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Escrito por Daniel Medeiros | 22 de junho de 2026
Misantropia quando o desconforto com o mundo deixa de ser crítica e se transforma em afastamento. Entre a cidade e o silêncio, permanece a difícil arte de conviver com a humanidade - Imagem gerada por IA - Foto: Ilustrativa/Neo Mondo
POR - DANIEL MEDEIROS*
Na segunda metade do século XVII, durante o reinado de Luís XIV, o escritor Jean-Baptiste Poquelin, o Molière, escreveu a peça "O misantropo", retratando as desventuras do honesto Alceste, que não suportava a vida de aparências e jogos sociais da aristocracia da época. Ancorado em um código moral que não admitia outra coisa senão a verdade, Alceste teve o azar de se apaixonar por uma jovem viúva que representava tudo o que ele rejeitava: coquete, superficial, amante das fofocas e das manipulações sedutoras dos salões da nobreza da época. Alceste divide-se entre seus valores e seu coração e busca convencer a amada a abandonar aquela vida de frivolidades e partir com ele para o deserto, onde viveriam seu grande amor, sincero e verdadeiro, isolados do mundo de deturpações, mentiras e insinceridade.
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A misantropia retratada por Molière traduz a dificuldade que acomete certos indivíduos de se ajustarem a um mundo no qual o que aparece de nós é o que somos e não quem somos. Sentimo-nos de um jeito, mas os outros nos definem pela soma de nossas características factuais, qualidades, defeitos, talentos e categorias sociais. E assim é o mundo: aparência e invenção. Nosso legado, como diz Hannah Arendt, só pode ser narrado depois de finda nossa passagem. No "enquanto isso", somos apenas a soma das impressões que causamos por meio de nossa ação e nunca temos controle sobre o que fazemos e sobre o que dizem sobre o que fazemos. Por isso, a misantropia é, antes de qualquer coisa, uma incompreensão da dimensão social da nossa existência, uma tentativa de ajustar o mundo ao nosso interior, sem importar-nos com a vida que ocorre no exterior. O que, quase sempre, só traz frustração e ressentimento.
Daí o engano fácil em relação ao conceito: misantropia seria um ódio pela humanidade, quando, na verdade, trata-se de um desajuste em relação à própria humanidade. Se não compreendo como é viver em sociedade, com suas inúmeras faces a se compor e decompor em mil arranjos, fecho-me em mim mesmo e julgo a todos como incapazes de me compreender em minha verdade. Mas essa "verdade" é apenas desajuste e não singularidade.
Pouco depois do jogo entre o Brasil e o Haiti, ainda em meio aos comentários sobre a vitória do escrete canarinho sobre o valente time haitiano, os celulares, em vários estados brasileiros, dispararam com um sonido forte e assustador. Na tela, a mensagem: "Alerta extremo da defesa civil. Misantropia". Ninguém entendeu nada e as redes sociais logo foram invadidas pelas mais desmedidas interpretações: desde um ataque alienígena até a invasão do ICE estadunidense contra os terroristas do PCC. Tratou-se, no entanto, de uma invasão cibernética no sistema da Defesa Civil, logo desativado. Não há nenhum indício, até o momento, de um responsável por esse ataque. As consequências, até aqui, foram o susto, a febre de especulações e um crescimento intenso de buscas pelo significado da palavra que aparecia no alerta.
O personagem de Molière acreditava que não havia solução para a falsidade da sociedade, exceto isolar-se dela. Parte de nossa sociedade do século XXI parece estar chegando a uma conclusão semelhante: ninguém é confiável, ninguém entende nossas "verdades", ninguém é honesto o suficiente, tudo e todos não estão à altura de nossa companhia sincera e desinteressada. Ou, na linguagem popular, ninguém presta. Daí estarmos sem paciência para qualquer coisa e quase tudo ser motivo para nossos protestos e nossa ira moral. É um mundo inteiro de mimimi desenfreado, de gente que não merece estar ganhando visibilidade enquanto quem é sincero e verdadeiro não é reconhecido. A saída, portanto, é o deserto.
Essa ressaca narcísica, que "acha feio tudo o que não é espelho"; esse reviva nostálgico que não suporta uma sociedade plural e rica em expressões e modos de vida, ganhou agora uma roupagem mais elegante: misantropia.
Mas continua a ser narcisismo.
*Daniel Medeiros - Advogado e especialista em Filosofia Contemporânea pela PUCPR. Mestre e Doutor em Educação Histórica pela UFPR. Pós doutorando em Bioética pela PUCPR. Professor da Especialização em Filosofia do Direito, da Escola de Direito, e Especialização em Neurociência e Educação, da Escola de Educação e Humanidades da PUCPR. Autor da Coluna Cuidados Humanos, da revista Humanitas. Conselheiro e colunista do portal Neo Mondo.

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