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Relatório do Pnuma transforma 1,5 °C em caminho de volta e cobra corte de 18% nas emissões até 2030

Escrito por Neo Mondo | 8 de novembro de 2026

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Relatório do Pnuma calcula que o mundo precisa cortar 18% das emissões até 2030 para trazer o aquecimento de volta a 1,5 °C antes do fim do século - Foto: Ilustrativa/Freepik

POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DO NEO MONDO

Na véspera da COP31, o relatório da ONU mostra que a demora já tem custo medido em toneladas. Mostra também que as previsões de 2015 erraram para baixo, e que esse erro é hoje o melhor argumento para acreditar no retorno

Durante dez anos, 1,5 °C funcionou como um teto. No relatório que o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) lançou em 21 de outubro, o número passou a ser um lugar para onde o planeta precisa voltar. O Relatório sobre a Lacuna de Emissões 2026: O Ponto de Retorno calcula que as emissões globais de gases de efeito estufa precisam cair 18% até 2030, 45% até 2035 e 69% até 2040, sempre em relação a 2025. Assim o aquecimento chegaria ao pico entre 1,7 °C e 1,8 °C e desceria a 1,5 °C antes de 2100. O documento chega às delegações às vésperas da COP31, que começa nesta segunda-feira (9) em Antália, na Turquia.

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O título é uma confissão. Em 17 edições, o relatório mediu a distância entre as promessas dos governos e um mundo que não passasse de 1,5 °C. Esta é a primeira edição que abandona essa medida. Segundo o texto, décadas de ação insuficiente acabaram com a chance de conter o aquecimento sem ultrapassagem, ou com ultrapassagem menor que 0,1 °C. A diretora executiva do Pnuma, Inger Andersen, foi mais seca: “Procrastinamos no clima e, por isso, estamos dizendo agora que essa janela se fechou.”

O atraso tem preço, e o relatório o mostra com precisão de contador. O novo caminho, chamado de mínima ultrapassagem possível, exige cortar em média 5,7% das emissões por ano entre 2025 e 2035. Quando a referência era a do IPCC, com cortes contados a partir de 2019, bastavam cerca de 5% ao ano. Seis anos de espera somaram quase um ponto percentual a cada ano da década seguinte. Uma parte da conta já não tem como ser paga. Em 2035, 9 bilhões de toneladas de CO2 equivalente separam o caminho ainda possível daquele que teria segurado o planeta em 1,5 °C. Nenhuma política recupera esse volume.

O dado mais incômodo está na comparação entre papel e efeito. Em um ano, o número de países com novas Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs) passou de 57 para 124, e a parcela das emissões globais coberta por elas subiu de 63% para cerca de 76%. A projeção de aquecimento piorou mesmo assim. Com todas as metas cumpridas, o planeta chega a 2,6 °C neste século. O relatório do ano passado falava em 2,3 °C a 2,5 °C. Cumpridas à risca, as novas NDCs cortariam entre 5% e 8% das emissões até 2030 e entre 11% e 15% até 2035. O caminho de volta exige 18% e 45%. Em 2035, a diferença é de 16 bilhões de toneladas no melhor caso e de 22 bilhões com as políticas atuais. A coautora Anne Olhoff atribui a piora à saída formal dos Estados Unidos do Acordo de Paris e à revisão para cima das emissões históricas.

A saída americana também criou uma ilusão de ótica. A distância entre o que os países prometem e o que suas políticas entregam diminuiu desde o ano passado, e não houve avanço nenhum por trás disso. Os modeladores trocaram a meta dos Estados Unidos pela projeção das políticas que o país realmente adota, e uma promessa ambiciosa deu lugar a uma trajetória sem promessa. A brecha encolheu porque a ambição encolheu. Enquanto isso, as emissões americanas cresceram 133 milhões de toneladas em 2025, com maior demanda por eletricidade e a volta do carvão. O Departamento de Estado inseriu no relatório uma nota afirmando que o país não apoia o documento.

No G20, responsável por 76% das emissões do planeta, só seis membros devem cumprir suas metas incondicionais de 2030 com as políticas atuais: China, Índia, Indonésia, Rússia, África do Sul e Turquia. A lista engana. Rússia e Turquia apresentaram metas para 2035 que permitem emitir mais do que suas políticas atuais já entregariam, e o Pnuma lê isso como falta de exigência. O México foi o único do grupo a reforçar a meta de 2030. O Brasil, que presidiu a COP30 em Belém há um ano, não aparece entre os seis. A NDC brasileira prevê redução de 59% a 67% das emissões até 2035 em comparação com 2005.

O retrato de 2025 tem uma armadilha que interessa diretamente ao país. As emissões globais ficaram estáveis em 58,4 bilhões de toneladas, mas a queima de combustíveis fósseis cresceu entre 0,4% e 1,1%. Quem segurou o total foi a terra. As emissões do uso do solo caíram cerca de 0,5 bilhão de toneladas, em parte porque houve menos fogo, sobretudo na África, na América do Sul e em partes do Sudeste Asiático, depois do ano excepcional de 2024. O alívio veio da floresta, e não da mudança na matriz de energia. Deve durar pouco: o super El Niño em curso tende a elevar essas emissões em 2026.

O relatório também traz o melhor argumento a favor da volta, e ele nasce de um erro de previsão. Em 2015, as projeções baseadas nas políticas da época subestimaram tudo. A capacidade renovável mundial cresceu três vezes mais rápido do que se esperava, e a solar fotovoltaica, sete vezes. Com as políticas atuais, o consumo de carvão deve atingir o pico antes de 2030. Se o ritmo continuar, com o apoio de novas políticas, fica ao alcance a meta de triplicar a capacidade renovável até 2030, acertada no primeiro Balanço Global. Andersen pôs o próximo passo em número: mais 5.000 gigawatts de renováveis nos próximos cinco anos. O dinheiro já começou a mudar de lado: o investimento em energia limpa deve chegar a US$ 2,2 trilhões em 2026, quase o dobro do aplicado em fósseis, segundo dados da Agência Internacional de Energia citados no relatório.

A segunda prova é rara em documentos desse tipo, porque mostra causa e efeito. O Pnuma reuniu mais de 220 avaliações de políticas climáticas. No setor elétrico, as medidas cortaram em média 9% das emissões em relação ao que aconteceria sem elas. Impostos sobre carbono e mercados de emissões renderam quedas entre 5% e 13%. Em 63 casos, em países ricos e em desenvolvimento, as emissões caíram mais de 5% justamente quando uma política climática nasceu ou ganhou força. Política funciona. O problema é o que ninguém mediu. Menos de um terço dos sistemas de precificação de carbono passou por avaliação rigorosa, e os estudos se concentram na Europa, na América do Norte e na China. Regulação, padrões técnicos, investimento público e subsídios são as ferramentas que as economias em desenvolvimento mais usam, e quase não têm avaliação acadêmica. O Sul global decide com pouca evidência justamente sobre os instrumentos de que mais depende.

Fora da eletricidade, os indicadores andam para trás. As emissões dos sistemas de energia, do transporte rodoviário e do metano seguem na direção oposta à necessária. Petróleo e gás devem crescer até o fim da década. Para zerar o desmatamento em 2030, a perda de florestas teria de cair mais de dez vezes mais rápido do que cai hoje. O relatório fixa marcos para depois de 2030: metano pelo menos 25% abaixo dos níveis de 2025 em 2035 e 40% abaixo em 2040. A presidência da COP31 já levou à mesa a proposta de elevar a eletricidade a 35% do consumo mundial de energia até 2035, nível que o Pnuma considera compatível com o caminho de volta.

A letra miúda está na remoção de carbono. Mesmo com todos os cortes, voltar a 1,5 °C depende de retirar da atmosfera e armazenar para sempre cerca de 320 bilhões de toneladas de CO2 até o fim do século. É o equivalente a oito anos das emissões globais de CO2 de 2024. O Pnuma admite incertezas sociais e tecnológicas sobre a chance de chegar a essa escala e avisa que a remoção não substitui o corte na fonte. Em parte, o retorno anunciado no título é um empréstimo feito contra uma capacidade que ainda não existe.

“Ultrapassar a meta não significa desistir”, escreveu o secretário-geral da ONU, António Guterres, na mensagem que acompanhou o relatório. “A lacuna de emissões agora é uma lacuna de liderança.” Andersen fez a ponte com o título: “As nações precisam entender que o ponto de retorno começa agora. Não depois. Agora.”

Cada cinco anos de emissões no nível atual lançam cerca de 200 bilhões de toneladas de CO2 na atmosfera e elevam o pico do aquecimento em 0,1 °C. A Turquia, que recebe a COP31 a partir desta segunda-feira, teve o segundo maior aumento de emissões do G20 em 2025.

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