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Escrito por Neo Mondo | 21 de julho de 2026
Europa em vermelho: imagem de satélite do Copernicus Sentinel-3 mostra a temperatura da superfície terrestre no auge da onda de calor de 23 de junho de 2026 — Foto: Copernicus/União Europeia
POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DO NEO MONDO
Os números começaram a chegar em julho, mas o calor que os produziu ficou concentrado nos últimos dias de junho. Segundo dados provisórios da EuroMOMO, a rede de monitoramento de mortalidade apoiada pelo Centro Europeu de Prevenção e Controle de Doenças e pela Organização Mundial da Saúde, os países do oeste europeu registraram mais de dez mil mortes em excesso durante a onda de calor que atingiu o continente no fim de junho — com um pico de 14.260 óbitos acima da média numa única semana. Mais de 90% das vítimas tinham 65 anos ou mais. A Alemanha foi o país mais afetado, com 5.780 mortes a mais do que a média dos quatro anos anteriores apenas na 26ª semana do calendário. Para efeito de comparação, as oito semanas que antecederam o episódio haviam registrado, em média, quinhentas mortes a menos do que o esperado — o que torna a inversão ainda mais evidente.
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O Copernicus, serviço europeu de monitoramento climático, confirmou que junho de 2026 foi o mês mais quente já registrado na Europa Ocidental e o segundo mais quente do planeta, considerando temperaturas de terra e mar. Recordes de temperatura caíram na França, na Espanha e no Reino Unido. A onda provocou apagões, fechamento de escolas e interrupções no fornecimento de energia justamente no momento em que a demanda por refrigeração alcançava seu pico. Lasse Vestergaard, epidemiologista dinamarquês que coordena a EuroMOMO, disse à imprensa que não há outra explicação plausível para o excesso de mortes além do próprio calor — nenhum surto concomitante de doença respiratória, nenhuma outra variável capaz de justificar um salto dessa magnitude nesta época do ano. A World Weather Attribution, rede de cientistas que calcula a influência humana sobre eventos climáticos extremos, foi direta: a onda de calor de junho seria praticamente impossível num planeta sem a alteração climática provocada pela queima de combustíveis fósseis.
O que esse episódio expõe não é apenas a intensidade do calor, mas o quanto a infraestrutura de países ricos ainda reage tarde. Alemanha, França, Reino Unido e Espanha somam décadas de planos de adaptação, redes de saúde pública robustas e capacidade técnica que boa parte do mundo não tem — e ainda assim o resultado foi dez mil mortes em poucas semanas, hospitais sob pressão e cidades inteiras fechando escolas e ferrovias. Se esse é o desempenho das economias mais preparadas do planeta diante de um evento que os próprios cientistas classificam como cada vez mais provável, a pergunta que fica para investidores, seguradoras e planejadores urbanos é menos sobre se o calor extremo vai voltar — ele vai, dentro de poucas semanas, segundo os mesmos serviços meteorológicos — e mais sobre por que a curva de adaptação segue tão atrás da curva de aquecimento.
Há uma lição incômoda nesse descompasso: o calor extremo mata de forma silenciosa, concentrada em quem tem menos capacidade de reagir — os idosos, os que moram sozinhos, os que não têm acesso a ar-condicionado ou a uma rede de vizinhança que perceba o problema a tempo. Nenhuma dessas mortes aparece como manchete individual; elas só se tornam visíveis quando um sistema como a EuroMOMO soma todas de uma vez, semanas depois do fato. Isso significa que o custo humano do calor tende a ser subestimado exatamente quando mais precisaria orientar decisões — sobre onde investir em resfriamento urbano, sobre como redesenhar redes elétricas para picos de demanda, sobre que tipo de aviso público realmente muda comportamento antes que seja tarde. A Europa acaba de pagar esse preço uma vez. Os próprios meteorologistas franceses já avisam que uma segunda onda pode chegar ainda em julho.
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