclos curtos nas máquinas de lavar, com água em temperatura ambiente (não é necessário aquecer água para lavar roupa, você vai consumir mais energia e emitir mais carbono), seque as roupas no varal, revenda ou doe roupas em bom estado e descarte corretamente peças passíveis de reciclagem.

Taciana fora do escritório: você também recicla seu jeans velho ou tem alguma peça “do coração” que não consegue desapegar?

Eu tenho a muitos anos minha lojinha no Enjoei. Já vendi 110 peças e estou com 20 a venda agora. Essas 110 peças me renderam quase três mil reais. Algumas calças jeans minhas que ficaram apertadas, por exemplo, foram pra lá. Isso é uma das formas que temos de mantermos peças em boa qualidade, circulando por mais tempo. Mas já deixei muita camiseta 100% algodão, por exemplo, aquelas já bem usadas e desgastadas para reciclagem nos coletores das lojas. 

Peças do coração tenho várias, principalmente as feitas pela minha avó, que era costureira. Ela fez muita roupa pra mim e tenho um amor enorme por essas peças. Guardo até hoje a saia que ela fez para a minha formatura do colégio há mais de 25 anos. Está em perfeito estado!

Vamos brincar de futurologia: como você imagina a experiência de compra de moda em 2035? Roupas feitas sob medida por impressão 3D? Armários virtuais?

Eu amo biologia e vejo muitos biomateriais. Couros de bactérias e fungos. Tecidos que usam sobras da indústria alimentícia como agave e abacaxi. Ouvi um dia que para a moda atingir suas metas de descarbonização, precisará reinventar 70% das suas matérias-primas. Em 10 anos, acho que vamos ter muito tecido novo. Tecidos mais tecnológicos e inteligentes também, que resfriam ou aquecem, nos ajudando a lidar com as mudanças do clima. Além claro, dos tecidos reciclados que espero que virem o “novo normal”.

No fim das contas, falar sobre moda circular é falar sobre o tempo — o tempo que uma peça leva para nascer, para ser usada, para voltar ao ciclo produtivo e para renascer como algo novo. É também falar sobre o tempo que temos para mudar os rumos da indústria antes que o planeta nos cobre a fatura.

Taciana Abreu nos lembra que cada calça jeans pode ser mais do que uma simples peça de roupa: pode ser um manifesto, um gesto de cuidado com o planeta e com as pessoas. A Riachuelo não está apenas produzindo moda — está tentando redesenhar o futuro dela. E nós, consumidores, somos convidados a participar desse ciclo.

No final, a pergunta que fica é simples e poderosa: você vai deixar sua moda em loop ou no lixo?

dados da riachuelo, remete a matéria Moda em Loop: Quando a Sustentabilidade Vira Estilo de Vida
Imagem gerada por IA - Foto: Ilustrativa/Divulgação

Taciana Abreu - Diretora de Sustentabilidade da Riachuelo, onde lidera uma ampla agenda ESG com foco em ecoeficiência, circularidade, inovação têxtil, justiça climática e impacto social. Entre os destaques de sua atuação estão o fortalecimento da plataforma “Moda que Transforma” e do Instituto Riachuelo, que promovem a transformação da moda através do desenvolvimento de produtos com menor impacto ambiental e maior impacto social, garantindo a proteção de ecossistemas e a criação de possibilidades de desenvolvimento humano através da geração de emprego, renda e inclusão. Com um ano de Riachuelo, contribuiu com o lançamento de linhas jeans com menor consumo de água e algodão reciclado, malhas feitas com algodão agroecológico e tingimento natural, além de peças que enaltecem o bordado tradicional do Nordeste. Acredita na colaboração com a cadeia de valor, terceiro setor e órgãos públicos, assim como no investimento financeiro para a transformação da moda.

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