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Brasil recicla quase todas as latas de alumínio — mas por que ainda falha com outros resíduos?

Escrito por Neo Mondo | 21 de agosto de 2025

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O Brasil recicla quase todas as latas de alumínio — mas continua falhando com outros resíduos - Foto: Divulgação

POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DE NEO MONDO

Com índice de 97,3% em 2024, o país é líder mundial na reciclagem de latas, mas segue distante de resultados semelhantes em plásticos, vidro e papel. Em entrevista ao Neo Mondo, Cátilo Cândido, presidente da Abralatas, explica o modelo de sucesso e aponta desafios para a economia circular brasileira

Em 2024, o Brasil reciclou 97,3% das latas de alumínio para bebidas, mantendo uma trajetória de 16 anos consecutivos acima dos 95% e consolidando-se como referência mundial. O feito é inegável: um sistema eficiente de logística reversa, que integra indústria, catadores e centros de coleta, transformou a lata em sinônimo de economia circular.

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Mas a conquista também levanta uma pergunta incômoda: por que o país só conseguiu excelência com o alumínio e não replicou o modelo em outros materiais, como plástico, vidro e papel? Em pleno ano da COP30, sediada em Belém, a contradição salta aos olhos. Enquanto o alumínio é revalorizado quase integralmente, o Brasil ainda recicla menos de 15% dos resíduos plásticos, por exemplo, expondo a desigualdade estrutural da gestão de resíduos sólidos.

À frente da Abralatas, associação que articula a cadeia produtiva e impulsionou esse modelo de sucesso, está Cátilo Cândido, que defende que a experiência da lata pode inspirar mudanças mais amplas. Nesta entrevista ao Neo Mondo, ele fala sobre os bastidores desse resultado histórico, os limites da replicabilidade em outros materiais e o papel do Brasil na agenda climática global.

O Brasil manteve por 16 anos índices acima de 95% na reciclagem de latas de alumínio. O que explica essa consistência em um país que enfrenta tantos desafios em outras áreas ambientais?

    Nosso setor desde a fabricação da primeira lata no Brasil já iniciou um debate sobre logística reversa de embalagens. Isso em 1989 bem antes da própria lei brasileira (PNRS). Essa preocupação formou um sistema maduro, que envolve toda a nossa cadeia de valor, da indústria de bebidas às cooperativas de catadores cada um fazendo a sua parte.

    Além disso, a lata de alumínio tem alto valor econômico, o que torna a coleta economicamente atrativa para recicladores, catadores ou até mesmo milhares de cidadãos que veem na sucata uma fonte de renda. Isso demonstra uma cadeia de logística reversa muito bem estruturada, com forte participação da indústria e uma parceria estreita com os recicladores que reintegra rapidamente o material ao processo produtivo. Mais sucata, mais lata e vice-versa...assim este ciclo vai se autoalimentando.

    A Abralatas afirma que a lata de alumínio é o exemplo mais avançado de economia circular no Brasil. Quais elementos desse modelo poderiam ser replicados em outros setores de embalagens?

    O principal é o conceito de economia circular de verdade: todo material que entra no mercado tem destino certo e deve retornar para a indústria. Uma “roda” que não pode parar e traz benefícios em toda sua jornada. Mas vale lembrar: só se viabiliza este sistema com muito investimento vindo de todos os responsáveis. Ou seja, não é do dia para noite.

    Outros elementos replicáveis são: a valorização econômica do material reciclado, que cria incentivos reais para a coleta e reintegração do resíduo, a integração com cooperativas e catadores, que garante capilaridade e inclusão social no processo, e a transparência nos resultados e o compromisso público, que fortalecem a confiança e a credibilidade do sistema. Se conseguirmos estruturar esse conjunto de elementos em ouros setores, teremos condições reais de ampliar a circularidade e transformar a gestão de resíduos no Brasil. 

    O sistema brasileiro de reciclagem de latas envolve diretamente cooperativas de catadores. Qual é o papel real dessas comunidades na engrenagem da logística reversa?

    As cooperativas de catadores são protagonistas na engrenagem da logística reversa das latas de alumínio no Brasil. Elas atuam na linha de frente da coleta, triagem e encaminhamento do material para reciclagem, garantindo que as latas descartadas retornem à indústria de forma eficiente. Sem essa rede capilarizada e comprometida, seria impossível alcançar os índices históricos de reciclagem que temos hoje. Portanto, temos ciência que fortalecer as cooperativas é fortalecer a economia circular como um todo. Um debate necessário que envolve indústria, comércio, sociedade e governo.

    Além do impacto ambiental, qual é a contribuição econômica anual desse modelo para o país — tanto em geração de empregos quanto em movimentação financeira?

    Estima-se que 800 mil pessoas vivam da coleta de recicláveis no Brasil, com o alumínio sendo um dos materiais mais valorizados, graças à sua cotação internacional. Em 2024, o país reciclou 97,3% das latas de alumínio para bebidas, consolidando-se como um dos líderes globais em reciclagem de embalagens. O resultado reforça a robustez do modelo nacional de logística reversa, coordenado por entidades como a Abralatas, e confirma uma trajetória sólida de mais de uma década e meia com índices consistentemente superiores a 95%.

    Nos últimos 10 anos, a reciclagem de latas evitou a emissão de mais de 18 milhões de toneladas de gases de efeito estufa. Como esse dado pode fortalecer a posição do Brasil nas negociações climáticas da COP30?

    Evitar a emissão de mais de 18 milhões de toneladas de gases de efeito estufa em uma década é um resultado expressivo e estratégico para o Brasil. Esse dado comprova que já operamos um modelo de economia circular eficiente, com impactos reais não apenas no meio ambiente, mas também na geração de renda e na inclusão social.

    Na COP30, esse resultado pode reforçar a imagem do Brasil como um país preparado para liderar soluções industriais de baixo carbono, com capacidade de apresentar compromissos climáticos sólidos, baseados em práticas já consolidadas e com potencial de escala global.

    Em termos de reputação internacional, o que a experiência da Abralatas mostra sobre o potencial brasileiro de liderar soluções em economia circular?

    A experiência da Abralatas mostra que o Brasil tem condições reais de se destacar globalmente como referência em economia circular com alguns exemplos. Enquanto muitos países ainda buscam modelos para fechar o ciclo de embalagens, o case da lata de alumínio já é reconhecido mundialmente como o mais avançado. É uma credencial de liderança que coloca o Brasil na vanguarda de soluções sustentáveis. Infelizmente o case da lata é reconhecido mais lá fora que aqui em nosso país.

    Quais inovações tecnológicas estão sendo implementadas para garantir que esse índice continue alto nas próximas décadas?

    A inovação é essencial para acompanhar o crescimento da demanda e garantir que o modelo brasileiro continue sendo referência global em economia circular, com resultados consistentes e escaláveis. Os fabricantes de lata de alumínio no Brasil mesmo com um índice alto por mais de uma década não pararam de investir em nosso país. Ano após ano anunciando novas fábricas, novas tecnologias no processo industrial, energia alternativa e renovável, e agora uma meta de descarbonização audaciosa.

    A demanda por alumínio deve crescer com a transição energética e a eletrificação. Esse aumento pressiona ou fortalece ainda mais o modelo de reciclagem brasileiro?

    A tendência é que essa demanda crescente fortaleça o modelo brasileiro de reciclagem. Quanto maior o consumo, mais relevante se torna a reciclagem como estratégia de abastecimento sustentável.

    foto de latas de alumínio
    A economia circular já é uma realidade no Brasil para as latas de alumínio - Foto: Ilustrativa/Freepik

    Hoje, a reciclagem das latas já é garantida por um Termo de Compromisso setorial. Quais avanços regulatórios ainda são necessários para ampliar esse modelo a outros materiais?

    O Termo de Compromisso das latas é um exemplo bem-sucedido de autorregulação, com metas claras e resultados mensuráveis. Para que esse modelo possa inspirar outras cadeias de materiais, é necessário estabelecer metas mais ambiciosas e específicas por setor, além de ampliar os estímulos econômicos que valorizem a reciclagem e incentivem investimentos.

    Nesse contexto, a Lei de Incentivo à Reciclagem surge como um instrumento estratégico, ao permitir que projetos voltados à cadeia da reciclagem sejam financiados com apoio fiscal - fortalecendo o ecossistema, atraindo recursos da iniciativa privada e estimulando soluções de impacto ambiental e social positivo.

    Também é essencial fortalecer a infraestrutura da reciclagem no país, com apoio técnico e financeiro às cooperativas, e garantir que a responsabilidade pela logística reversa seja efetivamente compartilhada por todos os elos da cadeia, sem concentrar esforços apenas nos catadores.

    Sabemos que o atual governo tem avançado em regulação via decretos. Seja por meio de Termos de Compromisso, decretos ou mecanismos como a Lei de Incentivo, é urgente acelerar o avanço dessa agenda. Consolidar marcos como a Política Nacional de Economia Circular será determinante para transformar a reciclagem em uma política de Estado, e não apenas de nicho.

    Quais são os principais desafios que ainda precisam ser superados para que o Brasil consiga expandir esse case de sucesso para embalagens plásticas, vidro ou papel?

      Ainda temos a baixa viabilidade econômica de alguns materiais, que tem valor de mercado muito inferior ao alumínio. Outro desafio é que o Brasil é um país continente com alto custo logístico, especialmente em regiões distantes dos centros de reciclagem. Nosso setor defende o fortalecimento das cooperativas, apoio para educação ambiental, ferramentas econômicas previstas pela PNRS e uma Lei de Incentivo a Reciclagem que saia finalmente do papel e possa se tornar realidade. Isso tudo são fundamentais para criar um ciclo virtuoso.  O desafio é grande, mas a experiência da lata prova que é possível superá-lo com união entre governo, empresas e sociedade.

      Em um ano simbólico como 2025, com a COP30 acontecendo no Brasil, que mensagem o senhor gostaria de levar aos líderes mundiais a partir da experiência da Abralatas?

        A mensagem que queremos levar à COP30 é clara: a economia circular já é uma realidade no Brasil para as latas de alumínio, e pode ser um exemplo de solução concreta para os desafios climáticos globais. O case da lata de alumínio mostra que é possível unir eficiência ambiental, inclusão social e viabilidade econômica em um modelo que funciona e entrega resultados.

        E essa mensagem ganha ainda mais força por acontecer na Amazônia, símbolo global da biodiversidade e da urgência climática. Mostrar que o Brasil não apenas protege suas florestas, mas também lidera soluções industriais de baixo carbono, é uma forma de afirmar nosso papel como protagonista na construção de uma nova economia, mais justa, limpa e circular.

        Se pudesse resumir em uma frase, qual é a “lição brasileira” que o mundo precisa aprender com o modelo de reciclagem de latas?

          A experiência brasileira da lata de alumínio para bebidas mostra que soluções simples e bem coordenadas podem gerar impacto ambiental e social duradouros e transformadores.

          Foi um prazer conversar com você Cátilo, e entender de perto como o Brasil conseguiu transformar a lata de alumínio em símbolo de economia circular. É um orgulho ver um sistema que junta indústria, catadores e inovação funcionando tão bem e servindo de referência para o mundo.

          Mas, no fundo, fica a provocação: se conseguimos chegar a quase 100% com o alumínio, por que não conseguimos fazer o mesmo com plástico, vidro e papel? A experiência das latas prova que temos capacidade de organizar cadeias inteiras, gerar renda e reduzir emissões. O que falta é vontade política e compromisso coletivo para ampliar essa lógica.

          Com a COP30 batendo à porta, esse é o recado: temos muito a mostrar, mas também muito a aprender. Que o exemplo da lata inspire outros materiais a seguirem pelo mesmo caminho.

          Cátilo Cândido é presidente executivo da Associação Brasileira da Lata de Alumínio (Abralatas). Com ampla experiência em articulação institucional e relações governamentais, atua na liderança do setor com foco em inovação, sustentabilidade e fortalecimento da economia circular no Brasil. Ao longo de sua trajetória, Cátilo tem conduzido iniciativas que integram indústria, meio ambiente e políticas públicas, posicionando a lata de alumínio como referência global em logística reversa e modelo de embalagem com alto desempenho ambiental.

          Cátilo Cândido - Foto: Arquivo pessoal

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