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Escrito por William Wills | 30 de setembro de 2026
Projeto de desenvolvimento para o Brasil passa por integrar indústria e energia limpa, com investimentos que gerem empregos e reduzam emissões. - Imagem gerada por IA - Ilustrativa/Neo Mondo
POR - WILLIAM WILLS*
A estratégia de longo prazo com uma nova visão sobre o futuro do Brasil
O Brasil tem uma NDC, um Plano Clima, uma nova política industrial, um Plano de Transformação Ecológica, um mercado regulado de carbono em implementação e novos marcos para hidrogênio de baixa emissão, biometano e combustíveis do futuro. Tem também instrumentos financeiros que ganharam escala, como o Fundo Clima e os leilões do Eco Invest Brasil, que usam recursos públicos para atrair capital privado para a transição. O que o Brasil ainda não tem é um documento capaz de tratar, de forma integrada, uma pergunta muito mais simples de formular do que de responder: que economia o Brasil quer ter em 2050 e como chegar lá?
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É essa a função das chamadas Long-Term Low Greenhouse Gas Emission Development Strategies, ou LT-LEDS, as estratégias de desenvolvimento de longo prazo com baixas emissões de gases de efeito estufa. O Acordo de Paris estabelece que os países devem se esforçar para formular e comunicar essas estratégias, considerando suas diferentes circunstâncias nacionais. A própria Convenção do Clima (UNFCCC) é clara quanto ao papel delas: dar horizonte de longo prazo às metas de médio prazo, as NDCs, e inseri-las no contexto mais amplo das prioridades de planejamento e desenvolvimento de cada país.
Ao contrário das NDCs, que os países precisam apresentar a cada cinco anos, as estratégias de longo prazo não são obrigatórias. Juridicamente, portanto, o Brasil não descumpre o Acordo de Paris. O problema é outro: a ausência do instrumento prejudica, sobretudo, o próprio planejamento brasileiro.
Uma NDC estabelece resultados climáticos a serem perseguidos em determinado horizonte. Uma estratégia de longo prazo procura responder a uma pergunta mais ampla: como a economia pode se transformar ao longo das próximas décadas para tornar esses resultados possíveis e, ao mesmo tempo, produzir desenvolvimento?
O relatório-síntese mais recente da UNFCCC, publicado em 2023, analisou 68 estratégias que representavam 75 Partes do Acordo de Paris. Todas traziam uma perspectiva clara de desenvolvimento: 85% apontavam sinergias com crescimento econômico, 76% com criação de empregos e 85% identificavam necessidades de financiamento e investimento. O Brasil não estava entre elas. Desde então, o número cresceu: o portal da UNFCCC registra hoje 80 estratégias de longo prazo vigentes. O país segue fora da lista.
Há também uma assimetria: cerca de três quartos dos países industrializados já apresentaram sua estratégia de longo prazo. Entre os países em desenvolvimento, a proporção fica perto de um terço. É um paradoxo, porque são justamente os países em desenvolvimento que mais precisam conectar descarbonização e desenvolvimento.
Para uma economia que já alcançou renda elevada, reduzir emissões é um enorme desafio tecnológico, econômico e político. Para um país que ainda precisa aumentar produtividade e salários, ampliar infraestrutura e serviços públicos e reduzir desigualdades, a equação é ainda mais complexa: como fazer tudo isso e, ao mesmo tempo, preparar a economia para um mundo de baixo carbono? Nesse caso, descarbonizar não é apenas deixar de emitir. É decidir como o país se tornará mais competitivo e relevante em um mundo neutro em carbono.
Essa diferença entre deixar de emitir e decidir o que construir ajuda a entender o alcance, e também os limites, do mapa do caminho da transição para longe dos combustíveis fósseis, o Transitioning Away from Fossil Fuels Roadmap (TAFF), que a Presidência brasileira da COP30 colocou em marcha. A iniciativa tem mérito. A Presidência conseguiu manter viva uma discussão politicamente difícil sobre como acelerar a transição energética de forma justa, ordenada e equitativa. O processo já recebeu 268 contribuições, envolvendo 115 países e um amplo conjunto de organizações.
Mas o próprio desenho do TAFF mostra por que ele não substitui uma estratégia de longo prazo. A Presidência da COP30 esclarece que o mapa do caminho não pretende ser um plano de implementação com metas, cronogramas e responsabilidades específicos para países ou setores, nem um documento negociado no âmbito da UNFCCC. Seu objetivo é identificar barreiras, condições habilitadoras e opções que possam apoiar diferentes trajetórias nacionais.
O limite, portanto, é de escopo. O TAFF ajuda a pensar como nos afastaremos progressivamente dos combustíveis fósseis. Uma estratégia nacional de longo prazo precisa responder a uma pergunta adicional: o que colocaremos no lugar e que economia construiremos durante essa transformação?
Uma transição dificilmente conquista apoio duradouro quando, para trabalhadores, empresas e governos locais, aparece apenas como o encerramento de uma atividade econômica. É preciso construir alternativas: novos investimentos, novas cadeias produtivas, empregos, qualificação profissional, infraestrutura, receitas e perspectivas reais de desenvolvimento regional.
Uma boa LT-LEDS também precisa fazer a ponte entre o curto e o longo prazo. Uma meta para 2050, por si só, não informa quais decisões devem ser tomadas em 2030 ou 2035. A estratégia precisa traduzir a visão de futuro em trajetórias concretas: que investimentos e tecnologias serão necessários, que efeitos haverá sobre emprego e renda e quais regiões poderão ganhar ou perder durante a transformação.
Precisa, ainda, explicitar governança, responsabilidades e formas de monitoramento. Quem faz o quê? Como acompanhar a implementação? Como rever escolhas diante de novas tecnologias, mudanças de preços ou transformações na economia mundial? Pensamento estratégico de longo prazo não significa tentar adivinhar 2050. Significa criar mecanismos para tomar melhores decisões ao longo do caminho.
A elaboração desse tipo de estratégia não pode ficar restrita aos especialistas em clima nem a determinadas profissões ou disciplinas. Precisa reunir pessoas capazes de enxergar o país a partir de ângulos diferentes e, sobretudo, de pensar o futuro: identificar quais atividades poderão crescer nas próximas décadas e quais poderão perder espaço, onde estarão as novas cadeias globais de valor e em quais delas o Brasil tem vantagens reais.
O Brasil parte de uma posição rara. Poucas grandes economias combinam matriz elétrica relativamente limpa, enorme potencial adicional de energias renováveis, biomassa, recursos minerais, biodiversidade, agropecuária competitiva, base industrial relevante e possibilidades de remoção de carbono.
Mas vantagem natural não se transforma automaticamente em vantagem econômica.
Também não partimos de uma folha em branco. O Plano de Transformação Ecológica, do Ministério da Fazenda, busca associar à transformação ambiental maior produtividade, atividades de maior valor agregado, empregos mais bem remunerados e redução das desigualdades. O Plano Clima organiza mitigação e adaptação até 2035. A Nova Indústria Brasil e a Estratégia Nacional de Descarbonização Industrial levam a agenda de baixo carbono para a política industrial. O que falta é uma visão de longo prazo que oriente os instrumentos de hoje e os de amanhã e que ouse enxergar, em um mundo de baixo carbono, oportunidades que o Brasil ainda não mapeou.
Quais serão as rotas tecnológicas prioritárias? Quanto investimento cada transformação exigirá? Que infraestrutura precisará ser antecipada? Quais cadeias o Brasil tem condições de desenvolver e quais poderão perder relevância? Como preparar trabalhadores e territórios?
Uma estratégia de longo prazo também permite colocar em perspectiva as escolhas de alocação de capital entre as cadeias de hoje e as de amanhã. O petróleo continuará a ter peso na economia e na segurança energética por muitos anos. Ao mesmo tempo, os investimentos feitos hoje criam ativos, fornecedores, conhecimento e estruturas produtivas que permanecerão conosco por décadas.
A Petrobras prevê US$ 109 bilhões em investimentos entre 2026 e 2030, dos quais US$ 69,2 bilhões na carteira de implantação de exploração e produção e cerca de US$ 13 bilhões em iniciativas de transição energética. A própria companhia estima que seu plano corresponda a aproximadamente 5% do investimento total no país.
Em uma economia na qual o capital é caro e escasso, decisões dessa magnitude carregam um custo de oportunidade alto. E, em um mundo que se descarboniza, há também o risco de ativos encalhados. A pergunta estratégica é quanto da capacidade de investimento, engenharia e inovação do país será destinada a cadeias consolidadas e quanto ajudará a construir atividades com potencial de expansão no longo prazo. O Brasil acumulou vantagens sólidas em biocombustíveis, bioenergia e outras soluções de baixo carbono e pode ganhar relevância não apenas ao descarbonizar a própria economia, mas também ao oferecer essas soluções a outros países. Uma LT-LEDS permite colocar essas alternativas lado a lado, considerando segurança energética, custos, retornos econômicos, efeitos socioeconômicos e o horizonte de cada cadeia nas próximas décadas.
Até instrumentos internacionais ganham outra dimensão sob essa ótica. O Artigo 6 do Acordo de Paris, por exemplo, pode funcionar como catalisador de investimentos e acelerar determinadas transformações. Mercados de carbono e financiamento climático podem ser poderosos meios de implementação. Mas são meios. Não definem, sozinhos, aonde o país pretende chegar.
Esse tipo de planejamento tampouco cabe em um único ministério. Uma estratégia brasileira necessariamente atravessa Fazenda, Meio Ambiente, Desenvolvimento e Indústria, Planejamento, Minas e Energia, Agricultura, Ciência e Tecnologia, BNDES, Casa Civil e diversos outros órgãos, além dos estados e municípios. A experiência internacional confirma o ponto: 82% das estratégias analisadas pela UNFCCC tratam os arranjos institucionais como peça central para integrar o clima ao planejamento do desenvolvimento.
E talvez esse seja um dos maiores desafios. Não basta colocar todos em uma sala. Será necessário conciliar interesses distintos e legítimos, horizontes de planejamento diferentes e visões muitas vezes conflitantes sobre desenvolvimento, energia, agricultura, indústria, território e uso de recursos naturais.
Isso exige uma instância de coordenação com mandato político forte. A ideia de uma Autoridade Climática, anunciada em 2024 para articular as ações do governo federal, aponta nessa direção, mas seu desenho ainda não foi definido. Independentemente do nome ou do formato, permanece a questão: quem coordena uma transformação que envolve praticamente todo o governo?
Essa construção também não pode ser apenas governamental. Empresas, trabalhadores, academia, sociedade civil, estados e municípios precisam participar. É nesse processo que as perguntas realmente difíceis aparecem: como alcançar emissões líquidas zero enquanto PIB e produtividade crescem, salários aumentam, desigualdades diminuem e novas oportunidades surgem?
A resposta está na economia que escolhermos construir: nas cadeias produtivas, nas tecnologias, nas empresas, nos empregos e nos territórios que darão forma ao Brasil das próximas décadas. A redução das emissões será consequência dessas escolhas.
O Brasil já poderia ter elaborado sua primeira estratégia e estar hoje discutindo sua atualização: 74% das LT-LEDS analisadas pela UNFCCC preveem revisões periódicas. O atraso, porém, tem um lado útil. Permite aprender com quem começou antes e evitar que a primeira LT-LEDS brasileira seja apenas uma grande visão para 2050. Ela pode nascer mais próxima da implementação, dos investimentos e das decisões que precisam ser tomadas no caminho.
Chegamos tarde, mas podemos chegar melhor.
O governo que assume em 2027 terá a oportunidade de tratar a estratégia de longo prazo não como mais um documento climático, mas como o instrumento que conecta todos os outros, com um horizonte que vai muito além de um mandato.
A neutralidade de emissões pode ser o eixo de uma transformação econômica capaz de articular novas cadeias produtivas, orientar investimentos e posicionar o Brasil como provedor de soluções de baixo carbono.
Mais do que zerar as emissões líquidas, a questão é que Brasil queremos encontrar quando chegarmos lá: em quais cadeias do futuro teremos relevância, que tecnologias dominaremos, que soluções forneceremos ao mundo e como teremos transformado nossas extraordinárias dotações naturais em prosperidade, melhores salários e mais oportunidades. É isso que faz da estratégia de longo prazo um projeto de país: produzir desenvolvimento sustentável, inclusivo e resiliente.
*William Wills - Diretor Técnico do Centro Brasil no Clima (CBC), engenheiro eletricista pela UFRJ, Mestre, Doutor e Pós-Doutor em Planejamento Energético pela COPPE/UFRJ, com mais de duas décadas de atuação na interface entre ciência, política pública, setor privado e agenda climática. É sócio-diretor da EOS Consultoria e consultor sênior do CentroClima/COPPE/UFRJ, tendo liderado e coordenado projetos estratégicos em mitigação, transição energética, precificação de carbono, modelagem macroeconômica, financiamento climático e transição justa. Colunista do portal Neo Mondo.
