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Escrito por Neo Mondo | 7 de outubro de 2026
Populações de tartaruga-verde voltam a crescer com monitoramento como o do voluntário Joseph Vulimainiusiladi Tamani, que devolve ao mar um animal recém-marcado na Ilha Dravuni, distrito de Ono, em Fiji, em fevereiro de 2026 - Foto: Tom Vierus/WWF-Pacific
POR - OSCAR LOPES, PUBLISHER DO NEO MONDO
Relatório Planeta Vivo 2026, do WWF, mostra que metade das populações monitoradas está estável ou em alta, mas registra no Brasil o colapso de corais no Nordeste e o fim da moratória que freou a soja na Amazônia
As populações de animais silvestres monitoradas no planeta encolheram, em média, 73% entre 1970 e 2022. O dado está no Relatório Planeta Vivo 2026, que o WWF divulga nesta quarta-feira (7). Ele se baseia no Índice Planeta Vivo, calculado pela Sociedade Zoológica de Londres (ZSL) a partir de 35.803 séries de dados sobre 5.790 espécies de vertebrados. A América Latina e o Caribe tiveram a queda mais rápida entre todas as regiões do mundo: 95%.
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O número pede leitura cuidadosa. O índice não diz que 73% dos animais desapareceram, nem conta populações extintas. Ele mede a variação média no tamanho de cada população acompanhada desde 1970, entre mamíferos, aves, anfíbios, répteis e peixes. A água doce teve o pior resultado, com queda de 85%, ou 3,6% ao ano. Os ambientes terrestres recuaram 69%, e os marinhos, 56%. Esta 16ª edição incorporou 967 populações e 295 espécies a mais do que a de 2024, o que impede comparar as duas diretamente.
O ano de referência também pesa. A América do Norte e a Europa já tinham perdido boa parte de sua fauna antes de 1970 e, por isso, exibem quedas médias menores: 28% na América do Norte e 23% na Europa e Ásia Central. Na América Latina, o relatório aponta a soma de várias pressões: a conversão de florestas, pastagens e áreas úmidas, o represamento de rios e a exploração excessiva de espécies. A elas se juntam as mudanças climáticas e as doenças, que pesam mais na região do que em qualquer outra. Nos anfíbios, os dois fatores agem juntos, porque o aquecimento deixa as espécies mais vulneráveis a infecções.
No Brasil, a perda aparece em terra e no mar. Mais de 80% das espécies de vertebrados ameaçadas de extinção sofrem pressões associadas ao desmatamento, segundo a plataforma Salve, do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima. Nos recifes de coral com monitoramento de longo prazo em Pernambuco e Alagoas, a cobertura de coral caiu 66% entre 2019 e 2024. A queda acompanhou as ondas de calor marinhas de 2019 e 2020 e a de 2024. No último episódio, os recifes do Nordeste enfrentaram o estresse térmico mais intenso entre todas as regiões monitoradas no país.
"Quando uma floresta é desmatada ou degradada, quando o fogo avança sobre áreas naturais ou uma seca extrema altera rios e outros ambientes, as espécies perdem alimento, abrigo e condições para se reproduzir", diz Helga Correa, especialista em Conservação do WWF-Brasil e uma das responsáveis pelos dados brasileiros do relatório.
O WWF batizou a edição de "A Ciência da Esperança", e o título tem base nos números. Metade das populações da base está estável (7%) ou crescendo (43%). As quedas, porém, são mais intensas do que os aumentos e puxam a média para baixo. O relatório reúne recuperações que levaram décadas. Os tigres em vida livre passaram de cerca de 3.200 em 2010 para 5.700 em 2025. O atum-azul do Atlântico e o do Pacífico deixaram de ser considerados sobrepescados, e o do Pacífico já tinha descido a 2% do nível anterior à pesca. Em 2025, a tartaruga-verde se tornou a primeira tartaruga marinha a passar da categoria "em perigo" para "pouco preocupante" na Lista Vermelha da UICN. Foram cerca de 50 anos de trabalho em mais de 80 países onde a espécie desova.
O WWF-Brasil cita dois casos nacionais. No Parque Nacional do Iguaçu, no Paraná, a população monitorada de onças-pintadas passou de 11 indivíduos em 2019 para 42 em 2025, alta de 280%. Os números vêm do Projeto Onças do Iguaçu, liderado pelo Instituto Pró-Carnívoros em parceria com o WWF-Brasil. A equipe usa armadilhas fotográficas para identificar cada animal e acompanhá-lo ao longo dos anos. O mico-leão-dourado, primeira espécie com que o WWF trabalhou no país, deixou de ser classificado como criticamente ameaçado. "Os exemplos de recuperação apresentados pelo relatório mostram que o declínio da natureza não é inevitável. O Brasil tem condições de reverter perdas, mas isso exige ações de conservação contínuas e em escala", afirma Helga. O próprio relatório avisa que ações desse tipo, sozinhas, não revertem a tendência global.
O desmatamento também recuou. Em 2025, todos os biomas brasileiros perderam menos vegetação nativa do que no ano anterior. O MapBiomas registrou 984.794 hectares desmatados, a primeira marca abaixo de 1 milhão desde 2019 e uma queda de 20,6% em relação a 2024.
O relatório, no entanto, dedica um quadro inteiro a um retrocesso brasileiro. A Moratória da Soja na Amazônia, criada em 2006 por tradings, sociedade civil e governo, fechou o mercado para a soja plantada em áreas desmatadas depois de 2008. Antes do acordo, quase 30% da expansão da soja no bioma avançava sobre floresta derrubada. Uma década depois, a fatia era de 2%. O WWF classifica a moratória como uma das intervenções de cadeia de suprimentos mais bem-sucedidas contra o desmatamento.
Em 5 de janeiro de 2026, a Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove) anunciou a saída do acordo. A entidade reúne tradings responsáveis por quase 45% dos embarques de soja do país. A decisão veio quatro dias depois de entrar em vigor uma lei de Mato Grosso que autoriza o governo estadual a suspender incentivos fiscais de empresas que adotem critérios ambientais além dos exigidos pela legislação. O Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam) calcula que o fim da moratória pode elevar em 30% o desmatamento na Amazônia até 2045. Para o WWF, o caso mostra a fragilidade de compromissos voluntários sem respaldo político.
O relatório atribui a maior parte da perda a três sistemas. O alimentar responde pela maior parte da destruição de habitats. O energético queima carvão, petróleo e gás e gera cerca de três quartos das emissões de gases de efeito estufa. O financeiro decide para onde vai o dinheiro. Para mudar esses sistemas, o WWF adota o conceito de ponto de inflexão positivo, estudado por pesquisadores da Universidade de Exeter. É o momento em que uma transformação cruza um limiar e passa a se reforçar sozinha, ficando mais rápida, mais barata e mais difícil de reverter.
Na avaliação dos autores, a energia já passou desse ponto. A solar é hoje a fonte mais barata para nova geração de eletricidade na maioria dos países, e a capacidade instalada no mundo dobra a cada três anos. Os carros elétricos passaram de 25% das vendas globais de veículos novos em 2024. Alimentos e finanças seguem na fase que o relatório chama de viabilização, quando políticas são testadas e coalizões se formam. No Brasil, o WWF-Brasil coordena desde janeiro de 2026, com a britânica WRAP, a coalizão Brasil Sem Desperdício, que reúne empresas para medir em que pontos da cadeia a comida se perde.

A próxima rodada de negociação começa em menos de duas semanas. A COP17 da Convenção sobre Diversidade Biológica acontece de 19 a 30 de outubro em Yerevan, na Armênia. Os países vão prestar contas do Marco Global da Biodiversidade de Kunming-Montreal, que prevê deter e reverter a perda de biodiversidade até 2030. "A possibilidade de construir um futuro diferente está diminuindo, mas continua aberta", afirma Daudi Sumba, diretor de conservação do WWF Internacional.
O relatório estima em US$ 942 bilhões por ano o déficit no financiamento da biodiversidade. Na outra ponta, o mundo gasta cerca de US$ 470 bilhões por ano em subsídios agrícolas que causam dano ambiental e cerca de US$ 7 trilhões em combustíveis fósseis. Em 2023, US$ 7,3 trilhões financiaram atividades que prejudicam a natureza. Para proteção e restauração foram US$ 220 bilhões: cerca de 3 centavos para cada dólar aplicado contra ela.
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