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Escrito por Daniel Medeiros | 26 de outubro de 2026
Quarto mandato celebrado no palanque, com o presidente reeleito ao microfone diante de aliados e da bandeira do Brasil projetada ao fundo - Foto: Getty Images
POR - DANIEL MEDEIROS*
O presidente Lula conseguiu mais uma proeza histórica: virar uma eleição perdida e alcançar o quarto mandato presidencial em uma eleição democrática. Antes, somente o presidente estadunidense Franklin Roosevelt conseguira este feito. Além disso, Lula ampliou a margem em relação ao último pleito que disputou, abrindo mais de quatro milhões de votos sobre seu adversário. Aliás, assim como o pai, Flávio não reconheceu a derrota e fez acusações infundadas e sem lastro. Paciência. Agora, assim como é terrível ser um mau perdedor, é preciso, igualmente, ser um bom vencedor. Lula ganhou de forma incontestável, mas 48% dos eleitores disseram-lhe um sonoro não. O país está dividido e o compromisso número um do quarto mandato é encontrar um chão comum para reconstruir a casa da Nação. O passo mais importante já foi dado: afastar o risco de a extrema direita assumir o governo e trazer consigo as tensões sobre as instituições democráticas. Agora é preciso reagrupar todas as vertentes que entendem que as divergências devem ser tratadas sob o manto da Constituição e repactuar os grandes desejos dos brasileiros em bases que não tenham uma só cor, mas que matize os interesses e expectativas diversos. Lula precisa deixar de ser o Lula do PT e tornar-se, nesse mandato derradeiro, o Lula para o país inteiro. Ao final de seu mandato, poderá ser a direita democrática, a centro direita, o centro, a centro esquerda ou mesmo a esquerda a assumir, e é necessário que as pontes entre estes campos estejam construídas, deixando de fora dos muros apenas os raivosos extremistas e suas narrativas de que liberdade e democracia são inconciliáveis .
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Esse desafio começa com algo que o presidente já apontou no seu discurso da vitória: é preciso estar mais presente, conversando com as pessoas, expondo-se, ouvindo atentamente, saindo de seu círculo palaciano e sentindo a pulsação de um país em busca de uma identidade mais generosa e menos amedrontada de si mesma. Uma juventude que não sabe o que fazer do futuro, uma velhice em pânico com a falta de cuidado e proteção, uma população trabalhadora em busca de mais oportunidade para crescer e realizar seus sonhos, uma classe produtiva que se sente enganada por um Estado gastador e pouco eficiente nos serviços que oferece. Os desafios são enormes, mas agora Lula está livre do futuro. Seu tempo é o agora. Seu legado já está consolidado, como nenhum outro político do país, nem mesmo Getúlio, que governou sendo ditador na maior parte de seu tempo à frente do país. Outra coisa importante: Lula precisa deixar de estimular o deboche e o revanchismo, de ceder aos apelos fáceis de tripudiar, e se empenhar , imediatamente, a estender as mãos aos que não votaram nele, propondo ouvir e entender. Os que se recusarão são bem menos do que as redes sociais fazem crer. Hoje, provavelmente, há algo em torno de 15% de extremistas no país. Não chegam a fazer verão. Quando muito, fazem alguma sujeira nos pátios e nos capôs dos automóveis. Mas a imensa maioria está disposta a participar se o governo estiver disposto a propor teses que permitam a estas pessoas se identificarem. Como o fim da escala 6X1; como a isenção do Imposto de renda para quem ganha até 5 mil reais. Pautas que unam e não as que separam. Quando a esquerda mundial resolveu apostar na diferença ao invés da semelhança, e exigir reparações e gerar constrangimentos até mesmo na forma de falar e de agir, quebrou o encanto que, na minha juventude, movia as multidões: "o povo, unido, jamais será vencido". Esta eleição demonstrou que parte dessa magia está de volta. Foi impressionante. Mas não é suficiente. É preciso ter coragem para aprofundar essa busca por referenciais comuns de aproximação , que respeitem as diferenças, é evidente, mas invista nas semelhanças dos projetos e sonhos. E quem sabe Lula possa , sendo o mesmo pela quarta vez, ser inovador ainda uma vez mais.
*Daniel Medeiros - Advogado e especialista em Filosofia Contemporânea pela PUCPR. Mestre e Doutor em Educação Histórica pela UFPR. Pós doutorando em Bioética pela PUCPR. Professor da Especialização em Filosofia do Direito, da Escola de Direito, e Especialização em Neurociência e Educação, da Escola de Educação e Humanidades da PUCPR. Autor da Coluna Cuidados Humanos, da revista Humanitas. Conselheiro e colunista do portal Neo Mondo.

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