Cultura Destaques Educação Política Saúde Segurança
Escrito por Neo Mondo | 22 de julho de 2024
Pouco mais da metade dos entrevistados brasileiros reconheceram a diferença entre notícias falsas e verdadeiras - Imagem: Freepik
ARTIGO
Os artigos e informes publicitários não representam necessariamente a posição de NEO MONDO e são de total responsabilidade de seus autores. Proibido reproduzir o conteúdo sem prévia autorização
Por – Daniel Medeiros*, articulista de Neo Mondo
Em junho de 2024, a OCDE publicou os resultados de uma pesquisa envolvendo mais de 40 mil entrevistados de 21 países, com o objetivo de medir a capacidade dos cidadãos em reconhecer notícias falsas ou enganosas na internet.
Leia também: Um finlandês feliz
Leia também: A resiliência da cidadania
Além disso, a pesquisa quis saber onde as pessoas buscam as notícias que balizam suas decisões sobre os mais diversos assuntos, desde o desempenho dos governos até o lançamento de remédios e tratamentos para a saúde.
O resultado não foi propriamente uma surpresa: a Finlândia ficou em primeiro lugar e o Brasil em último. Apesar de algo esperado, tanto em uma ponta como na outra, esse novo último lugar não deixa de ser , mais uma vez, desolador. Mas é algo lógico, para um país que investe de maneira inadequada e ineficaz na educação pública e que teve, até pouco tempo, um governo que disseminava e sustentava notícias falsas e que criou uma legião de seguidores nos executivos estaduais e municipais, além de diversas lideranças negacionistas no legislativo e mesmo no judiciário. O fato é que pouco mais da metade dos entrevistados brasileiros reconheceram a diferença entre notícias falsas e verdadeiras, enquanto na Finlândia o acerto foi de quase 70% . Mais curioso ainda é que, enquanto no Brasil a pesquisa não gerou nenhum comentário oficial nem suscitou qualquer debate no Parlamento, na Finlândia o índice é visto com preocupação e provocou várias discussões sobre as razões e as possíveis soluções para reduzir esse índice de desinformação de mais de 30%.
Um fator já pode ser destacado: enquanto na América Latina, mais de 85% das pessoas sempre ou quase sempre tomam conhecimento das notícias por meio das redes sociais, em países como Alemanha, Japão e Reino Unido esse índice cai para menos de 60%, e nos países nórdicos esse índice é ainda menor. Isto é: buscar notícias nos órgãos profissionais de notícias parece ser um caminho importante para reverter a epidemia de desinformação e negacionismo que afeta a saúde pública de países como o Brasil. Como diz o relatório da OCDE, os cidadãos da América Latina precisam de uma alfabetização em mídias sociais, e a primeira lição é: o que se afirma no seu grupo de whatsapp só é relevante e digno de compartilhamento se for aferido nas redes nacionais e internacionais de notícias. Ainda está gravado na memória dos brasileiros a patuscada do povo nas ruas gritando “vivas e améns” diante da “notícia" da prisão do ministro Alexandre de Morais. O fato de algo que cai na sua rede social ser do seu agrado não implica que é verdadeira.
Mais uma vez a Finlândia, que por sete anos seguidos é considerado o país mais feliz do mundo, mostra que essa tranquilidade toda é também fruto de uma atividade de cuidado com as informações que circulam para saber quais que merecem crédito e quais que não contribuem para o bem comum. A Educação para a cidadania somado à transparência dos agentes públicos funcionam como um círculo virtuoso de confiança e reciprocidade, criando um ambiente de cooperação que torna a vida mais propositiva e satisfatória nesses países. Por aqui, a equação é a mesma, mas com o sinal invertido. Desconfiança somada com má fé e com baixa capacidade de análise crítica, fazem com que o exercício da governança no Brasil seja um desafio não só em relação aos problemas reais como, principalmente, de enfrentamento das crises provocadas nas redes sociais. E haja energia e resiliência para superar tudo isso.
Porém, a melhor forma de resolver um problema é ir em direção a ele. E no nosso caso isso significa, em primeiro lugar, regular o uso adequado das redes sociais, criminalizando os que se valem dela para deturpar ou simplesmente inventar fatos que visam manipular a opinião dos cidadãos. O caso das urnas eletrônicas é um exemplo importante para balizar a ação do judiciário e proteger nossa democracia, já tão deficitária, mas ainda capaz de manter seus fundamentos em “on”. Pelo menos por enquanto. Que o trabalho dos pesquisadores e o impacto de mais esse desconcertante último lugar desperte as lideranças políticas e jurídicas para uma obviedade que precisa ser modificada urgentemente: se nós brasileiros estamos em último lugar é porque todos os demais países têm soluções melhores do que as nossas nesse momento. Aprender com eles e implementar essas soluções é fundamental para garantir que não haja o próximo golpe ou que, pelo menos, ele fracasse novamente.
*Daniel Medeiros é professor e consultor na área de humanidades, advogado e historiador, Mestre e Doutor em Educação Histórica pela UFPR.
E-mail: danielhortenciodemedeiros@gmail.com
Instagram: @profdanielmedeiros

Heloisa Schurmann apresenta série infantil sobre preservação marinha na Bienal do Livro de São Paulo
Gerdau reforça presença no agronegócio em parceria com maior evento de cultura agro do Brasil