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COP 30 e o dilema da decisão em meio à divisão entre stakeholders

Escrito por Neo Mondo | 25 de junho de 2025

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Imagem gerada por IA - Foto: Divulgação

ARTIGO

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Por - Guilherme Athia*, especial para Neo Mondo

Os últimos dez dias me levaram a compromissos em três capitais com relevância decisiva no cenário global: Londres, Haia e Bruxelas. Em encontros com investidores, câmaras de comércio, acadêmicos, empresários e institutos de governança, um mesmo tema emergiu, com frequência e urgência: como os líderes brasileiros — empresariais e setoriais — irão se posicionar na COP 30 frente aos desafios da sustentabilidade e das agendas sociais em um contexto de crescentes divisões?

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A pergunta, que também escuto com frequência onde moro, em Portugal, não é trivial. Ela vai além da curiosidade sobre políticas ambientais. Trata-se de compreender como se dá o processo de decisão quando há divergência real entre stakeholders relevantes — investidores, clientes, reguladores, comunidades e sociedade civil — todos com expectativas legítimas, mas muitas vezes incompatíveis.

Recebo essas provocações em razão da minha atuação como especialista em governança e confiança. E o que se apresenta para os conselhos e lideranças empresariais hoje é um dilema claro: como tomar decisões estratégicas quando não há consenso entre os atores que importam?

Alguns stakeholders pressionam por metas climáticas mais agressivas, vinculadas a compromissos ESG e responsabilidade social ampliada. Outros alertam para os riscos de custo, competitividade, burocracia e interferência ideológica nas decisões empresariais. No centro dessa tensão estão os CEOs, conselheiros e dirigentes setoriais — que precisam decidir.

Esse é o verdadeiro debate que antecede a COP 30. E ele não se resolve com posicionamentos ideológicos ou adesões automáticas a uma narrativa. Trata-se de governança no sentido mais profundo: a capacidade de processar divergências, ponderar impactos e construir confiança a partir de escolhas difíceis.

O Brasil parte de uma base sólida. Temos ativos estratégicos como uma matriz energética limpa, um Código Florestal avançado e uma cultura plural que acolhe diversidade e imigração. Mas isso, por si só, não responde à pergunta: como cada organização vai decidir, diante da pressão?

É nesse ponto que a governança se torna crítica. A tomada de decisão responsável não busca agradar a todos, mas deve ser orientada por princípios, dados e visão de longo prazo. E a confiança, tão necessária nesse ambiente polarizado, se constrói com coerência, transparência e resiliência — especialmente quando a decisão desagrada uma parte importante da equação.

A COP 30 será um marco para o Brasil, mas também um teste para o setor privado. Não será suficiente demonstrar compromissos no papel; será necessário mostrar discernimento na prática. Decidir com responsabilidade quando os stakeholders estão divididos exige maturidade institucional, preparo técnico e liderança.

Para os líderes brasileiros, esse é o desafio central: agir com coragem, mas também com governança — e construir confiança em um momento em que nenhuma decisão será simples ou consensual.

*Guilherme Áthia é palestrante e consultor na área de Confiança, Governança e Assuntos Públicos e autor do livro “Get the M.E.M.O.”

foto de Guilherme Áthia, autor do artigo COP 30 e o dilema da decisão em meio à divisão entre stakeholders
Guilherme Athia - Foto: Divulgação

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