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Escrito por Laclima | 13 de setembro de 2025
Pôr do sol na Amazônia - Foto: Ilustrativa/Pixabay
Por - André Castro Santos*, Caroline Rocha* e Flávia Bellaguarda*
Não é exagero dizer que a COP 30 é a conferência do clima mais importante desde a adoção do Acordo de Paris, que completa dez anos em 2025. Mas a "era da implementação" do tratado começa num cenário muito desafiador.
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Entre 10 e 21 de novembro de 2025, na cidade de Belém, no coração da Amazônia, será realizada a 30ª Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC). Mais conhecida como COP 30, a conferência é o espaço decisório mais relevante da governança climática internacional. É nela que os países negociam regras, assumem compromissos e monitoram o cumprimento de metas que moldam o futuro da ação climática global.

Na COP 30, estarão presentes os 198 Estados que são Parte da Convenção e do Acordo de Paris, além de milhares de especialistas, ativistas, cientistas, empresas, representantes de povos indígenas e comunidades tradicionais e de organizações da sociedade civil de todas as regiões do mundo. Trata-se de um espaço com duas dimensões simultâneas: de um lado, acontecem as negociações formais entre os países, nas quais se definem as regras de implementação e os compromissos assumidos coletivamente no âmbito da Convenção e do Acordo de Paris. Todas as decisões devem ser adotadas por consenso entre as Partes, o que torna o processo particularmente desafiador, exigindo longas rodadas de diálogo, construção de pontes e mediação de interesses diversos; de outro, ocorrem eventos, exposições, painéis com especialistas em diversos assuntos, protestos e articulações na chamada agenda de ação climática. A conferência é, ao mesmo tempo, um evento político, diplomático, técnico e também simbólico.
Para entender o que estará em jogo na COP 30, é preciso voltar um passo. Em 2023, a COP 28 aprovou o primeiro Balanço Global de Acordo de Paris, tratado internacional que completa 10 anos em 2025. O Balanço Global é um diagnóstico da implementação coletiva do acordo, realizado a cada cinco anos, que mostrou de forma inequívoca o que a ciência já vinha dizendo: a soma dos esforços atuais são insuficientes, a janela de oportunidade para manter o limite de aumento de temperatura em 1,5ºC está se fechando, e os impactos climáticos já afetam, de forma desproporcional, as populações mais vulnerabilizadas.
O Balanço Global não se limita a apontar lacunas: ele também estabelece direções para que os países corrijam seu curso. E é isso que se espera da COP 30. O momento é de apresentar planos mais ambiciosos, garantir financiamento, implementar medidas e fortalecer a cooperação internacional. É uma conferência que precisa combinar ética, pragmatismo e coragem.

A COP 30, no entanto, acontece em um contexto particularmente desafiador, pois a COP 29 falhou na sua missão de oferecer um acordo suficiente sobre financiamento climático. E a frustração não foi pouca: os países em desenvolvimento, com base em estudos técnicos e científicos, pleiteavam 1,3 trilhão de dólares anuais para dar conta dos desafios que as mudanças climáticas impõem, mas o acordo ficou no valor de 300 bilhões. Dessa forma, a COP 30 inaugura a "era da implementação" do Acordo de Paris com o desafio de dar partida em um motor que contará com muito menos combustível do que o necessário para percorrer esse caminho. Soma-se a isso a profusão de conflitos bélicos e tarifaços pelo mundo. Poucas vezes uma presidência de COP teve que lidar com um cenário geopolítico tão complexo e difícil.
Nesse contexto, o Brasil ocupará um papel especial. Não apenas por ser o anfitrião, mas porque está em uma posição única para exercer a tão necessária diplomacia de ponte: entre países desenvolvidos e em desenvolvimento, entre setores produtivos e comunidades tradicionais, entre as urgências do presente e a responsabilidade com o futuro. Para isso, o governo brasileiro precisará demonstrar coerência entre discurso e prática, alinhando suas escolhas domésticas às expectativas globais. Isso significa avançar em medidas de combate ao desmatamento, revisão de subsídios aos combustíveis fósseis, regulação de mercados de carbono e financiamento da transição justa, entre outros.
Mais do que um evento, a COP 30 é uma oportunidade histórica. Para o Brasil, é o momento de mostrar liderança, ambição e uma extraordinária capacidade de construir pontes. Para o mundo, é a chance de transformar promessas em ações concretas. E para a sociedade, é hora de se informar, se engajar e cobrar compromissos reais.
Foi pensando em aproximar a COP das pessoas reais que a LACLIMA decidiu unir-se ao Portal NEO MONDO, com uma coluna que pretende ajudar a responder às principais dúvidas sobre o debate climático, tornando acessíveis temas que, muitas vezes, parecem distantes do nosso cotidiano.

Além disso, a LACLIMA lançou, em parceria com o Observatório do Clima, a segunda edição do guia "Acordo de Paris: um guia para os perplexos", uma publicação de linguagem acessível que explica o funcionamento das COPs, as estruturas do regime climático, os principais temas de negociação e os perfis dos atores-chave. Com glossário de siglas e resumos das conferências anteriores, é uma leitura indispensável para jornalistas, ativistas e todos que desejam entender os rumos da diplomacia climática e o futuro do planeta. O guia é gratuito e está disponível no site da LACLIMA.
A COP 30 será mais um capítulo das negociações internacionais para o clima. Depois dela haverá a COP 31, a COP 32... Mas não podemos perder essa oportunidade única de criar e reforçar a consciência climática nos brasileiros. A COP vai passar por Belém, mas a ação climática deve permanecer sempre viva entre nós, cada vez mais como parte do nosso dia a dia.
*André de Castro dos Santos - Diretor Técnico da LACLIMA. Doutor Ciências Sociais pela Universidade de Lisboa, e em Direito Ambiental pela USP, onde também concluiu seu mestrado e graduação em Direito, além de uma graduação em Geografia. Membro ativo do Grupo de Pesquisa em Direito Ambiental, Economia e Sustentabilidade da FDUSP, André tem uma vasta experiência como pesquisador em instituições renomadas.
*Caroline Rocha - Diretora de Políticas Públicas e Engajamento da LACLIMA, co-fundadora da Rede Amazônidas pelo Clima e Professora da pós-graduação da UNISANTOS. É graduada em Direito pela Universidade Federal do Pará (UFPA), doutora em Direito pela Universidade de São Paulo (USP) e pesquisadora especialista em transições justas e justiça climática.
*Flávia Bellaguarda - Co-fundadora e Diretora Executiva da LACLIMA. Advogada e Mestre em Justiça Climática pela University of Birmingham e especialização em Sociedade Regenerativa pela Schumacher College. Conselheira em diversas organizações, co-fundadora da Youth Climate Leaders. Atua há mais de 10 anos com política climática na pauta subnacional, nacional e internacional. Palestrante e TEDx Speaker.
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