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Escrito por Neo Mondo | 7 de outubro de 2026
Fernanda Torres dá voz a Patrícia, matriarca da linhagem de onças-pintadas que Lawrence Wahba acompanhou por cinco anos no Parque Estadual Encontro das Águas, no Pantanal de Mato Grosso, em Marcha das Onças - Foto: Divulgação/Netflix
POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DO NEO MONDO
Marcha das Onças, de Lawrence Wahba, estreia em 16 de outubro na Mostra de São Paulo depois de 46 semanas de filmagem no parque considerado o maior refúgio de onças-pintadas do mundo
A Netflix divulgou no sábado (3) as primeiras imagens de Marcha das Onças, o primeiro documentário de natureza da plataforma na América Latina, criado e produzido no Brasil. Fernanda Torres narra o filme na pele de Patrícia, uma onça-pintada matriarca do Parque Estadual Encontro das Águas, no Pantanal de Mato Grosso. Dirigido por Lawrence Wahba, o longa tem a primeira exibição pública marcada para 16 de outubro, na 50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, e entra no catálogo da Netflix ainda este ano.
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Torres não narra de fora. Patrícia conta, em primeira pessoa, a vida dos netos Marcela e Rio, dos primeiros meses de filhote até a fase adulta, num Pantanal que a própria divulgação descreve como cada vez mais perigoso. A escolha põe a atriz que venceu o Globo de Ouro e disputou o Oscar de melhor atriz por Ainda Estou Aqui no centro de um filme cujos protagonistas são felinos.
A equipe fez 26 expedições em cinco anos e passou 46 semanas no parque e arredores, trabalhando com pantaneiros, pesquisadores e guarda-parques. O projeto cresceu no caminho. Em maio de 2025, quando a Netflix anunciou o filme num pacote de dez produções brasileiras, Wahba falava em nove expedições, quatro cinegrafistas, drones, microcâmeras e câmeras estabilizadas em barcos. O título provisório era Duas Irmãs, e o governo de Mato Grosso apresentava como personagens duas fêmeas de oito anos, Jaju e Âmbar. A versão final se organiza em torno de uma linhagem. Wahba começou a seguir a família em 2021, ao lado do documentarista mato-grossense Mike Bueno, e diz que a natureza foi entregando, no próprio ritmo, drama, dor, perigo e superação. A conclusão dele cabe em quatro palavras: "Uma história de cinema."

O recurso da narração tem pedigree. Marcha das Onças é uma coprodução da brasileira Duo2 com a francesa Bonne Pioche, produtora de A Marcha dos Pinguins (2005), de Luc Jacquet, Oscar de melhor documentário em 2006. Emmanuel Priou, um dos produtores do filme francês, também assina o brasileiro. Jacquet colocou três atores para dar voz aos membros de uma família de pinguins; a versão brasileira teve Patricia Pillar, Antonio Fagundes e Matheus Perissé. Vinte anos depois, o título repete a palavra e a fórmula. O roteiro é de Wahba, Fernanda Palacow e Rafael Spinola.
Tampouco é a primeira onça brasileira a ganhar voz. Em 2023, Diário de uma Onça, feito com a ONG Onçafari, pôs Alanis Guillen, a Juma do remake de Pantanal, na pele de Leventina, uma jovem felina do Pantanal sul-mato-grossense, para contar três gerações de onças reintroduzidas na natureza. A diferença agora é de vitrine. O filme de Wahba nasce numa plataforma global.
Há dinheiro público no projeto. Em julho de 2023, o Conselho Estadual de Desenvolvimento do Turismo de Mato Grosso aprovou R$ 3,5 milhões do Fundo Estadual de Desenvolvimento do Turismo para o documentário, da pré-produção à entrega. A aposta é turística. A Panthera estima em US$ 6,8 milhões por ano a receita bruta que a observação de onças gera para comunidades do Pantanal brasileiro. Mesmo sem plano de manejo, o Encontro das Águas recebeu mais de 2,8 mil visitantes estrangeiros em 2015, segundo estudo publicado na Perspectives in Ecology and Conservation.
Criado em 2005, o parque soma 108 mil hectares entre Poconé e Barão de Melgaço, cortados pelos rios Cuiabá, Piquiri e Cassange. A Panthera calculava entre 80 e 100 onças vivendo na região do parque em 2023. O Pantanal abriga a segunda maior população da espécie no planeta.
Também é um lugar que queima. Em 2020, o fogo consumiu 31% do Pantanal e alcançou 45% da população estimada de onças, 87% delas em território brasileiro, além de 79% das áreas de vida dos animais monitorados. Os números são de um estudo liderado por Alan Eduardo de Barros, da USP, com pesquisadores do ICMBio, da Panthera e do Onçafari, publicado na Communications Biology em 2022. Outro levantamento, coordenado por Walfrido Moraes Tomas, da Embrapa Pantanal, e publicado na Scientific Reports em 2021, estimou em pelo menos 16,95 milhões os vertebrados mortos de imediato pelas chamas em 39 mil quilômetros quadrados. Os autores admitem que a amostragem provavelmente deixou de fora onças, pumas e antas.

Wahba viu aquilo de perto. Em Jaguaretê-Avá: Pantanal em Chamas, lançado no Globoplay, ele filmou os primeiros focos de 2020 e passou dez semanas com brigadistas, veterinários e pesquisadores. O fogo voltou depois que ele trocou o incêndio pela família de onças. Em outubro de 2023, as chamas consumiram 11% do Encontro das Águas. Em 2024, o Pantanal queimou 2,2 milhões de hectares, 157% acima da média de 40 anos medida pelo MapBiomas, e 93% dessa área era vegetação nativa. No Caiman, em Mato Grosso do Sul, a equipe do Onçafari encontrou carbonizada a onça Gaia, de 11 anos. Itapira, de quase dois, foi resgatada com as patas queimadas e devolvida à natureza em 5 de outubro daquele ano.
No Encontro das Águas, onde vive a matriarca que Fernanda Torres interpreta, o fogo de 2020 passou por mais de 90% do parque, segundo o Instituto Centro de Vida. Wahba e Bueno começaram a filmar a família no ano seguinte.
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